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A Igreja não está de quarentena!

Estamos confinados, de modo restrito, aqui na França desde o dia 14 de março. Provavelmente, se tudo estiver bem, retomaremos, pouco a pouco, nossas atividades a partir de 11 de maio. Nesse contexto, nenhuma religião pode reunir seus fiéis para nenhum tipo de cerimônia, exceto para funerais, com a presença de, no máximo, 20 pessoas no local da celebração.

Somos a Igreja do Senhor, e cada um dos batizados é um membro do Corpo de Cristo (1 Co 12,27). Nossas igrejas são locais importantes para prestarmos, juntos, um culto comunitário a Deus.

Na igreja, sentimo-nos mais unidos e partilhamos nossa fé com alegria – um é sustento do outro. A igreja é o lugar onde, habitualmente, vivenciamos a Missa, a qual, claro, tem um valor inestimável, pois nela recebemos os sacramentos que nos permitem continuar avançando até o Reino dos Céus.

Temos, contudo, que ter bem claro em nossos corações: não celebrar em comunidade e não ter acesso aos sacramentos não significa esfriar e perder a vitalidade, pelo contrário: “católicos, é hora de intensificar as orações”. Entender isso é um passo importante para atravessar a crise da pandemia sem viver uma crise de fé.

A Igreja não está de quarentena!

Foto ilustrativa: MichalLudwiczak by Getty Images

Seja Igreja!

Na primeira Carta aos Tessalonicenses, São Paulo nos dá vários conselhos sobre a vivência da fé cristã, e acho que eles servem perfeitamente para a crise atual:

“Consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros, como já o fazeis. Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e vos admoestar. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a paz entre vós. Pedimo-vos, porém, irmãos, corrigi os desordeiros, encorajai os tímidos, amparai os fracos e tende paciência para com todos. Vede que ninguém pague a outro mal por mal. Antes, procurai sempre praticar o bem entre vós e para com todos. Vivei sempre contentes. Orai sem cessar. Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo. Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo: abraçai o que é bom. Guardai-vos de toda a espécie de mal” (I Ts 5,11-22)

Na prática, entendemos e queremos intensificar as orações: queremos ter forças para “atravessar a tempestade” com o coração cheio de esperança e para pedir ao Senhor que nos “livre de todo mal”. Mas, estando já há mais de um mês confinados, ouvindo algumas pessoas por telefone, e dando-me conta da minha própria realidade, percebi que este bom desejo de caminhar na fé e com coragem pode esfriar rapidamente. Irmãos, não é fácil viver a fé sozinhos. Prestem atenção: sozinhos estamos em perigo!

Para vivermos nossa fé, não podemos negligenciar nosso corpo nem a nossa mente. Somos a religião da encarnação – Deus se fez homem! E lembremo-nos: Deus nos deu um corpo. Por isso, depois de algumas leituras sobre o assunto, partilho com vocês nove pistas sobre como viver a quarentena da melhor maneira possível:

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Dicas

1. Crie um ritmo para o seu dia: tenha hora para se levantar, fazer suas refeições, rezar, brincar, estudar e dormir. Pense em criar um programa para a semana, com metas a cumprir (limpar a casa, arrumar o armário, ler um livro etc.) Faça com que os fins de semana sejam diferentes dos demais dias.

2. Mexa-se: nosso corpo influencia muito nosso humor: ele não pode ficar parado. Ideias de exercícios físicos, às vezes simples, não vão faltar, tenho certeza.

3. Permita-se fazer coisas que lhe dão prazer: uma boa comida, ouvir boa música, dançar, fazer artesanato etc.

4. Cuide de suas relações com familiares e amigos: telefone, escreva ou faça “lives”. Esse contato, ainda que virtual, é de extrema importância.

5. Pense nas pessoas em dificuldade: a solidariedade faz bem para todos – para quem faz e para quem recebe! Procure ver quem são as pessoas que precisam ou que estão sozinhas, sobretudo idosos, e veja como pode ajudar (e não se preocupe: faça somente aquilo que está ao seu alcance).

6. Administre os conflitos da melhor maneira possível. Passar muito tempo junto, às vezes numa casa pequena, não é nada fácil. A paciência pode se esgotar muito rápido. Brigas são frequentes em muitos lares. No que estiver ao seu alcance, deixe para lá; ficar remoendo tal comportamento ou tal palavra faz mal para todo mundo. Se puder, diga o que está sentindo e dê espaço aos outros para que falem também. Se preciso for, delimite espaços privados em casa – isso não é faltar com caridade, é respeitar o outro.

7. Use a razão: já fez todo o possível para evitar a propagação do vírus? Se sim, não fique com “neuras” em casa, achando que tudo e todos estão contaminados. Aliás, muitas horas nas redes sociais ou vendo os jornais, pode contaminar o cérebro e suas relações sociais. Saiba que não tem problema se você não viu quantas pessoas foram contaminas ou mortas nos últimos três dias!

8. Lembre-se de que estamos atravessando uma crise, e que ela vai passar. Na sua vida, quantas tempestades você já teve que enfrentar? Se puder, lembre de algumas delas e perceba como elas foram ocasiões de dor, mas, sobretudo, de crescimento e aprendizado. Agradeça e confie no Senhor, que é o seu pastor e que está sempre ao seu lado.

9. Cuide de sua vida interior – é assim que você se sentirá fortalecido. Sobretudo, leia a Bíblia: a leitura assídua da Palavra de Deus reconforta, encoraja, anima, orienta, consola, instrui, dá esperança e cura os corações dos medos e traumas.

Reze ao Pai das Misericórdias

“Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das Misericórdias, Deus de toda consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia!” (2 Co 1,3-4)

Deus abençoe você e sua família.

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Padre André Favoretti

Natural de Vitória – ES, foi ordenado sacerdote dia 25/06/2017, na diocese de Fréjus-Toulon, onde atua como missionário. Antes de ser padre, concluiu uma licenciatura em Geografia (UFES), foi professor e fez uma pós-graduação em filosofia (UFOP).

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