A Verdade existe!

‘Instigado por esses escritos a retomar a mim mesmo, entrei no íntimo do meu coração sob tua guia, e o consegui, porque tu te fizeste meu auxilio. Entrei e, com os olhos da alma, acima destes meus olhos e acima de minha própria inteligência, vi uma luz imutável.

Não era essa luz vulgar e evidente a todos com os olhos da carne, ou uma luz mais forte do mesmo gênero. Era como se brilhasse muito mais clara e tudo abrangesse com sua grandeza.

Não era uma luz como esta, mas totalmente diferente das luzes desta terra. Também não estava acima de minha mente como o óleo sobre a água nem como o céu sobre a terra, mas acima de mim porque ela me fez, e eu abaixo porque fui feito por ela. Quem conhece a verdade conhece esta luz, e quem a conhece, conhece a eternidade. O amor a conhece.

Oh eterna verdade, verdadeira caridade e querida eternidade! És o meu Deus, por ti suspiro ‘dia e noite’. Desde que te conheci, tu me elevaste para me fazer ver que havia algo para ser visto, mas que eu era incapaz de ver. Atingiste minha vista enferma com a tua irradiação fulgurante, e eu tremi de amor e de temor.

Percebi que estava longe de ti, numa região desconhecida e parecia-me ouvir tua voz do alto: ‘Eu sou o pão dos fortes: cresce, e de mim te alimentarás. Não me transformarás em ti, como fazes com o alimento do corpo, mas te transformarás em mim’.

Compreendi então que ‘corrigiste o homem por sua iniqüidade e secaste a minha alma como teia de aranha’. E eu disse: ‘Porventura deixará de existir a verdade, por não ser uma realidade difusa pelos espaços finitos e infinitos’? E tu me gritaste de longe: ‘Na verdade, eu sou aquele que sou’. E ouvi como se ouve no coração, e já não tive motivo para duvidar. Mais facilmente duvidaria de estar vivo do que da existência da verdade, a qual se apreende através das coisas criadas.’

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