Sinal de Intimidade

A sacralidade do beijo

É preciso valorizar os pequenos gestos e resgatar o significado que há nos beijos

Em nossa cultura, saudar as pessoas com um beijo é um costume restrito ao nosso círculo de convívio. Não saímos por aí selando rostos com os estalidos de nossos lábios. Geralmente, reservamos essa forma de carinho às pessoas que, ao menos, já têm nossa amizade.

Além disso, beijamos quando somos apresentados a alguém (um ou dois beijinhos no rosto); também beijamos as crianças próximas de nós, por causa de sua pureza, graciosidade e fofura.

A sacralidade do beijo
Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com 

O beijo expressa proximidade e gratidão, demonstra querer bem, manifesta perdão, sela pedidos de desculpas. Beijo é reverência nas mãos ungidas do sacerdote. São Paulo recomendava desde as primeiras comunidades: “Saudai-vos uns aos outros com o beijo santo” (Rm 16,16).

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Estar entre os escolhidos do Mestre foi o que possibilitou a Judas entregá-Lo com um falso sinal de afeto. “Judas, com um beijo tu entregas o Filho do Homem?” (Lc 22,48).
Beijo é sinal de intimidade, pois aproxima, torna visível o sentimento de admiração e amor, permite que desabroche dos lábios a afeição gestada no coração. Nisso tudo, vemos o quanto nós valorizamos o beijo.

Por que, então, o maior ritual do beijo, os “lábios nos lábios”, o signo de amor apaixonado, é tão banalizado nos dias de hoje, transformando-se em sinal de poder de conquista? O beijo, que antes era reservado aos apaixonados, é distribuído como mercadoria barata, simplesmente para satisfazer o ego e para provar para si mesmo e para os companheiros que se é um sedutor.

Beijar na boca

Na verdade, há uma sacralidade no ato de “beijar boca a boca”, este existe para despertar amores e alimentar o desejo de ter o amado.

O livro sagrado Cântico dos Cânticos inicia-se assim: “Que ele me beije com os beijos de sua boca!” (Ct 1,2). Exegetas (estudiosos da Bíblia) veem todo o livro do Cântico dos Cânticos como a poesia do amor de homem e mulher, no sentido de um povo por sua terra ou de uma mulher por um homem, ou mesmo de Deus por Sua Igreja, Seu povo.
A metáfora da união do Divino com o humano, mostrada no amor de um casal, é inicialmente celebrada com um tocar de lábios, como se o Espírito Santo fosse transferido não mais pelo sopro nas narinas do ser humano (cf. Gn 2, 7), mas por um gesto maior de afeto.

O beijo na boca é um selo de autenticidade do amor entre homem e mulher, mas, na sociedade de hoje, em que mudanças acontecem a toda hora e tudo se reduz à esfera do consumo, diminuímos seu significado. Os jovens vivem em um ritmo frenético de competição, aceleram seus pensamentos e suas atitudes e, motivados pela velocidade das transformações e pressionados a corresponder a tudo isso, procuram ansiosamente novos estímulos para suas emoções.

Consequências do amadurecimento precoce dos adolescentes

As experiências de seus pais já não lhes servem e, às vezes, vivem, aos dez ou onze anos de idade, o que a geração anterior só foi conhecer aos dezoito, dezenove. Buscam muito antes do seu amadurecimento pessoal, as sensações de maior amplitude a que um ser humano pode chegar, pois quase tudo que é próprio do adolescente já está experimentado, desgostoso e vazio.

A descoberta do amor e as primeiras emoções provocadas pelo sexo oposto, que são próprias dessa fase, são como que devoradas no início da pré-adolescência ou talvez ainda no fim da infância; e então o jovem parte para o final, busca o sexo, impulsionado pelas facilidades com que consegue as coisas.

O resultado é uma geração que não vive as fases de desenvolvimento da vida afetiva em sua profundidade, com o conhecimento e o mistério que cada etapa de um namoro equilibrado pode proporcionar.

Resgatar o verdadeiro significado

Os sentimentos humanos são nossa forma de expressar quem somos e quem seremos, e estão tirando do jovem de hoje o direito de chegar a ser alguém fora dos padrões que a mídia e a indústria padronizam para seus interesses.

Banalizou-se o beijo, a castidade e diversos outros valores importantes na construção dos futuros homens e mulheres, que em breve liderarão nosso mundo. É preciso valorizar os pequenos gestos e resgatar o significado que há nos beijos e nos eventos do namoro, tornando-os rituais que fisicamente aproximam quem está cada vez mais presente no coração. Somente dessa forma é possível navegar contra a maré que quer nos arrastar para longe da maior vocação humana: o amor.

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Mais do que nunca, é preciso acreditar no respeito, na verdade e no amor. Amar é simples no ser, mas requintado no servir, porque é gesto e vontade de ser melhor para alguém que fará parte da sua existência.

Namore, beije, conheça, encare a outra pessoa como um mistério a ser desvendado, aprofunde a amizade, seja parte da vida do amado e, em pouco tempo, você terá toda a confiança dele. Tenha sentimentos puros, acredite na pessoa e ajude-a a se descobrir nas mais belas aventuras interiores. Direcione sua afetividade, a capacidade de amar que há em você, para onde vale realmente a pena investir.

Seja curado por seus relacionamentos e não destruído por eles. Não aceite ser vítima de si mesmo, sendo um refém do que o mundo nos impõe, ensinando o que é errado como se fosse uma virtude. Corresponda à força do amor que existe em você.

Se for para beijar, faça do seu beijo um gesto único, santo e restaurador. Pare de “ficar” por aí tornando seu beijo “mercadoria barata”. Beijar a pessoa que se tornou especial para você terá sempre o gostinho de primeiro beijo.

Texto extraído do livro ‘As Cinco Fases do Namoro’

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