Educação

Qual é a diferença entre o professor e o educador?

Professor x Educador

“Professor é profissão. Educador é missão” (Salomão Becker)

Tenho de trazer uma dura, porém, uma pura verdade da docência: “todo educador é professor, mas nem todo professor é educador”. Professor é uma profissão, enquanto que educador é mais do que isso, é dom, é missão, é vocação. Ressalto que, não é intenção deste texto desmerecer ou diminuir o papel do professor, e sim diferenciar o educador do professor. Sabendo que ambos são fundamentais para o desenvolvimento intelectual e integral do aluno, inserindo-o na sociedade.

Imaginemos a seguinte situação: você fez a faculdade de Matemática, por exemplo, porque gosta dos números, da exatidão do “2 + 2 = 4”, da complexidade da equação de 2º grau. Você pretendia seguir carreira na área de matemático, mas, como opção de emprego, encontrou uma vaga numa escola de Ensino Fundamental do 6º ao 9º ano.

Qual é a diferença entre o professor e o educador?

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonvoa.com

Sendo assim, você elabora o seu Plano de Ensino de acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), prepara suas aulas, entra em sala de aula e desenvolve muito bem o seu papel. Além disso, você acompanha o desenvolvimento cognitivo dos seus alunos. Você sabe exatamente o aluno que é nota 10, o que é mediano, e sabe, ainda mais, os alunos que são abaixo da média.

No entanto, saber disso não interfere na sua metodologia, isto é, você continua elaborando suas aulas e desenvolvendo-as bem, mas não mudou o seu modo de agir. O caminho para atingir o objetivo do aprendizado eficiente continua o mesmo que você usava para a geração de alunos do ano 2005, sendo que estamos em outra década. Então, meu caro colega, você é professor por profissão e não educador por vocação.

O educador tem como vocação o dom de ensinar, e isso é natural nele

Você está, ali, para ensinar os componentes curriculares, para “dar conta do recado” e obter resultados razoáveis. Isso é ruim? Não! Afinal, é dever do professor levar o conhecimento intelectual (em suas várias vertentes) aos alunos. Porém, com o passar dos anos, a estafa tomará conta da sua rotina: as horas/aulas, as reuniões incontáveis de planejamento, de professores, pais e coordenadores da sua área de atuação etc.

O salário que, cá entre nós, sabemos não ser (nem de longe) o melhor que o professor mereça, começa a pesar duramente no bolso e nas atitudes. Você passa a lecionar de acordo com o valor que recebe. Um salário péssimo passará a ser sinônimo de uma aula ruim, e o seu engajamento como educador começará a se perder.

Não há mais motivação e nem de onde as tirar, você tem especializações e cursos diversos, mas começa a bater um vazio, um esfriamento vocacional perceptível antes a você e depois aos que estão ao seu lado, inclusive seus alunos.

Cada aluno é uma vida a ser tecida

Já o educador tem como vocação o dom de ensinar, e isso é natural nele. Não que o salário e o reconhecimento não sejam importantes, no entanto, ele sabe que os que ali estão, à espera do que ele tem a ensinar, não têm culpa do valor da hora/aula recebida por ele. Ele reconhece naqueles alunos muito mais do que médias e resultados satisfatórios. O educador sabe que, ali, naquela sala de trinta e poucos alunos, cada um é uma vida a ser tecida. Ele sabe da importância que ele tem para a vida daqueles e isso já lhe basta.

Independente das características individuais de cada aluno, ele consegue diagnosticar em cada um sua melhor habilidade, qual a sua competência; e a partir desse “diagnóstico”, inicia um novo método de ensino-aprendizagem, de fato, eficiente. Alguns podem dizer que é utopia, que isso é impossível, porém, tenho absoluta certeza de que você conhece algum colega professor que, ao entrar em uma sala de aula, é recebido com tanto entusiasmo pelos alunos, e esses ficam atentos à aula dele de maneira nunca vista com outro professor; então, esse professor é, também, educador.

O educador enxerga sempre o melhor

Faça uma reflexão: Quantos professores marcaram a sua vida? Lembre-se do nome de, pelo menos, um. Agora, esse mesmo professor marcou a sua vida de modo positivo ou negativo? Se sua resposta foi “de modo positivo”, então, você teve um educador na sua vida. E quanta sorte você teve!

Sei que, no atual contexto educacional do nosso país, onde os professores não têm o devido reconhecimento necessário, é muito difícil ser educador quanto se tem tudo para ser um professor e ponto. Mas se você consegue enxergar além dos “erros” do seu aluno, não os vê como obstáculos para o aprendizado, e sim como bases para um novo aprendizado, reconhecendo que um aluno feliz com ele mesmo aprende mais e melhor, seja bem-vindo ao mundo dos educadores, que enxergam uma grande esperança nos alunos.

Educar vai além de ensinar a ler e escrever, de ensinar continhas de mais e menos. Educar é adentrar-se na vida do aluno e ali enxergar bondade, inteligência, múltiplas habilidades. E até mesmo naquele aluno que todos dizem “não ter solução”, o educador enxerga o melhor.

O educador é, muitas vezes, a única referência boa de vida para os alunos

O educador alfabetiza, mas também ensina o aluno a fazer a “leitura de mundo”. O ensina a enxergar nas entrelinhas de sua própria vida e da história da sociedade. O educador zela pela sua vocação; e mesmo faltando recursos, sobrecarregado de burocracias, ele não deixa a “peteca cair”. Ele entra na sala de aula disposto a dar o melhor de si, porque sabe que, na vida de muitos alunos, ele é o único exemplo bom, pois, ele é, muitas vezes, a única referência boa que os alunos têm.

Cada aluno que passa pelas mãos de um educador não sai o mesmo. Porque o educador tem o dom de semear nos terrenos mais inférteis e, dali, receber e distribuir as mais lindas sementes. Fica um pouco dele em cada aluno, e ele também aprende, e é semeado em seu coração mais humanidade, mais amor e compreensão.

“Professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão, é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança” ( Rubem Alves).

Marcília Ferrer, professora

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