Desafios dos deficientes

A história de luta e vitória de uma pessoa com deficiência

Renata testemunha sua luta diária para vencer os desafios de ser uma pessoa com deficiência

Por Alessandra Borges

O Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência é uma oportunidade para refletirmos sobre a importância da inclusão social. As pessoas portadoras de deficiência têm sonhos e lutam para viver dias normais, ou seja, livres de qualquer forma de preconceito e abertos a partilhar suas lutas e vitórias.

É o que conta a psicóloga Renata Andreia Ribeiros, de 43 anos, moradora da cidade de Cachoeira Paulista (SP). Ela sofreu um acidente de carro, que a levou a se tornar uma pessoa portadora de deficiência. Mesmo diante das dificuldades e dos desafios que lhe foram impostos após o acidente, ela nunca deixou de ter fé e acreditar que Deus olha por ela, pois ter sobrevivido ao acidente foi um milagre.

“Hoje, eu sou grande milagre de Deus, e isso eu posso relatar, com todas as palavras, porque Ele salvou minha vida”, afirma Renata, que é psicóloga em uma das obras sociais da Canção Nova: o Posto Médico Padre Pio.


Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Os desafios de ser cadeirante

cancaonova.com: Você nasceu com essa deficiência ou foi algo que veio acontecer mais tarde? O que aconteceu?

Renata: Eu nasci, graças a Deus, normal, e sem nenhum tipo de deficiência. Fui adquiri-la aos 24 anos, em um acidente de carro gravíssimo na serra de Ubatuba (SP) no ano de 2000. Lá, quase perdi minha vida. Hoje, eu sou um grande milagre de Deus, e isso eu posso relatar como todas as palavras, porque Ele salvou minha vida.

Antes de acontecer o acidente, eu tinha planos, pois havia acabado de me formar em psicologia e iria me casar. No entanto, no dia 4 de março, sofri o acidente que mudou totalmente meus planos, pois ficaria noiva em junho e o casamento aconteceria em dezembro.

No acidente, fraturei duas vértebras da coluna, oito costelas, perfurei o pulmão, tive derrame pleural e pneumonia; enfim, foram muitas as complicações, a ponto de os médicos me desenganarem à minha família e dizerem que, se eu saísse com vida do hospital, seria após seis ou nove meses. No entanto, com a graça de Deus e para honra e glória do Senhor, após 32 dias de internação, eu já estava na minha casa.

Quando recebi alta, a médica do hospital disse para mim: “Renata, se, no ano que vem, nesta mesma data, você estiver bem, comemore, porque, aqui no hospital, ninguém entende o que aconteceu com você. Realmente, você é um milagre de Deus”.

cancaonova.com: Como foi para você viver esse processo e superar as dificuldades?

Renata: No começo, foi muito difícil superar todo esse novo que tive de viver e enfrentar, porque, como havia acabado de me formar, eu tinha planos para o decorrer do ano. 2000 seria o ano da minha vida, porque seria o início da minha carreira profissional e também estava planejando o meu casamento, pois ficaria noiva no meu aniversário, em junho, e me casaria em dezembro. Também já estava com um trabalho em vista na cidade de São José dos Campos (SP).

Estava tudo previsto para que, o ano 2000, fosse o ano da minha vida, mas, infelizmente, aconteceu o acidente e foi muito difícil! Tive de lidar com muitas perdas, mas, principalmente, com muito preconceito, porque este é nítido, notório e real.

Trabalhei com as perdas físicas e emocionais. Além de aprender a lidar com o preconceito, nove meses depois, o grande amor, a pessoa que me levaria para o altar, abandonou-me, ou melhor, eu tive de terminar com ele, porque ele foi se afastando, não teve a coragem de romper com o relacionamento. Terminamos o nosso relacionamento em janeiro; a partir daí, tive de enfrentar todos os preconceitos das pessoas que diziam saber que ele iria me abandonar, não ficaria comigo. Ninguém, em nenhum momento, chegou a cogitar o fato de que eu também não queria continuar o relacionamento com alguém que mudou após o meu acidente.

O enfrentamento mais difícil que senti foi o olhar preconceituoso das pessoas, porque muitos que me conheciam passavam por mim e faziam de conta que não me viam. Muitos dos meus amigos se esquivaram, além daqueles que não queriam ficar do meu lado.

Com a graça de Deus, tenho uma família maravilhosa, que me sustentou e ficou do meu lado, apoiando-me todo o tempo. Deus se fez presente em várias situações, diante das quais posso testemunhar que eu sou de Deus, porque senti Sua presença diversas vezes comigo, e apesar de todo o sofrimento, eu sabia que, no final, daria tudo certo.

cancaonova.com: Como foi a sua inclusão no mercado de trabalho?

Renata: A prova real de que Deus estava comigo e tudo daria certo aconteceu em 2003. Neste ano, tive uma perda muito grande, perdi meu primo e meu irmão Nando, uma pessoa que me ajudou muito a me formar e a ser quem sou hoje como pessoa e profissional.

Diante dessa perda, prometi a Deus que daria uma resposta diferente para a minha vida, que eu seria uma nova Renata e voltaria a exercer aquilo que sempre sonhei para mim, que era exercer minha profissão. A partir desse momento, comecei a rezar e a pedir a Deus para que as portas fossem sendo abertas. Nesse mesmo ano, em outubro de 2003, fui chamada, na Fundação São João Paulo II – Mantenedora do Sistema Canção Nova de Comunicação –, para ser voluntária, pois uma psicóloga da instituição lembrou-se de mim e me ligou, perguntando se eu gostaria de doar esse horário para a Canção Nova, para atender um colaborador em especial.

