Evitar apegos

Em determinado momento, o diretor espiritual mandou que eu refletisse profundamente sobre mim mesma e me examinasse, para ver se eu não tinha apego a alguma coisa ou criatura, ou a mim mesma, e se não havia em mim tagarelice desnecessária, porque tudo isso impede que Nosso Senhor Jesus Cristo se sinta à vontade na minha alma. Deus tem ciúme do nosso coração e quer que amemos somente a ele. (D. 337)

Também eu e você, precisamos sempre pensar profundamente sobre nós mesmos e nos examinarmos, para ver se não estamos apegados a alguma coisa ou pessoa, ou a nós próprios. Muitas vezes, essa atitude de apego é muito sutil, não conseguimos vê-la totalmente à primeira vista. E esta atitude de apegar-se a alguém ou a alguma coisa, na verdade, reflete algo mais profundo em nós que precisa de cura.

Durante anos, fui movido somente pelos meus sentimentos. Devido a uma grande carência afetiva que tinham, fruto da ausência paterna na minha educação, acabei direcionando para as pessoas as carências que eu tinha, e procurava preenchê-las, doando-me às pessoas e exigindo doação, atenção delas para com a minha pessoa. Com isso, acabei deixando Deus em segundo plano na minha vida, pois para mim era mais importante estar com as pessoas, do que estar com Deus, já que elas – pensava eu – poderiam preencher em mim, aquilo que faltava: o amor. Pura ilusão. Mesmo as decepções que eu tive – e graças a Deus foram numerosas – não me ajudavam a mudar de direção: continuava sempre mais dependente dos outros.

Isto era tão forte em mim, que, algumas vezes, deixava de corrigir os outros por medo de perder a amizade deles, acabava por vivenciar situações onde elas precisavam de correção e eu poderia ajudá-las a crescer neste aspecto, mas acabava por não ligar. O certo, é que a dependência do outro acabou por tornar-me um fraco, de não me tornar santo, nem de ajudar a santidade dos outros. Graças a Deus, um dia o meu coração acordou e Deus me deu a graça de ver que não poderia continuar daquela forma. Acabei por entender que o homem é finito, que ninguém é infalível, mas somente Deus é incapaz de errar, enquanto todas as outras pessoas, são incapazes de preencher as carências de afeto, a sede de amor que eu sinto dentro de mim. Por isso, acabei por optar em ser totalmente de Deus, afastando-me inclusive de pessoas que não me levavam a Deus, de pessoas que humanamente falando eram queridas mas não me ajudavam a caminhar na direção do céu.

Muito ajudou-me ouvir a frase de um pregador que dizia: Não ande com quem não lhe constrói. A princípio esta frase chocou-me pela radicalidade nela contida, mas acabei por concluir a partir da minha experiência pessoal, que ela continha uma profunda sabedoria. Comecei então a cortar a amizade com todos aqueles que não me construíam. Vi então, quanto tempo eu perdia com as pessoas, tempo este que, eu como consagrado, devia dar a Deus. Agora tinha mais tempo para estar com Deus, para rezar, para dialogar com ele. Não posso esconder que no principio a saudade do outro, de estar com aquelas pessoas me fez derramar muitas lágrimas, mas eu não podia voltar atrás. Eu devia colocar toda a minha confiança na bondade de Deus e assumir os riscos de confiar totalmente nele, buscando a certeza de que ele preencheria toda a carência de afetividade que eu tinha.

Já são passados quatro anos, desde quando iniciou este processo, e somente posso agradecer a Deus por Sua Misericórdia e paciência infinita para comigo. Hoje, até quando alguém se aproxima de mim e percebo que pode surgir uma dependência quer da minha parte, quer da parte da outra pessoa, simplesmente me afasto, pois como cristão devo depender somente de Deus.

Não posso apegar-me a quem quer que seja, pois tudo nesta terra é somente ilusão, já que tudo passa. Só Deus não passa, por isso, é a ele a quem devo me apegar. Isto fez de mim um outro homem, um outro sacerdote, mais maduro, mais homem de Deus, afinal, não devo ser outra coisa, senão homem de Deus.

Qualquer apego a coisa, pessoa, ou a mim mesmo, qualquer tagarelice desnecessária (hoje sou capaz de silenciar mais para ouvir Deus e o outro falando, graças a Deus), tudo isso impede que Nosso Senhor se sinta à vontade na nossa alma, pois Deus tem ciúme do nosso coração e quer que amemos somente a ele.

Você é apegado a alguma coisa, pessoa, ou a si mesmo? Você tem falado desnecessariamente? Se isto está acontecendo, tenha a coragem de cortar amizades que não te levam a Deus, que não te constroem, para que desta forma Deus se sinta à vontade na sua alma e no seu coração. Você não se arrependerá. Ainda que lágrimas corram pelas suas faces, não volte atrás, pois é grande a recompensa que te espera.

Pe. Antônio de Aguiar Pereira, SAC
Palotino da Paróquia da Divina Misericórdia / RJ
E-mail: pe_toninho@hotmail.com

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