Reflita

As pessoas são como as estações do ano

Assombra-me o frio que entra pela janela do quarto no início do dia. Ponho a mão para fora dela para ver como me vestir. Roupa de verão ou de inverno? Dúvida necessária que não define a estação da primavera, mas marca o desconcerto do tempo causado pelo homem, que não cuidou como deveria do que é seu. Mesmo assim, os campos se revestem de verde, e as flores – personagens principais da estação – com o balanço do vento, fazem reverência ao seu Criador e às criaturas. Elas são sinais visíveis, na natureza, de que chegamos ao fim de um tempo e inauguramos o começo de outro. Tempo das surpresas de Deus.

As pessoas são como as estações do ano. Você já deve ter convivido com cada uma delas: são primaveras carregadas de surpresas na alma; são verões detentores de códigos que dão livre acesso ao interior de si mesmas; são outonos marcados pela passagem do tempo que não passa sem recolher as folhas da tristeza; são invernos que não se permitem passar pela porta da história sem esquentar corações.

As pessoas são como as estações do ano

Foto ilustrativa: Andréia Britta/cancaonova.com

Não sei como você está vivendo a primavera. Os poetas me fascinam, quando sugam dos detalhes da vida os verbos mais fortes, os predicados mais completos e os sujeitos mais ocultos. De fato, o homem é um ser cheio de expectativas. O verde dos campos que a primavera nos traz é lindo, mas o verde das montanhas também, mesmo que não nos deixem ver do outro lado os rios de novidades trazidos pelo verão.

Às vezes, pela expectativa do futuro, esquecemos de viver o presente. A alegria mora aqui, nas cores e nos sabores. Amar gratuitamente é o segredo para os corações apaixonados pela vida e seus detalhes. Somos culpados? Não! Marcados. Fomos marcados pela frustração de esperar do outro aquilo que, no momento, ele não pode dar, mas dando; quando ele não pode ficar, ficando; quando ele não quer dizer, dizendo. Ele oferece aquilo que é a flor da sua primavera, muitas vezes, flor silvestre que não deixa de revelar o seu encanto. A decepção com o outro, muitas vezes, antecipa o verão; daí, viver a primavera parece não ter mais o mesmo sabor. Camuflamo-nos de ódio e agressividade, para não mostrar para o outro que somos fracos.

Padre Fábio de Melo diz: “É por isso que o amor de Deus é redentor. Nele não existem expectativas, mas prevalece a serena espera, própria de quem sabe amar”. Não crie expectativas nas pessoas, além daquelas que elas podem lhe oferecer e que estão na mala de sua vida, a sua história.

Dê uma resposta diferente, que não se prenda à vergonha de amar do jeito que o ser amado gostaria. Ame você primeiro, atinja as expectativas primeiro. Quando amamos primeiro, desconcertamos corações e consertamos histórias.

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Imagine só: perdoar quando é você que deve dar o perdão, não desistir das pessoas quando tantos já desistiram de você, permitir-se ficar, recolher lágrimas, antes que elas toquem o chão, acolher sorrisos antes que eles se apaguem. Se não conseguir da primeira vez, tente novamente. Escrevo isso experimentado.

A primavera é assim: saborear o que ela tem para oferecer sem abreviá-la, pois, um dia, ao colocar a mão para fora da janela, para saber que roupa vestir, a dúvida não mais existirá. Haverá apenas uma certeza: a melhor roupa é a do amor gratuito.

Francisco Barbosa

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