Após a ligação, chorei muito, porque senti que essa foi a resposta de Deus para as minhas orações. Disse que pensaria e daria a resposta mais tarde, porque precisa refletir sobre essa nova oportunidade. Fiquei pensando e repensando; então, dei esse passo na fé e aceitei a proposta.

Fiquei como voluntária, na Canção Nova, por dois anos; depois, veio a minha contratação. Esse foi um novo dilema que vivi, porque, para ser contratada, precisava dar baixa na minha aposentadoria. Muitos me questionaram sobre eu largar o “certo” pelo “duvidoso”, pois, hoje, poderia trabalhar na Canção Nova, mas amanhã poderia ser demitida.

Foram várias pessoas que me questionaram, inclusive da minha família, mas, graça à força e ao apoio do meu irmão do meio, Rondineli, que ficou do meu lado o tempo inteiro, graças à fé em Deus e em Nossa Senhora Aparecida, da qual sou devota, resolvi voltar a trabalhar. Dei baixa na minha aposentadoria e voltei a trabalhar normalmente.

Faz doze anos que trabalho na Canção Nova de carteira registrada, mas fiquei dois anos como voluntária. Ao todo, são 14 anos no mercado de trabalho; além de atender, há cinco anos, em consultório particular.

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cancaonova.com: Hoje, quais são os seus maiores desafios?

Renata: Meus maiores desafios são, infelizmente, lidar com o olhar preconceituoso das pessoas, porque muitas delas acham que estou empregada por estar na cadeira de rodas e faço parte da cota de deficientes. Mas, graças a Deus, já foi provado e comprovado, inúmeras vezes, que estou aqui, porque sou capaz, pelo meu potencial; e isto, graças a Deus, tenho e muito! Mas, infelizmente, preciso da ajuda das pessoas, no meu dia a dia, como descer do carro, almoçar e ir à capela. Todo o local é adaptado para mim, mas ainda faltam algumas coisas, por isso, eu ainda preciso da ajuda das pessoas.

Meu amor pela psicologia, pelo meu trabalho e meus pacientes me fazem superar esses desafios diariamente, porque sei que eu posso, consigo e tenho muito mais para dar. Além de aprender muito mais com eles!

cancaonova.com: Qual a sua opinião sobre a situação dos portadores de alguma deficiência hoje em nosso país?

Renata: Infelizmente, as pessoas falam muito de direito dos deficientes, mas a situação não é bem assim. Eu mesma, por exemplo, se for desligada, hoje, da empresa, amanhã faço parte do quadro de desempregados do país, pois não tenho nenhum tipo de remuneração. Foi isso que me disseram quando fiz a opção por dar baixa na minha aposentadoria para voltar a trabalhar.

Acredito que isso acontece com muitas pessoas com necessidade especiais, porque muitos deles não voltam a trabalhar, pois têm medo de trocar o certo pelo duvidoso.

Muitas vezes, as pessoas tratam os portadores de deficiência com discriminação e as excluem do convívio social. Digo isso, porque vivo essas situações. Muitas vezes, não sou chamada para almoçar ou ir ao restaurante, porque dá trabalho tirar e colocar do carro; então, isso faz com que as pessoas desistam dos seus sonhos, porque o preconceito ainda é muito grande.

Como não temos garantia de que, se amanhã o trabalho não der certo, voltamos a ganhar, pelo menos, um pouquinho, muitas pessoas não gostam de voltar a trabalhar e ter que dar baixa na carteira. Elas não são tão valorizadas como deveriam, e acabam sendo excluídas. Em muitos lugares, é melhor mandar embora do que ajustar o local para que elas possam trabalhar. Isso dá muito medo, porque, quando surge uma vaga no meu local de trabalho ou eu outros lugares, ligo para os meus amigos e falo que surgiu uma vaga e pergunto se a pessoa não tem interesse. A primeira pergunta que recebo é se é necessário dar baixa na aposentadoria. Respondo que sim, e aí muitos agradecem, mas não aceitam, porque, mesmo sendo pouco um salário-mínimo, é com esse dinheiro que eles podem comprar suas coisas de higiene pessoal, porque um cadeirante gasta muito.

As necessidades para um portador de necessidades especiais são muitas e são caras, por isso muitos perdem a vontade de viver e acabam caindo em depressão. Se, hoje, eu não trabalhasse, estaria em depressão, porque o que me faz viver e me dá forças, todos os dias, é o meu trabalho que eu amo.

As pessoas com necessidades especiais também enfrentam algo muito comum em nossas cidades, que é a falta de acessibilidade, humanidade e igualdade. As pessoas, muitas vezes, olham com preconceito, como se não existíssemos.

cancaonova.com: O que você diria para as pessoas que se tornaram portador de alguma deficiência e acabou caindo em depressão ou acredita que a vida perdeu o sentido?

Renata: As pessoas deveriam olhar para dentro de si e ressuscitar os seus sonhos, suas vontades, acreditar e ter fé em Deus e na vida. Sair nas ruas e dar a cara a tapa, mostrando que elas existem, porque, só assim, seremos respeitados. Não podemos ficar em casa chorando e lamentando, porque muitas pessoas desejam que a gente se exclua.

Elas precisam se incluir, porque muitas pessoas têm muito mais problemas, e saem para a vida e vivem como nós. Nós, que temos alguma limitação, nos excluímos por causa do outro. Que possamos dar a volta por cima e viver!

Há uma frase de um livro “minha profissão é andar”, do João Carlos Pecci, que gosto muito e adotei para minha vida. Ela virou filosofia de vida para mim: “Invalidez, palavra cretina essa! Inválido são aqueles que, de plena posse de todos os seus movimentos, vivem para paralisar a sua vida e a dos demais”.

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