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Que tal vivermos a modéstia no uso dos memes?

Caro internauta, quero, hoje, chamar a atenção para uma prática que tem se tornado recorrente no meio dos cristãos católicos: o consumo de memes que fazem menção ao sagrado. Creio que você concordaria comigo caso afirmasse que nós, os brasileiros, temos um enorme talento: somos um povo criativo. Além disso, temos outra característica que, aliás, tempera o nosso cotidiano: a capacidade de rir, mesmo nas tragédias.

João Camilo de Oliveira Torres, um grande pensador e conhecedor das realidades brasileiras, chegou a afirmar que o nosso povo possui grande habilidade para adaptar-se a situações difíceis. Segundo ele, o brasileiro é o mais plástico do mundo, ou seja, consegue dar um “jeito” em tudo. Somos capazes de, ao estarmos diante de um inimigo, rir junto com ele em vez de opor-se a ele.

Essa é, sem dúvida, uma grande aptidão da nossa gente, porém, não deve ser encarada como algo previamente sadio ou conveniente, quer dizer, deve ser passível de reflexão. Por que, afinal, eu deveria tratar com tanta jocosidade algo realmente sério? Ao lançar este questionamento, não desejo, contudo, dogmatizar o assunto afirmando que deveríamos ser ranzinzas ou acrimoniosos diante das contrariedades da vida. Quero, com efeito, chamar a atenção para a seguinte atitude: dar a medida certa a cada caso.

Que tal vivermos a modéstia no uso dos memes?

Foto ilustrativa: Bruno Marques/cancaonova.com

Diante dessa breve introdução, sem que eu me baseie em estudos rigorosamente científicos, faço um apontamento de senso comum, mas de difícil contestação: o brasileiro é um dos maiores produtores e consumidores de memes pelas redes sociais. Que o diga a política e as diversas modalidades esportivas. Quem, por exemplo, não viu determinado jogador da seleção brasileira rolando, incessantemente, campo a fora? Até mesmo a religião e o sagrado se tornaram alvos dessa prática.

Memes com aquilo que é sagrado?

Apenas a título de exemplo, basta uma breve busca pelas redes sociais e encontraremos os diversos grupos católicos que trazem por sobrenome a expressão “da depressão”. Tratam-se, geralmente, de grupos que transformam as diversas situações de contexto cristão católicos em memes, piadas, anedotas, enfim, gatilhos de pensamentos, cujo objetivo é despertar o riso. Essas postagens, a maioria delas, é verdade, não possuem malícia em seu conteúdo; porém, acredito que seja muito importante o uso de discernimento por parte de quem os produz, posta e consome a fim de salvaguardar pontos essenciais da nossa fé.

É necessário, a propósito, usar uma imagem de Jesus Sacramentado para despertar a graça nas pessoas? Veja outro caso: sabemos que a figura do sacerdote, com ou sem razão, tem sofrido muitos ataques atualmente. Diante disso, não seria importante e até de bom tom, salvaguardar a imagem daquele que é “persona christi” no nosso meio? Qual a necessidade da Virgem Maria e dos santos da nossa amada Igreja serem “garotos propagandas” em postagens com duplos sentidos pelas redes sociais? Com relação à Santa Missa nem vou comentar.

Quando entra a malícia ou o limite é extrapolado, a graça deveria acabar imediatamente. Mas, afinal, qual seria o limite? A resposta me parece um tanto quanto óbvia: a própria Palavra de Deus. A esse respeito, trago o capítulo quarto da epístola que Paulo escreveu à comunidade de Tessalônica. Nesse capítulo, o apóstolo nos aponta para aquilo que deveria ser a atitude do cristão diante de algumas situações da vida cotidiana.

Questione-se

Com base nessa passagem bíblica, e no assunto que estamos tratando nesse artigo, lanço alguns questionamentos que podem ser usados como ferramentas de discernimento: a postagem que estou preparando agradaria a Deus? (cf. 1Tes 4,1); santifica a minha vida e a dos outros? (cf. 4,3); demonstra respeito para com o sagrado? (cf. 4,4); excita as paixões? (cf. 4,5); fere, lesa ou se vinga de alguém? (cf. 4,6); fomenta a impureza? (cf. 4,7). Em suma, leva a uma experiência com Deus? A verdadeira alegria brota dessa experiência. Se essa experiência não acontece, não há alegria verdadeira, todo o resto é passageiro e evanescente. A piada pode até ser muito boa, mas se não leva a uma vida de santidade não convém ao cristão.

Todas as vezes que ousamos retirar o que é santo e sagrado do seu contexto, corremos o sério risco de esvaziar seu sentido. Esse, aliás, é um grande desserviço que estamos prestando à nossa Santa amada Igreja.

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Modéstia e pudor

Nos últimos anos, o termo “modéstia” tem se popularizado entre os cristãos católicos. Geralmente, essa expressão está muito associada à vestimenta. No entanto, essa expressão vai mais além. A modéstia cristã está ligada ao pudor e à moderação. O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2522, afirma que “pudor é modéstia”, modéstia que inspira ao silêncio e à fuga dos perigos “duma curiosidade malsã”. O Catecismo ainda afirma que o “pudor é discrição” e rejeita as “explorações exibicionistas” comumente solicitadas pelos meios de comunicação. “A pureza cristã exige dos meios de comunicação social uma informação preocupada com o respeito e o recato. A pureza de coração liberta do erotismo difuso e afasta dos espetáculos que favorecem a curiosidade mórbida e a ilusão” (cf. CIC 2525).

Diante desse magnífico ensinamento, por parte da nossa amada Igreja, quero propor algo: que tal vivermos a “modéstia dos memes”? Vou um pouco mais além: por que não vivermos a “modéstia das postagens”, a “modéstia na visualização dos conteúdos”?. Posso garantir que essas simples atitudes vão levá-lo à “modéstia dos pensamentos, dos olhares, dos sentimentos”.

Fara finalizar, deixo alguns pensamentos do filósofo Louis Lavelle sobre a pureza. Afirma ele: “tudo o que macula a pureza do coração macula também a pureza do pensamento e da vontade”. Lavelle ainda firma que a verdadeira paz interior só é possível pela pureza do coração e pela moderação do amor-próprio. Enfim, “a pureza dá a todas as coisas materiais um rosto espiritual”.

Sejamos puros, sejamos modestos nos nossos pensamentos e ações. Deus abençoe você, e até a próxima!

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Gleidson Carvalho

Gleidson de Souza Carvalho é natural de Valença (RJ), mas viveu parte de sua vida em Piraúba (MG). Hoje, ele é missionário da Comunidade Canção Nova, candidato às ordens sacras, licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia, ambos pela Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP). Atua no Departamento de Internet da Canção Nova, na Liturgia do Santuário do Pai das Misericórdias e nos Confessionários. Apresenta, com os demais seminaristas, o “Terço em Família” pela Rádio Canção Nova AM. (Instagram: @cngleidson)

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