Sentido da Vida

Encontrando propósito em meio às dificuldades

Pequenas escolhas que definem quem somos

Há alguns dias, eu me peguei lembrando de uma música antiga do Movimento dos Focolares. Ela diz assim:

“Em tudo que me acontece encontro o Teu amor.​ Já não se pode mais deixar de crer no Teu amor.”

Fiquei pensando em quantas vezes atravessamos períodos difíceis sem perceber que aquilo que nos mantêm de pé não é a ausência da dor, mas a presença do amor.

De onde vem a força que faz uma pessoa acordar todos os dias e continuar? O que leva um pai a sair para trabalhar, mesmo cansado, para garantir o sustento da sua família? Que amor é esse capaz de manter uma mãe acordada durante a noite inteira para cuidar do seu bebê? O amor.

O sentido vai além de si mesmo

Viktor Frankl, fundador da logoterapia, afirma que o ser humano encontra sua realização não quando se concentra em si mesmo, mas quando se dirige para algo ou alguém além de si. A isso ele chamou de autotranscendência.

Trocando em miúdos, quando existe um amor pelo qual vale a pena viver, o sofrimento não desaparece, mas ganha um lugar e tamanho diferentes dentro da nossa história. Logo, o ser humano consegue encontrar sentido quando sabe por quem ou por que está sofrendo.

São Paulo escreveu aos Romanos o seguinte:

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8,28).

É aí o cerne da questão, sem sentido, a vida torna-se muito pesada, as dificuldades parecem maiores do que realmente são. Por acaso você já vivenciou isso?

Responder à vida com força e propósito

Quando nos encontramos em situações limites, é comum buscarmos respostas para compreender o que está acontecendo conosco e encontrar um caminho para seguir adiante. Mas Viktor Frankl nos propõe um movimento diferente: é a vida que nos questiona. É ela que, a cada dia, a cada situação, a cada encontro, nos faz perguntas e cabe a nós responder, não com discursos elaborados, mas com Dínamo.

Padre Jonas nos explica bem essa palavra: “Dínamo quer dizer, justamente, um gerador de energia, de força.”

Por conseguinte, cada momento carrega uma única pergunta, e cada pessoa é chamada a dar uma resposta que ninguém mais pode oferecer em seu lugar.

Crédito: South_agency / GettyImages

A liberdade de escolher a sua postura

Uma das constatações mais belas é que o ser humano não está condenado a ser apenas produto das circunstâncias. Existem fatos que não escolhemos, dores que chegam sem pedir licença, tocamos nos nossos limites e ainda assim, existe algo que continua sendo nosso: a liberdade de tomar posição diante daquilo que nos acontece.

Frankl chamava isso de liberdade de vontade. Entenda que não é a liberdade de fazer tudo o que se quer, mas a liberdade de assumir uma postura responsável diante da realidade.

Observe que a nossa vida não é construída apenas por grandes decisões, temos as pequenas escolhas de cada dia. Ninguém se torna generoso de uma hora para outra ou mesmo se torna egoísta de repente. Vamos nos configurando pouco a pouco; ademais, cada atitude nos aproxima ou nos afasta daquilo que somos chamados a ser.

Por isso, a pergunta importante não é apenas “o que estou sentindo?”, mas também “que tipo de pessoa estou me tornando com as minhas escolhas?”. Afinal, elas nos revelam os valores que nos apontam um caminho de crescimento e realização ou os desvalores que nos conduzem ao rebaixamento da dignidade humana.

Os valores que dão sentido à existência

É justamente nesse contexto que compreendemos que o sentido da vida se concretiza por meio da realização de valores. Os criativos, por exemplo, são as obras, os trabalhos, os projetos, as ações e tudo aquilo que acrescenta algo de bom ao mundo, permitindo que nossa existência deixe uma marca positiva na realidade que nos cerca.

Toda vez que alguém faz mais do que o mínimo necessário, toda vez que alguém se dedica com amor ao que faz, está realizando valores criativos.

