Oração mental ou de meditação

O segundo modo de regar o jardim da alma

Em uma rápida retrospectiva, lembremos de Santa Teresa D’Ávila, mestra da oração e doutora da Igreja, ela ensina que a nossa alma precisa ser um jardim onde Deus encontra suas delícias (Ct 4,16). Esse jardim será tanto mais agradável a Deus quanto mais florescer em virtudes, propagando o perfume da santidade, quanto mais desenvolver os ramos da Caridade e os frutos das boas obras no mundo.

No caso da alma, a água que rega o jardim ou horto, precisa ser buscada no próprio Deus. Primeiro, por meio da graça santificante; e ela, por sua vez, trará as virtudes infusas, que ajudarão a formar todas as virtudes morais e intelectuais; e os dons do Espírito Santo, que tornarão a alma dócil às inspirações divinas.

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Foto Ilustrativa: Delmaine Donson by Getty Images

Como providenciar mais dessa água? Por meio da oração! Já vimos nos artigos anteriores o primeiro modo de rezar: por meio da oração vocal atenta; também vimos um exemplo concreto desse modo de oração, dado por Santa Teresa,  pela explicação da oração do Senhor, ou “Pai-Nosso”.

A nossa alma precisa ser alimentada pela oração

Embora cansativa e extenuante, comparada a jogar um balde com uma corda para tirar água de um poço profundo (e ainda esperando que ele não esteja seco, que haja água neste poço), aqueles que persistem na vida de oração conseguem passar para o que a santa chamou de segundo modo de regar o Jardim: “com nora e alcatruzes, que se tira com um torno” (Livro da Vida 11,7).

Esse “trabalho de regar” é o esforço da inteligência para, em primeiro lugar, manter-se atenta à oração, sabendo “com quem fala e o que pede, e quem é que pede a quem” (Castelo Interior, 1M-1,7). Verdadeiro trabalho que “nos há de custar”, pois estamos acostumados a permanecer num estado de contínua distração perante às coisas espirituais, tão preocupados em ser parte do mundo material que nos cerca.

Graças à ação de Deus, à constância e persistência, pode-se encontrar ferramentas que ajudam a estar cada vez mais presente na oração. O balde não é mais jogado lá de cima e puxado por uma corda, ele passa a ser amarrado num sistema de tornos e alavancas que transformam o “tirar a água”. Basta girar a alavanca e ele começa a subir! As “alcatruzes” de que fala Santa Teresa são vários recipientes presos na corda, que descem vazios e sobem cheios, vertendo a água numa calha quando chegam no alto do poço.

Oração mental ou de meditação?

Embora ainda haja o esforço de fazer girar o sistema, o rendimento é muito maior! Mas como isso se aplica à oração? Com essa comparação, a doutora introduz o segundo modo de rezar, mais perfeito do que o anterior: a oração mental ou de meditação.

Muitos se esquecem, ou simplesmente não sabem, que toda forma de pensar em Deus é, em si mesma, uma oração. Rezar é elevar a mente a Deus . Ao meditar sobre sua misericórdia, sua bondade, sua justiça, obra da salvação, estamos rezando. Da mesma forma, ao ler um artigo como este, que nos leva para as coisas do Alto, ou a vida de um santo e seus escritos, estamos também realizando a oração mental. Isso ainda cresce e se aprimora se, em determinados momentos, deixamos a leitura e pensamos, ou melhor, meditamos, sobre o que estamos aprendendo e deixando o Espírito Santo nos interpelar em nosso coração.

Talvez, pelas indicações dadas no parágrafo anterior, você já tenha percebido que a melhor forma de fazer uma oração mental e a meditação cristã é tendo um programa de estudos diário das Sagradas Escrituras. Isso mesmo! A Lectio Divina nada mais é do que uma oração a Deus, a oração mental.

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A Bíblia é o instrumento para um boa oração

Perceba, então, como as imagens construídas por Santa Teresa não são somente adequadas, e sim reveladoras! Uma coisa (difícil, mas necessária) é procurar rezar atentamente. Isso é tirar a água que está no fundo do poço.

Outra coisa, muito superior e com muito menos trabalho, é pegar um bom livro espiritual, a Bíblia, uma biografia de santo, seus escritos e entregar-se a uma leitura meditativa: sem pressa, saboreando o que se lê, deixando que Deus fale ao nosso coração e ouvindo como Ele mesmo nos orienta e guia a partir da leitura orante. Isso também é tirar a água de um poço, mas com a ajuda de roldanas, manivelas, torno e alcatruzes: livros, santas reflexões, a própria Palavra de Deus!

Esse segundo modo tem uma eficiência tremenda! Faz se concentrar, esquecer as preocupações e curiosidades do mundo e colocar-se, realmente e com proveito, na presença de Deus! Muitos o utilizam na Capela, antes da Adoração ao Santíssimo Sacramento. E é um treino necessário para tudo o que virá posteriormente e que são modos muito mais altos de oração e intimidade com Deus.

Faça sua experiência de oração diária

O que você está esperando para colocar tudo em prática? Deus tem pressa! Há muitos frutos a serem produzidos e Ele quis depender de nós para que essas obras se realizem no mundo. Para que nosso jardim ou horto seja a videira de Salomão (Ct 8,11), finalmente aberto a todos, precisamos regá-lo e fazê-lo produzir.

No próximo artigo, veremos as dicas de São Pedro de Alcântara para a oração mental ou meditação. Ele foi um dos que muito ajudaram Santa Teresa D’Ávila a reconhecer e corresponder às iniciativas místicas de Deus em sua alma.


Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro “Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores”, em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.

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