Mensageiro de Deus

A Bíblia promove ou proíbe a oração aos anjos?

Os anjos são enviados por Deus para ajudar os herdeiros da salvação

“A existência dos seres espirituais, não corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão claro como a unanimidade da Tradição” (Catecismo da Igreja Católica, 328).

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Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Os anjos, criaturas puramente espirituais, são dotadas de inteligência e vontade: são criaturas pessoais e imortais (CEC, 330), servem a Deus e são seus mensageiros. Eles “veem constantemente a face de meu Pai que está no céu”, afirma Jesus (Mt 18,10). Conforme Daniel 7,9-10.13s, “o Senhor é o único e verdadeiro rei (v.9s.). Serve-O uma imensa corte de anjos que também O assiste na realização do seu desígnio”. São “poderosos mensageiros, que cumprem as suas ordens” (Sl 103,20). Mensageiros de Deus, em momentos decisivos da história da salvação, os anjos estão também encarregados da guarda dos homens (Mt 18,10; At 12,13) e da proteção da Igreja (Ap 12,1-9). São encarregados por Deus de proteger a humanidade.

O povo de Deus sempre sentiu o dever de corresponder à silenciosa e benévola companhia dos anjos, honrando-os. Na literatura judaica, a função dos anjos era tripla: adoração e louvor de Deus; agentes ou mensageiros divinos nos assuntos humanos; guardiães dos homens e das nações (Hb 12,15). Recordar os anjos nos faz lembrar de que, no caminho da vida, não estamos sós. Deus não nos abandona, Ele caminha conosco.

A fé cristã crê também possuir, em cada nação em particular, um anjo encarregado de velar por ela. Em Daniel, capítulo 10, o anjo de Deus defende o povo. De modo semelhante, todos os povos e nações têm um anjo encarregado por Deus de protegê-los e defendê-los em todos os perigos, de modo que a vida temporal se oriente para a vida eterna e todos os povos possam vir a formar o único povo de Deus.

São vários os textos bíblicos que se referem à presença dos anjos. Acredito que um dos textos mais conhecidos e que mostra a presença do anjo está em Lucas, capítulo 1,26-27, quando da Anunciação a Maria: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria”. Esse texto já nos mostra a missão do anjo que está ligada ao nome, ele é o anjo (do latim angelus e do grego ángelos (ἄγγελος): mensageiro) mensageiro de Deus. Também no texto de Lucas 2,10-11 vemos a missão dos anjos: “O anjo do Senhor apareceu-lhes (aos pastores) e a glória do Senhor envolveu-os de luz”. Eles são os mensageiros do Senhor.  Aos pastores e a todos os humildes da terra, é dirigida a mensagem da verdade salvadora: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor” (v.11).

No diálogo com Natanael em João 1,47-51: Jesus disse: “Tu crês porque te disse: “Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás!” E Jesus continuou: “Em verdade, em verdade eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”. Na verdade, quem se aproxima de Jesus vê o céu aberto e os anjos de Deus subir e descer sobre o Filho do homem. O mundo transcendente do Pai, o céu, está agora aberto. Em Jesus, Filho do homem, Deus desce em meio aos homens e estes podem subir até Ele. Os anjos são ministros desse “admirável comércio”, dessa inesperada comunhão.

Anjos são enviados por Deus ao serviço dos que devem herdar a salvação (Hb 1,14), ou seja, são enviados por Ele para ajudar os herdeiros da salvação a servir filhos e filhas de Deus.

Deus nunca deixa o homem abandonado, desorientado nem desanimado. Os anjos são, em primeiro lugar, um sinal luminoso da Providência, da paterna bondade de Deus, que jamais deixa faltar aos filhos e filhas aquilo de que precisam. Intermediários entre a terra e o céu, os anjos são criaturas invisíveis postas à nossa disposição e à disposição dos povos e nações, para nos guiar no caminho de regresso à casa do Pai. Vêm do céu para nos reconduzir ao céu.

Os anjos nos protegem dos perigos, sobretudo, o de nos tornarmos autossuficientes, surdos a Deus e desobedientes a Sua Palavra. Além disso, sugerem-nos pensamentos retos e humildes, bons sentimentos. Desde o começo até a morte, a vida humana é acompanha pela assistência e intercessão celeste: “Cada fiel tem a seu lado um anjo protetor e pastor para o guiar na vida” (S. Basílio Magno). De igual modo, “toda a vida da Igreja se beneficia da ajuda misteriosa e poderosa dos anjos” (At 5,18-20; 8,26-29; 10,3-8; 12,6-11; 27,23-25). O mesmo que acontece com os povos e nações, particularmente nos momentos de maiores dificuldades, acontece também com cada homem e com a Igreja.

Ao colocar em nossa presença anjos para nos guardarem, Deus manifesta o seu carinho para conosco; por isso devemos rezar a eles e lhes pedir que intercedam por nós e nos guardem contra todas as forças do mal. Peçamos ao Anjo da Guarda que nos livre de todas as adversidades, defenda-nos nas adversidades, dirija os nossos passos, como povo, no caminho da salvação e da paz.

Honrando os arcanjos, exaltemos o poder de Deus, Criador do mundo visível e invisível, pois, como diz o Prefácio da Missa dos Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael, “resulta em glória para Vós a honra que prestamos a eles como criaturas dignas de Vós; e a sua inefável beleza, Vós mostrais como sois grande e digno de ser amado sobre todas as coisas”.

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Padre Dehon escreveu: “Os anjos louvam a Deus e servem-No. Eles são milhares de milhares, diz Daniel, à volta do trono de Deus, ocupados em servi-Lo” (Dn 7,10). “Anjos do céu, diz o Salmo, bendizei o Senhor, vós que executais as suas ordens” (Sl 102). Deus envia-os junto das criaturas. O seu nome significa “mensageiros”. “São os enviados de Deus, diz São Paulo, vêm ajudar os homens a realizarem a sua salvação” (Hb 1,14). Há os anjos das nações e os anjos de cada um de nós”. Existe uma passagem do Antigo Testamento que ajuda a defender a ideia de que existe um anjo que nos protege, quando Deus disse para Moisés: “Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei” (Ex 23,20). Deus acrescentava: “Está de sobreaviso em tua presença e ouve o que ele te diz (v.21). “Deus ordenou aos seus anjos, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles hão de elevar-te na palma das mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.” (Sl 90). Trata-se aqui dos anjos de cada um de nós” (Cf. Leão Dehon, OSP 4, p. 316).

O Padre Dehon rezava: “Anjos do Senhor, recomendai-me à misericórdia do Sagrado Coração” (OSP 4, p. 317).

Já que podemos rezar aos anjos, trago aqui uma parte do Prefácio da Santa Missa dos Anjos: “Senhor, Pai Santo, proclamamos a vossa imensa glória, que resplandece nos Anjos e nos Arcanjos, e, honrando esses mensageiros celestes, exaltamos a vossa infinita bondade, porque a veneração que eles merecem é sinal da vossa incomparável grandeza sobre as criaturas. Hoje, com a multidão dos anjos que celebram a Vossa divina majestade, queremos adorar-vos e bendizer-vos. Amém”.


Padre Mário Marcelo

Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. O sacerdote é autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética.

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