A arte de decidir, como numa batalha...

Vejamos o que significa estas duas palavras – “decidir” e “determinação”.
:: Decidir – resolver; determinar; sentenciar; convencer; persuadir, induzir; dar decisão; emitir opinião ou voto; opinar; resolver; optar. (1)
:: Determinação – ato de determinar; ordem; resolução. (2)

Aqui é preciso entender e ruminar estas duas palavras. É preciso determinar-se até o fim. É preciso estar atento e consciente que esta determinação e decisão nos custará muitas coisas, talvez a própria vida, mas as coisas mais preciosas só conseguimos com ardor, suor e luta, já nos ensinam os mais velhos. É preciso descer dentro de si, observar todas as possibilidades, ver as experiências passadas e se preparar para a viagem, mesmo sem saber onde ela vai dar, tendo uma certeza: a de que Aquele que nos chamou é fiel e terminará o que começou.

Não podemos, no entanto, ser ingênuos na caminhada. Não podemos achar que somente nossa força de vontade será o suficiente para chegarmos até o fim, precisamos nos armar para a batalha, pois será uma guerra que enfrentaremos, uma guerra suja e desleal, porque nosso inimigo usará de todos os artifícios para nos destruir. Pode até parecer uma palavra forte, mas será isso mesmo que ele tentará fazer, nos destruir.

Quanto às armas que utilizaremos, S. Paulo nos fala em carta aos Efésios, no capítulo 6, no trecho Armadura do Cristão, que são a fé, a verdade, a justiça, o ardor para anunciar o Evangelho. Outra grande arma que podemos, e precisaremos realmente dela são os amigos de Deus. Pessoas realmente de oração, pessoas mais velhas na fé, que podem ser pais, amigos, superiores religiosos, acompanhadores, formadores, padres, diretores espirituais, estes são os “sábios” de que foi falado no início. Eles nos orientarão durante o percurso, para que não tropecemos ou nos desviemos do caminho correto. Uma das grandes armas que o inimigo coloca em nosso caminho é o de acharmos que nossos “superiores” são nossos inimigos, que estão contra nós, por isso mesmo S. Paulo nos diz que “não é o homem que afrontamos, mas autoridades, os Poderes, os Dominadores deste mundo de trevas, os espíritos do mal que estão nos céus” (3). Mas para isso, poderemos dentre as armas já citadas ou não, dispor de três especiais para vencer esta guerra: A Eucaristia, a Palavra de Deus e a presença de Maria em suas mais variadas devoções, especialmente no terço ou rosário.

Outra tentação que poderá nos ocorrer durante o percurso chama-se desânimo. Na Sagrada Escritura o Salmista chama-o de demônio do meio-dia (4), porque é exatamente quando não encontramos abrigo (sombra), descanso, e que o chão nos parece ferver e a estrada perder-se de vista, é que somos tentados a desistir de tudo, quando tudo para ilusão, algo inatingível, ressoa em nossos ouvidos uma voz que muitas vezes nos diz “não adianta, não vais conseguir”, “você não tem jeito”, “você é fraco demais, não presta”, “ninguém te quer”. Precisamos em muitos momentos do silêncio em suas várias formas, interior e exterior, nos retirar a sós para podermos discernir e escutar a verdadeira voz do Amado, como a Sulamita do livro dos Cânticos.

É neste ponto, exatamente neste ponto onde devemos nos lembrar da decisão que tomamos, que não podemos mais voltar, de lembrarmos da primeira vez que ouvimos a voz do Senhor que nos chamava, como a Samuel (5), que nos chamou pelo nome, que nos elegeu, ungiu e consagrou. Um soldado de verdade nunca desiste, ele tomba no campo de batalha, mas nunca se permite ser derrotado, morre lutando pela sua liberdade e pelo que acredita – Tombar em batalha sim, mas desistir nunca.

O cristão não luta por um ideal, luta por uma pessoa, Jesus Cristo.

Há dentro do coração do jovem o desejo até mesmo inconsciente por esta luta, para provar a si mesmo que é capaz de vencer, de conquistar o amor de Jesus. Contudo nunca podemos perder de vista o que nos diz Sto. Agostinho de que tudo é graça. Devemos sempre clamar e contar com o auxílio do Espírito Santo porque senão estaremos fadados ao fracasso.

Assim ousou o jovem David contra Golias –“Tu vens contra mim armado de espada, lança e dardo; eu, porém, venho a ti armado com o nome do Senhor de todo poder, o Deus das fileiras de Israel, que desafiaste”(6) . Foi assim também com o jovem Josué, que se sentou à porta da sabedoria de Moisés e que depois o sucedeu na liderança do povo hebreu na entrada e conquista da terra prometida – Canaã – pois era amante da lei e um homem determinado e inflamado de amor pelo Senhor.

Precisamos a exemplo de Josué, de David e de tantos outros, como Judas Macabeu, Francisco de Assis, Inácio de Loyola, Agostinho, Teresinha do Menino Jesus, sermos profundos amantes do Senhor. Assim estaremos vencendo a maior batalha, a de amarmos o Senhor com todas as nossas forças – “ESCUTA, Israel! O Senhor, nosso Deus, é o Senhor que é UM. Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com todo o teu o teu ser, com todas as tuas forças.”(7) . É esta luta que travaremos durante toda nossa vida, a de amarmos mais o Senhor do que as coisas, pessoas, os ídolos, as posses, que a nós mesmos. Quanto a isso Teresa de Jesus nos dá dois grandes ensinamentos: Só Deus é e basta e que enquanto estivermos presos a qualquer coisa neste mundo, mesmo que seja por um fio de cabelo não conseguiremos voar livremente e alcançar a Deus. São Francisco completa quando diz que até o último suspiro estaremos lutando contra o homem velho dentro de nós.

Ainda há um alerta para aqueles que se determinaram em seguir esse verdadeiro Amigo: chamarmos aquilo que é vida de vida, o que é morte de morte, o que é pecado de pecado, aquilo que é mentira de mentira, para que não aconteça de chamarmos de Senhor aquilo que não é Deus em nossas vidas. Temos por exemplo o jovem rico, ele ao expor toda a sua “justiça” para Jesus, e que Jesus lhe disse “Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuís, dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me!” “retirou-se, triste, pois tinha muitos bens”(8).

Os verdadeiros heróis de hoje são aqueles que têm coragem de renunciar todas as facilidades que o mundo atual pode oferecer para abraçar a verdade, a paz e o amor, ou seja, Jesus Cristo, que foi, é e sempre será. O Alfa e o Ômega.

“Ouve Israel. Ides hoje combater: que vossa coragem não desfaleça! Não temais, nem vos perturbeis,nem vos deixeis amedrontar por eles. Porque o Senhor, vosso Deus, marcha convosco para combater contra vossos inimigos e para vos dar a vitória. Os oficiais dirão ao povo: Há alguém medroso e de coração tímido? Que este volte para casa, não suceda que o coração de seus irmãos desfaleça como o seu.”(9).

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