Trilha Certa

Há poucos anos, uma instituição não católica divulgou o resultado de pesquisa aqui realizada sobre o número de novas edificações para o culto: igrejas protestantes e católicas, como sinal de vitalidade religiosa. Aquelas, várias centenas e estas, não chegavam a uma dezena. Pedi uma investigação em nossas paróquias. Em sua maioria, havia reformas, ampliações, novas igrejas e capelas. Afastada a hipótese de má-fé, resta saber qual foi o critério tomado e o que se entende por “Rio de Janeiro”: o Estado, o “Grande Rio”, que inclui 5 dioceses, ou somente a Arquidiocese, que se identifica com os limites do Município do Rio de Janeiro. Assim, a todos os recentes dados preliminares do Censo 2000 em matéria religiosa referentes ao Rio de Janeiro se aplica esta observação.

Este comentário alude unicamente à Arquidiocese do Rio de Janeiro. Como, por 30 anos, estive à frente da mesma, como seu Pastor, é meu dever dar esclarecimentos que evitem conclusões errôneas decorrentes do recente censo. A fidelidade ao Sucessor de Pedro e a firmeza na preservação da doutrina nem sempre agradam. O Cardeal João Batista Rè, Prefeito da Congregação para os Bispos, a propósito do Relatório qüinqüenal 1995-1999, desta Arquidiocese, em correspondência a mim dirigida, com data de 23 de junho do ano passado, assim se expressa: “A sua Igreja particular tem dimensões impressionantes, quer pela grande população, quer pela sua estruturação pastoral e vitalidade eclesial, quer ainda pelos desafios que deve enfrentar, na realização de sua missão. Graças à colaboração direta e dinâmica de seus Bispos Auxiliares e dos membros dos diversos Conselhos e Organismos arquidiocesanos, de comunhão e corresponsabilidade, Vossa Eminência consegue prover ao intenso atendimento religioso dos fiéis; a subdivisão da grande Arquidiocese em Vicariatos Episcopais e o Plano Conjunto de Pastoral facilitam a unidade do clero e a conscientização dos esforços sobre metas comuns, de todos os agentes de pastoral engajados nas diferentes realidades locais”.

Sobre o recente censo 2000, em matéria religiosa, devo dizer antes de tudo, ser realmente preocupante o crescimento dos que se declaram “sem religião”. Eles constituem 15,53 % do total da população do Estado do Rio de Janeiro. Uma revista faz a seguinte síntese: ”alto índice de evangélicos (21,13 %) e ateus (15,53 %) no Rio advém de sua grande diversidade de religiões e diminuição de 83,8% para 73,8 % o número de fiéis católicos”. Acresce que, ultimamente, membros de outras crenças, como espíritas e afro, que se declaravam católicos, assumem hoje sua religião. Isso é positivo também para nós, católicos. Reflete-se no crescimento dos que realmente vivem nossa Fé.

Vejamos os dados estatísticos da Cúria do Rio de Janeiro, entre 1994 e 1998, dos quais disponho no momento. A linha de praticantes é, em geral, ascendente, ano a ano. Os que receberam o Batismo, isto é, ingressaram na comunidade eclesial, até um ano de idade, foram, em 1984, 31.932. Em 1998, 35.226; de 1 a 7 anos, 21.315 em 1994 e 21.402 em 1998. Fizeram a Primeira Comunhão 33.065 em 94. No ano seguinte, baixou para 26.065 mas, a partir daí, anualmente, tem crescido o número das Primeiras Comunhões. Crisma: passou de 9.956 em 94 para 16.313 em 98, uma ascensão ininterrupta.

O casamento de cônjuges católicos diminuiu de 9.326 para 7.243 – o que já era esperado – decorrente do clima moral reinante na sociedade. Em relação ao Sacramento da Ordem: em 1972, um ano após a minha posse do Rio, ordenei sacerdote um único diácono. Em 2002, Dom Eusébio Scheid ordenou 17. Houve uma linha de crescimento constante. Há cerca de 10 a 15, anualmente, chegando, em 1995, a 22 novos presbíteros para a Arquidiocese e todos formados no Seminário São José. Aumentou consideravelmente o número de católicos praticantes e muitas novas paróquias criadas, para o atendimento aos fiéis. Em 1971, eram 179 paróquias criadas e, no ano 2002, ao deixar a diocese, eram 242, 63 a mais. Criaram-se muitos novos lugares de culto, ampliações de antigos, em conseqüência do aumento na assistência à Missa dominical. A freqüência ao sacramento da Confissão (auricular), sem dúvida, cresceu muito. O mesmo se diga de grandes celebrações, movimentos de massa, procissões, autos, visitas do Papa.

Integradas na Pastoral desta Arquidiocese, merecem um destaque especial as Missões Populares e as pequenas Comunidades Eclesiais de Base. Em bairros, loteamentos, conjuntos e ruas existem pequenos grupos de católicos que se reúnem semanalmente.
Seu crescimento foi admirável. Em 1986, da primeira grande assembléia participaram 800 delegados. Hoje, estão presentes na Arquidiocese mais de 3.500 núcleos. Somente na Missão Popular, em seus 3 anos de preparação ao Grande Jubileu (ano 2000), surgiram 350 novos grupos.

Em cidades grandes como o Rio de Janeiro, o Círculo Bíblico, verdadeira semente de Comunidades de Base, é uma das mais felizes e eficazes formas de “plantar a Igreja”. Podemos, mesmo, dizer que eles são como “Pequenas Comunidades de Base Urbanas”. A ausência de engajamento político – refiro-me às CEBs e não aos leigos – tem sido um fator altamente positivo em favor da vida religiosa. A Arquidiocese, em sua opção pastoral nos últimos 30 anos, seguiu a trilha certa. Procurou ser fiel às diretrizes do Santo Padre que, aliás, deu apoio explícito, várias vezes à Igreja no Rio de Janeiro. O crescimento das seitas não nos deve levar a restrições ao ecumenismo, mas também serve de alerta para a responsabilidade dos católicos.

A constatação da verdade é fecunda e ajuda a despertar do torpor os que dormem. Declaram-se ainda católicos, mas não agem conforme as diretrizes da Igreja. A eles se pode aplicar o que São João escreve (Ap 3,16): “Conheço tua conduta: não és frio nem quente… porque és morno, vou vomitar-te”.

Cardeal Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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