Pedagogia da oração

Por que regar a alma com a oração?

Não é de forma arbitrária e gratuita que Santa Teresa D’Ávila utiliza-se da imagem do jardim para se referir à alma. Além de estar amplamente fundamentada na Palavra de Deus, como já vimos, o jardim ou horto mostra de forma clara a necessidade da água do Espírito Santo para que exista vida e exuberância. O Espírito, que é a verdadeira água viva, precisa habitar a alma para levá-la à sua plenitude, à sua perfeição para a qual foi criada. Do mesmo modo que um jardim num lugar desértico, sem nenhum acesso à água, não sobrevive, assim é a alma humana longe da graça santificante: morta e estéril.

Com uma pedagogia peculiar, Santa Teresa procura nos fazer entender que o jardim e a água precisam ser conectados ou, em outras palavras, faz parte do trabalho sobre o jardim dar-lhe acesso à água. A princípio, da maneira que for possível: com muito esforço, sem habilidade, mais para manter o jardim vivo. Só que, aos poucos, este “sistema” precisa ser aprimorado, resultando em maior irrigação e menor esforço, sendo cada vez mais eficaz.

Por que regar a alma com a oração

Foto Ilustrativa: Bruno Marques/ cancaonova.com

Como a oração é a maneira de regar o jardim da alma, tendo acesso a todo manancial de graças do próprio Deus, a santa de Ávila nos ensina passo a passo quatro maneiras de regar. Porém, antes de aprendermos cada um deles, precisamos lembrar que, além de se aplicar à oração, é necessário desterrar os pecados do coração. Eles são as ervas daninhas que corroem a vida espiritual e tornam a alma terra infrutuosa para Deus.

Primeiro modo de regar o jardim da alma

“Os que começam a vida de oração podemos dizer que são os que tiram a água do poço, tendo muito trabalho, [estes] hão de cansar-se em recolher os sentidos, que, como estão acostumados andar derramados, é farto o trabalho” (Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida).

Regar o jardim tirando, a duras penas, água de um poço. Esta é a comparação para o início da vida de oração daqueles que querem se entregar verdadeiramente à intimidade com Deus. Podemos pensar num trabalho pesado, feito sob o sol escaldante, em terreno extremamente seco. Mas como isso se traduz na prática da oração?

É a oração vocal sem consolações, sem deleites, árdua. Santa Teresa  recomenda que se procure a solidão para rezar pois, dificilmente, a concentração vem. O cristão passa, assim, muito tempo tentando dominar as distrações e colocar o foco na oração. Como ela deixou claro na passagem citada acima, os sentidos estão tão acostumados a estarem dispersos (derramados), movendo-se para um lado e para o outro em curiosidades e estímulos, que, quando a alma se dispõe a rezar, eles não conseguem ficar quietos.

Embora exista desejo e esforço para o ato da oração, a pouca água que se retira desse poço acaba se esvaindo no balde furado da distração. Santa Teresa salienta que se perde muito tempo tentando colocar a atenção da inteligência na oração, “isto é, começar a tirar água do poço, e ainda praza a Deus o queira ter”, pois é comum que, mesmo com todo esforço do mundo, ainda assim a oração pareça ser infrutífera, pois é como se o poço estivesse seco.

Se, nesses momentos, o próprio Senhor do jardim não o sustentasse com vida, tudo estaria perdido. São vários os dias de secura e dissabor, onde a alma reza como se não fosse ouvida, onde a oração que começa bem, rapidamente é presa de distrações. É preciso perseverar e procurar fazer com que a oração, mesmo que seja pouca, seja bem feita. Enquanto se persevera e se aprimora a oração, confia-se em Deus, autor e mantenedor de todas as coisas. Ele mesmo está atento em construir na alma a obra que previu e desejou.

Trata-se, aqui, de encontrar um equilíbrio e criar um hábito de oração, insistindo com suavidade, porém, sem nunca desistir: “Porque já se vê que, se o poço não mana [água], não somos nós que poderemos pôr a água [nele]. É verdade que não devemos ficar descuidados para que, quando houver [água], tirá-la.”

Oração Vocal

Esse primeiro modo de se regar o jardim, Santa Teresa nomeia mais tarde, em Caminho de Perfeição, como oração vocal: “Rezar o Pai-Nosso e Ave-Maria ou o que quiserdes, é oração vocal.” Ou seja, toda oração realizada com palavras, sejam de orações tradicionais, litúrgicas ou espontâneas, é oração vocal.

Não basta repetir as palavras sem entendê-las ou automaticamente, é fundamental que se saiba o que está dizendo e o porquê do se estar dizendo. Estar inteiro na oração é buscar água no fundo do poço para prover o jardim da alma, estimulando-o a crescer e produzir as virtudes e boas obras.

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São conselhos de Santa Teresa para uma boa oração vocal:

1 – não se esquecer de iniciar fazendo o sinal da cruz;

2 -fazer um exame de consciência e reconhecer suas faltas, pedindo perdão a Deus;

3 – colocar-se na presença de Deus e, até mesmo, imaginar Jesus ao seu lado, pois de fato ele está;

4 – acostumar a “sossegar o pensamento”, trabalhar pouco a pouco a concentração;

5 – buscar colocar o olhar e atenção sobre a Paixão de Cristo ou em outros mistérios, conforme a oração que se faz determine esta ou aquela reflexão;

6 – utilizar um bom livro espiritual para ir acostumando pouco a pouco a alma a sossegar na oração.

A plenitude da oração

Sobre o último ponto, Santa Teresa alerta àqueles que finalmente se decidiram a ter uma vida plena de oração para que “Faça as contas e veja que faz muitos anos que [a alma] tem saído de junto do seu esposo, e que até que [ela] queira tornar à sua casa [sua própria vida interior com Deus] é preciso saber negociar muito para convencê-la, pois assim somos nós os pecadores: acostumamos tanto nossa alma e pensamento a andar soltos ao seu próprio prazer, ou pesar, melhor dizendo, que a triste alma não se entende mais e para que torne a tomar amor [por Deus] e estar em sua casa é preciso muito artifício, e se não for desse jeito, pouco a pouco, nunca faremos nada” (Caminho de Perfeição).

Os proveitos futuros, serão incontáveis. Deus não se cansa de atrair as almas a si e fortalece todo desejo daqueles que verdadeiramente o querem encontrar. Como a própria Santa Teresa diz, Deus “nem vos deixará se não o deixardes”.

No próximo artigo veremos, num exemplo concreto, o que Santa Teresa D’Ávila entendia por uma oração vocal bem rezada e como esse primeiro modo de se regar o jardim pode ser utilizado para o verdadeiro crescimento espiritual.

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Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro “Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores”, em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.

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