Quando o sofrimento bateu à minha porta, a primeira coisa que me veio, depois de retomar a consciência na UTI, foi uma pergunta: POR QUÊ? Por que aconteceu isso comigo? Por que sofremos? Essa é uma das perguntas mais profundas da existência humana. Diante da dor, muitos se revoltam, outros se desesperam. No entanto, a fé cristã oferece uma resposta que não apenas consola, mas transforma: o sofrimento pode ter um valor redentor quando é vivido em união com Cristo. Isso significa que, desde a Cruz, o sofrimento deixou de ser apenas consequência do pecado: ele foi elevado por Cristo a um meio de redenção.

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Sim, o seu sofrimento pode lhe trazer salvação
Acompanhamos, neste artigo, o que nos ensina São João Paulo II em sua encíclica Salvifici Doloris — sobre o “sofrimento salvífico”. Meus irmãos, seu sofrimento pode ser transformado numa DOR QUE SALVA! Aprendi estes dias que há dores que não conseguimos superar, mas as transformamos em vida, amor e doação.
São João Paulo II começa a encíclica respondendo a essa pergunta: por que sofro? Ele usa, para isso, as Sagradas Escrituras, nas quais o Apóstolo São Paulo nos diz: «Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja» (Colossenses 1,24). E Paulo continua dizendo nessa passagem que encontrou, portanto, alegria no sofrimento. Isso porque ele compreendeu o profundo sentido de sofrer e aclamava: «Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa».
Jesus não fugiu da dor. Ele a assumiu por amor. Na Cruz, Ele carregou os nossos pecados, as nossas doenças, as nossas angústias. Mas não apenas isso. Cristo nos convida a segui-lo nesse caminho: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Então, você também é convidado a participar dos sofrimentos de Cristo, ou seja, acolher as dificuldades e oferecer seus sofrimentos para completar o de Cristo.
Mas será que falta algo ao sacrifício d’Ele?
O que falta, explica a Igreja, não é eficácia — pois a Cruz de Jesus é absolutamente suficiente para nos salvar. O que falta é a nossa participação. Deus quis nos associar livremente à obra redentora. Não por necessidade, mas por amor. Como ensina o Catecismo:
“A cruz é o único sacrifício de Cristo, ‘único mediador entre Deus e os homens’ (1Tm 2,5). Mas pelo fato de que, em sua Pessoa Divina encarnada, ‘de certo modo uniu a si mesmo todos os homens’, ‘oferece a todos os homens, de uma forma que Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao seu Mistério Pascal’” (CIC, 618).
A outra questão que pode surgir é: como encontrar alegria no sofrer? Quando, ao sofrer, você se volta para o Cristo crucificado, faz uma linda descoberta: a descoberta do amor que se encontra no sofrimento. O sofrimento é um chamado de amor, de unir-se a Ele no padecimento. Essas experiências têm o valor de uma descoberta definitiva, que é acompanhada pela alegria: «Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa». Esta alegria provém da descoberta do sentido do sofrimento.
Não gostaria de apenas “espiritualizar” suas dificuldades; todo sofrimento precisa ser objetivamente cuidado e tratado com todos os meios legítimos possíveis: medicina, psicologia, etc. Embora o sofrimento pareça ser algo quase inefável e não comunicável, talvez nenhuma outra coisa exija tanto quanto ele — na sua «realidade objetiva» — ser tratada, meditada e concebida, dando ao problema uma forma explícita. O sofrimento é algo tão complexo e profundo que extrapola os aspectos humanos.
É-nos dada uma certa distinção que toma como fundamento a dupla dimensão do ser humano e indica o elemento corporal e espiritual como o sujeito imediato ou direto do sofrimento. Ainda que se possam usar, até certo ponto, como sinônimas as palavras «sofrimento» e «dor», o sofrimento físico dá-se quando, seja de que modo for, «dói» o corpo; enquanto o sofrimento moral é a «dor da alma». Trata-se, de fato, da dor de tipo espiritual e não apenas da dimensão «psíquica», que acompanha tanto o sofrimento moral quanto o físico.
Os homens que sofrem tornam-se semelhantes entre si por efeito da analogia da sua situação, da provação do destino partilhado ou da necessidade de compreensão e cuidados; mas sobretudo, talvez, por causa do persistente interrogar-se sobre o sentido do sofrimento. O sofrimento vivido com Cristo forma o coração. Ele purifica, amadurece e fortalece. É no sofrimento que somos treinados para amar verdadeiramente. São João Paulo II, que sofreu com dignidade até o fim de sua vida, ensinou:
“Cristo, de fato, não responde diretamente e não responde de modo abstrato a esta pergunta humana sobre o sentido do sofrimento. O homem percebe a sua resposta salvífica à medida que se vai tornando ele próprio participante dos sofrimentos de Cristo”.
O sofrimento nos tira do comodismo, faz-nos dependentes da graça e convida-nos à comunhão com os outros que sofrem. Ele nos torna mais humanos — e mais santos.
A Igreja reconhece o valor apostólico do sofrimento. Há pessoas que não podem sair em missão, mas que, em seu leito, em silêncio, intercedem, oferecem e salvam almas com Cristo. Ele procura corações disponíveis a isso, a acolhermos os sofrimentos cotidianos em Cristo e com Ele. Imagino que esse chamado pode gerar em você um grande medo; afinal, quem quer sofrer? Somente o Espírito Santo pode fazê-lo adentrar no profundo sentido do sofrimento, mas ajuda muito meditar a Paixão de Nosso Senhor e a vida dos santos que foram capazes até de pedir o sofrimento. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: “Quero sofrer por amor e mesmo alegrar-me por amor.”
Para se poder perceber a verdadeira resposta ao «porquê» do sofrimento, devemos voltar nossa atenção para a revelação do amor divino, fonte última do sentido de tudo aquilo que existe. O amor é também a fonte mais rica do sentido do sofrimento que, não obstante, permanece sempre um mistério; estamos conscientes da insuficiência e inadequação das nossas explicações. Cristo introduz-nos no mistério e ajuda-nos a descobrir o «porquê» do sofrimento, na medida em que somos capazes de compreender a sublimidade do amor divino.
Edvania Duarte Eleuterio – Missionária da Comunidade Canção Nova




