Luz, câmera, ilusão...

Luz, câmera, ação!… ‘a música de fundo tocava e os dois se entreolhavam. Havia no ar harmonia e tanta beleza! Dois amantes perfeitos sofriam a dura separação que a guerra impunha; um futuro sombrio se descortinava, mas aquele amor jamais morreria’.

No cinema, diante desta cena, muitos tentavam esconder a lágrima que descia, copiosa, manchando a maquiagem das senhoras e causando um tremendo incômodo aos homens, que não queriam ser vistos naquela situação, nem mesmo pelo mais compreensivo dos amigos. Uma comoção, uma exclamação interior… ‘Isto sim é que é amor de verdade!’

A cena paralisa-se e o inevitável ‘The End’ surge para chamar a platéia à realidade. As luzes do recinto acendem-se automaticamente, deixando à mostra rostos desconsertados que, fragilizados pela mensagem de amor do filme, expressam ao mesmo tempo um sentimento de inveja e frustração. Não em relação ao desfecho que o filme teve, mas em relação às suas próprias vidas, e principalmente, às suas relações amorosas, que na realidade nada têm a ver com o par romântico que acabaram de ver, onde o ‘glamour’ estava presente em tudo, tornando cada detalhe singularmente belo.

O cinema vende ilusões, que por vezes são capazes de levar muitos e muitos ao sofrimento, que não conseguem fazer uma exata e necessária distinção entre as coisas reais e as fictícias. Por isso, alguns saem emudecidos do cinema, achando seus casamentos um completo fracasso, porque existe um abismo de diferença entre Romeu e Julieta e João e Maria; entre as roupas, casas e rostos bonitos do cinema e os
jeans surrados, as casas com prestações atrasadas e os rostos comuns do cotidiano.

A frustração enraiza-se mais ainda quando tentam a todo custo fazer de suas vidas um romance nos moldes ‘hollywoodianos’, acreditando intimamente que amor é aquilo que viram no cinema.

Infelizmente é assim que vivem muitos casais: como se estivessem num grande estúdio de gravação. Amam-se porque são belos, esquecendo que a beleza é efêmera e que a velhice chega apesar de todos os repuxões.

Fico a pensar onde serão ‘jogadas’ essas mulheres quando o tempo corroer sua plástica. Em alguma lata de lixo? E seus maridos? Entregues à solidão da velhice? E onde estava o ‘glamour’ daquela relação tão bela? Afinal de contas eles viveram seu amor em grande estilo, só que, por um lapso, esqueceram que o verdadeiro amor é feito de renúncia, entrega, e que por vezes se mascara de sofrimento e dor.

Parece não haver muita tolerância para o sofrimento, afinal, vemos tanto no cinema o casamento ser ridicularizado e desfeito por tão pouco, que nos desacostumamos a encará-lo como algo a ser trabalhado todos os dias, quando estamos belos e saudáveis, e também quando engordamos alguns quilinhos e estamos mal humorados; quando as coisas vão bem e tudo está nos conformes e quando uma tempestade de contratempos e problemas parece querer nos destruir: quando as contas estão pagas e aquela viagem tão sonhada parece que vai dar certo e quando alguma catástrofe põe por terra todos os nossos planos; quando os beijos e abraços se amiúdam e quando atravessamos momentos de aridez conjugal.

Talvez se os filmes não vendessem tanta ilusão, os casais, quem sabe, sairiam menos frustrados dos cinemas e aprenderiam a entender que o amor verdadeiro é bem mais profundo que beijos e abraços ao som de baladas, e não se apaga com o tempo mas cresce como uma árvore bela e frondosa em cuja sombra aprazível descansa o viajante e cujos frutos são doces como mel.

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