O tesouro do tempo

Tenho que falar-vos do tempo, deste tempo que se vai. Não vou repetir a afirmação de que um ano a mais é um ano a menos… Também não vos sugiro que pergunteis por aí fora o que pensam da passagem dos dias, pois provavelmente – se o fizésseis – ouviríeis alguma resposta deste estilo: Juventude, divino tesouro, que vais para não voltar… Embora admita que ouvísseis também alguma outra consideração com mais sentido sobrenatural.
Também não quero deter-me a pensar, com laivos de nostalgia, na brevidade do tempo. Para nós, cristãos, a fugacidade do caminhar terreno deveria incitar-nos a aproveitar melhor o tempo; nunca a temer Nosso Senhor, e muito menos a olhar a morte como um final desastroso. Um ano que termina – já foi dito de mil modos, mais ou menos poéticos – com a graça e a misericórdia de Deus, é mais um passo que nos aproxima do Céu, da nossa pátria definitiva.

Ao pensar nesta realidade, compreendo perfeitamente aquela exclamação que São Paulo dirige aos de Corinto: Tempus breve est! (I Cor VII, 29) como é breve a duração da nossa passagem pela terra! Para um cristão coerente, estas palavras soam-lhe no mais íntimo do coração como uma censura pela sua falta de generosidade e como um convite constante para que seja leal. Verdadeiramente, é curto o nosso tempo para amar, para dar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos nem que atiremos irresponsavelmente esse tesouro pela janela fora. Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós.

Não nos deve sobrar tempo; nem um segundo. E não exagero. Trabalho há. O mundo é grande e são milhões as almas que ainda não escutaram claramente a doutrina de Cristo. Dirijo-me a cada um de vós. Se te sobra tempo, reconsidera um pouco: é muito possível que vivas mergulhado na tibieza, ou que, sobrenaturalmente sejas um paralítico. Não te mexes, estás parado, estéril, sem realizar todo o bem que deverias comunicar aos que se encontram a teu lado, no teu ambiente, no teu trabalho, na tua família.

Talvez me digas: E porque havia eu de me esforçar? Não sou eu quem te responde, mas São Paulo: O amor de Cristo nos compele (2 Cor V, 14). Todo o espaço de uma existência é pouco para dilatares as fronteiras da tua caridade. Desde os primeiríssimos começos do Opus Dei, manifestei o meu grande empenho em repetir sem descanso, para as almas generosas que se decidissem a traduzi-lo em obras, aquele grito de Cristo: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo XXIII, 35). Conhecer-nos-ão precisamente por isso, porque a caridade é o ponto de arranque de qualquer atividade de um cristão.

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