Quando uma pessoa oferece seus talentos, seu tempo e sua dedicação, ela deixa uma marca no mundo. E isso gera sentido. Na Canção Nova, temos o lindo exemplo do Padre Jonas Abib: ele gastou sua vida anunciando o Evangelho. Não porque fosse fácil, mas porque havia pessoas a serem alcançadas. Seu amor por Deus e pelas almas inspirou milhares de pessoas a aprofundarem sua própria caminhada de fé.

A beleza que recebemos de graça

Os valores vivenciais nos lembram que a vida não é apenas produção e desempenho. Existe uma beleza que nos é oferecida gratuitamente.

Há momentos em que o sentido chega até nós através daquilo que recebemos. Uma amizade verdadeira, o abraço de alguém querido, uma música que toca o coração, uma paisagem que nos faz parar por alguns instantes, uma obra de arte, o sorriso inesperado de uma criança, o amor.

Muitas vezes estamos tão ocupados tentando controlar tudo que deixamos passar os pequenos presentes que a realidade coloca diante dos nossos olhos. A contemplação do belo nos torna mais sensíveis, mais humanos e mais capazes de reconhecer que a vida continua e ainda mais, cheia de possibilidades, mesmo nos períodos mais difíceis.

Coragem e dignidade diante do sofrimento inevitável

Talvez aqui esteja o mais profundo dos ensinamentos de Frankl. Existem situações que não podemos mudar… uma doença, um luto, uma perda, uma limitação, uma injustiça sofrida. Nesses momentos, ainda nos resta algo que ninguém pode tirar de nós: a coragem.

Aí entram os valores atitudinais que aparecem quando escolhemos enfrentar o sofrimento com dignidade. Eles não glorificam a dor e não significam que devemos gostar de sofrer. Quando o sofrimento pode ser evitado, a atitude responsável é combatê-lo, mas quando ele é inevitável, ainda podemos escolher como enfrentá-lo, e assim continuamos livres para decidir quem seremos.

São apresentadas a nós, por meio do sofrimento, algumas vias que podem nos levar ao endurecimento, ao fechamento, ao desespero; ou amadurecermos e sermos impulsionados a encontrar um significado mais profundo.

Nessa perspectiva, Santo Agostinho nos lembra: “Entrega-te a Deus, não temas, porque, se Ele te coloca na luta, certamente não te deixará sozinho para que caias.” (Livro na escola dos Santos Doutores)

Sempre há um caminho para seguir

Vivemos uma época que, frequentemente, tenta explicar o ser humano como se fosse apenas um conjunto de reações automáticas. Mas nós não somos máquinas programadas, somos seres capazes de escutar os apelos da vida, de discernir, escolher e responder.

A beleza da condição humana está exatamente no fato de podermos crescer, mudar, recomeçar e responder, de forma nova, às situações que encontramos.

Muitas pessoas desistem do futuro porque perderam a capacidade de enxergar significado no passado e no presente. Esperam uma grande mudança, uma solução definitiva ou um momento ideal para serem felizes. Mas a vida acontece agora e o sentido se deixa encontrar.

Aguarda com humildade e paciência que o céu te visite de novo, pois Deus é capaz de te dispensar um acréscimo de graça e de consolação. (Lv Imitação de Cristo)

Talvez não consigamos enxergar todo o caminho à frente. Talvez o futuro ainda esteja envolto em incertezas, mas sigamos, porque sempre existe alguém para amar, uma missão para cumprir, uma resposta para oferecer e um sentido que nos espera no próximo passo.

 

 

Micheline Teixeira
Missionária da Comunidade Canção Nova, Graduada em Administração com complemento dos estudos em Marketing. Cursando, atualmente, pós-graduação em Logoterapia. Diretora, produtora e jornalista.


Fontes:

(Livro a Sabedoria está no ar – p.13) Editora Canção Nova

© EDITORA CANÇÃO NOVA, São Paulo, SP, Brasil, 2010

(Livro na escola dos Santos Doutores – Ed. Cléofas – Prof. Felipe p.21)

(Lv Imitação de Cristo – P. 83 – Edições Loyola)