Certo ou errado?

Como nossa consciência pode escutar a voz de Deus?

Reflita sobre a importância de escutarmos os sinais da nossa consciência

De fato, a consciência humana é essa testemunha, às vezes incômoda, de nossos atos, pensamentos e sentimentos, até daqueles mais ocultos e constrangedores. É um legislador íntimo que nos aponta o que é certo ou errado, ainda que não interfira na liberdade de cada pessoa.

Confesso que, quando recebi o tema desse artigo, a primeira imagem que me veio à mente foi a da tirinha da personagem Mafalda, do cartunista argentino, Quino. Nela, a menina chega em casa, aborrecida por não ter conseguido usar o troco da padaria para comprar uma bala sem o consentimento da mãe, motivada apenas pela voz de um inquilino que habitava dentro dela. De forma lúdica, Mafalda falava da consciência, que ainda não conseguia chamar desta forma, mas que já percebia em seu interior.

Como nossa consciência pode escutar voz a Deus

Ilustração: Karina Silva e Wesley Almeida/cancaonova.com

A Igreja pensa no mesmo caminho

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, nos ensina, no parágrafo 16, que “no fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre está a chamar ao amor do bem e à fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo”. E atribui a Deus a causa dessa voz em nós.

Isso vale tanto para os crentes quanto para os que não creem ou professam a fé cristã, porque a consciência é uma via natural, dado de criação, a que, como afirmou São João Paulo II, por ocasião do 24º Dia Mundial da Paz, em janeiro de 1991, “todos podem descobrir”. Ou seja, eu e você temos em nós uma voz interior, que se manifesta no julgamento da moralidade dos nossos atos, com a qual Deus fala conosco.

É tão importante, que a Igreja nos ensina que a consciência é o critério de julgamento humano, “sacrário da pessoa […] o laço mais profundo que une todos os seres humanos entre si” (cf. Gaudium et Spes, 16). Feri-la é ferir a própria dignidade da pessoa humana, criada com a liberdade de escolha, impressa pelo próprio Deus.

Consciência

Cuidado! A consciência está sujeita ao erro. Com isso não afirmo que a consciência é Deus em si, para não cairmos no risco de fazer do Criador um produto do raciocínio humano ou fruto de uma ideia socialmente construída, como muitos acreditam. Não! A consciência é a uma via de comunicação de Deus em nós, que nos ajuda a perceber e compreender a forma como nos relacionamos com o mundo, com os outros e com cada um de nós de forma particular.

A Igreja é clara ao nos expor que a consciência está implicada a relacionar-se com uma verdade objetiva. A consciência individual não está acima da verdade, muito menos isenta do erro. Mais uma vez, recorro a São João Paulo II: “Reivindicar para si mesmo o direito de agir segundo a consciência, sem reconhecer, ao mesmo tempo, o dever de procurar conformá-la com a verdade e a lei inscrita nos nossos corações pelo próprio Deus, na prática significa fazer prevalecer a sua limitada opinião”. É o que o Papa
emérito Bento XVI denunciou como ditadura do relativismo. Trocando em miúdos, é a lei do “que importa é a minha decisão”, o imperativo de que “eu me basto” para determinar tudo o quanto existe em mim e ao meu redor!

Lamentavelmente, não é isso que assistimos atualmente ao nosso redor? A supremacia das liberdades e consciências individuais, em nome de um poder absoluto – sobre si, sobre os outros e sobre o mundo –, de um controle ilimitado e liberdade plena de qualquer julgamento moral? Não há mais certo ou errado, bem ou mal; tudo está sujeito a julgamento particular, livre de revisões contrárias, sob a alegação de preconceito ou intolerância.

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Se formos à experiência religiosa, isso interfere incisivamente. Assistimos uma cultura que quer apagar Deus da consciência, já que, para muitos, ele se tornou para presença incômoda, obstáculo descartável aos  projetos de “progresso humano”. Bem, sem Deus, são justificáveis catástrofes sem precedentes, como os vividos no século passado. Torna-se viva a dura consequência do pecado narrada em Romanos: o ser humano, imagem e semelhança de Deus, se perdeu, tornou-se tolo, e seu coração preso em trevas
(cf. Rm 3, 21). Quando a consciência não se submete à verdade, que é o próprio Deus, ela se torna refém da sua própria liberdade!

E aí nascem dois problemas graves. Até mesmo no ambiente religioso. Um é a consciência escrupulosa, quando diante de alguma situação, já não se sabe mais discernir a moralidade do ato. O outro é a consciência laxa: a pessoa se torna tão insensível à conformação da própria consciência com a verdade, que não consegue ver seus atos como algo ruim ou como pecados.

Voz de Deus ou produto do inconsciente?

A consciência não é cultural? Muitas pessoas não concordam que a consciência humana seja um canal, entregue por Deus a nós como via de comunicação de sua vontade.

Encaram-na como uma construção cultural. Ou seja, a consciência de alguém está submetida ao meio em que vive, e o que é certo em algum lugar, pode ser errado em outro, e vice-versa.

O que primeiro precisamos entender é a diferença entre cultura e natureza. A cultura sempre será uma obra do ser humano: as artes, a música, as tradições etc. Mas a natureza a antecede por não se tratar de algo do qual o homem possa requerer a autoria. A consciência independe do nosso querer ou não da sua existência. Até chegamos a lutar contra ela muitas vezes. Isso indica que ela é natural, preexiste às nossas vontades.

É claro que, como tudo no mundo, a consciência está suscetível à ação humana: a educação que recebemos, as tradições que nos são repassadas, as experiências particulares e familiares que vivemos. Tudo isso pode interferir na forma como enxergamos o mundo. Mas isso não altera o caráter essencial da consciência: de que ela é natural. Logo, existem valores morais que nos são naturais, como o direito à vida – ainda que hoje seja questionado na sociedade contemporânea.

Como não cair nos erros da própria consciência?

Ora, a saída é simples. Se pela consciência Deus nos fala, também será pela ação do Criador que ela será santificada. É um ciclo: a consciência nos aponta os vestígios de Deus, que, em contrapartida, orienta-nos, corrige-nos, anima-nos. Um movimento de amor de quem reconhece que, apesar de racional – ou pretensamente racional – é insuficiente por si mesmo, e volta Àquele que é fonte de toda sabedoria e bondade.

Hoje, pedimos por muitas coisas: cura, libertação, força, graças e milagres. E nada disso é errado. Mas não podemos esquecer de suplicar a Deus que dirija nossas consciências, corrija nossas vontades e purifique nossas intenções. Assim, viveremos o que a Carta aos Hebreus nos indica: “Os adultos, que pelo hábito possuem o senso moral exercitado para discernir o bem e o mal, recebem o alimento sólido” (Hb 5, 14).

Dezessete séculos se passaram, mas ainda ressoam as palavras de Santo Agostinho, que nos convidam à exigência de interioridade: “Volta à tua consciência, interroga-a… Voltai, irmãos, ao interior e em tudo o que fizerdes atentai para a testemunha, Deus”.

George Facundo
Seminarista da Comunidade Canção Nova

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