Compreenda

O ceticismo e a vida cristã

Faz parte do modo de agir do ser humano procurar simplificar as coisas e encontrar soluções únicas para várias realidades diferentes. Afinal, é desgastante considerar cada coisa e analisá-la sob vários ângulos. Quando falamos de situações do dia a dia, então, isso é ainda mais evidente. Lembro-me de um amigo que, após trabalhar intensamente com cenografia teatral, acabou me confidenciando: “Agora, uso cola quente pra tudo! Pendurar quadro na parede, colar coisas quebradas, até no meu carro já usei!”. É a força do hábito e a facilidade de usar as mesmas respostas para situações só aparentemente similares.

Outra tentação incrível para o intelecto é encontrar erros ao invés de soluções. Entre ajustar uma junção entre uma ponte e o resto da estrada e reclamar de como foram feitas a estrada, a ponte ou ambas, o que é mais fácil? O que é mais simples? Escrever uma obra-prima ou encontrar pontos questionáveis durante sua leitura? Fazer, construir, ou criticar e reclamar?

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Foto Ilustrativa: NoSystem images by Getty Images

O ceticismo filosófico e intelectual

O ceticismo filosófico nasceu com a premissa de que não se poderia encontrar uma verdade absoluta. Tudo deveria ser questionado, tudo deveria ser analisado, nada deveria ser tomado como definitivo. Seus argumentos sobreviveram por pouco tempo, pois, embora seja mais fácil duvidar do pensamento do que construir um com bases verdadeiras, o ceticismo é uma contradição evidente: se não existe verdade, essa “verdade” que acabei de enunciar também é falsa! Mas se ela for falsa, então o ceticismo é uma verdade! E como ser verdade aquilo que diz que nada é verdadeiro? Enfim… se você pensar que perdeu um parágrafo inteiro da sua vida pensando sobre algo inútil, console-se imaginando que eu perdi mais tempo ainda para explicar a você.

Como algo tão frágil sobreviveu ao tempo e tornou-se o ceticismo intelectual? As duas respostas mais óbvias estão no início deste artigo: é mais fácil usar como resposta que as coisas simplesmente não são verdadeiras, do que procurar onde estão suas verdades e erros e prová-los; assim como é mais fácil encontrar pontos a serem criticados do que valorizar as virtudes presentes. O ceticismo 2.0 é o ceticismo intelectual: não entendo, logo, não pode ser verdade. Não tenho interesse, logo, digo que não possui argumentos válidos. Novamente, uma casa frágil construída sobre a areia.

Mas quando a grande ideia do século XX tornou-se destruir a sociedade construída sobre o alicerce judaico-cristão para a implementação de algo “novo”, o ceticismo intelectual ganhou um novo fôlego através das diversas críticas: crítica literária, crítica histórica, crítica epistemológica…

Do ponto de vista intelectual, destruir, fragmentar e criticar acabam por se tornarem sinônimos quando a crítica tem como objetivo principal despedaçar uma ideia, uma organização ou uma obra, e não encontrar a verdade adormecida sob uma fachada talvez gasta, talvez com pinturas sobrepostas. Sob a premissa do ceticismo de que “não existe verdade absoluta”, a crítica é só destruição. Afinal, reconstruir o quê, se não existe verdade?

Tolos são os que acreditam no que esses artífices críticos da nova sociedade fingem acreditar. Quem não acredita na Verdade acredita em interesses, em fins que justificam quaisquer meios, em toda sorte de arranjos e trapaças para conquistar vantagens. Afinal, se existe a verdade, existe uma regra, uma norma que incomoda. Mas o desejo obscuro e latente é mais do que viver sem nenhuma regra, é criar suas próprias normas e leis e fazer com que os outros também as sigam. No primeiro momento, o de destruir, o ceticismo intelectual através da crítica é útil e, por isso, exaltado. No segundo momento, de impor novas leis e condutas, bastará mostrar os erros evidentes do ceticismo, sua contradição intrínseca, e eles construirão as novas verdades que mais convirem no momento.

O ceticismo científico

Mas como essa artimanha conseguiu se tornar tão forte nos últimos 80 anos? Com a chegada do ceticismo 3.0, o ceticismo científico!

O ceticismo científico não nega “toda a verdade”, só nega que possamos chegar a ela. Ou melhor, para eles, existe uma verdade aparente, uma certeza momentânea que podemos adquirir somente através dos experimentos científicos, usando a metodologia científica para avaliá-la: consigo realizar uma experiência com dados mensuráveis? Essa experiência tem uma amostragem válida? É reprodutível? Se esses quesitos forem correspondidos, cheguei numa proposição verdadeira! Tenho uma verdadezinha de estimação! Claro, não se empolgue… a ciência continua evoluindo, os instrumentos serão recalibrados, outras evidências surgirão que certamente irão corrigir e aperfeiçoar sua proposição verdadeira no futuro.

O ceticismo científico deu uma solução satisfatória para muitas questões dos “reformadores” do mundo: posso negar a Verdade absoluta e a tradição, pois, como vemos nos experimentos científicos, tudo que parece, no futuro pode-se descobrir que não era bem assim. Posso demolir o que quiser, criticar o que quiser, pois o ônus da prova passa a ser do outro e este outro é obrigado a jogar com meus dados viciados: prove que o Amor existe, mas prove utilizando meus dados científicos, com coletas de dados, através de um experimento reproduzível.

Para o cético científico, por enquanto, até novas pesquisas, o amor são algumas reações químicas, em algumas áreas do cérebro, que são diferentes em cada pessoa, reagem de forma desigual, mas ainda não existem dados suficientes para uma análise completa. Ou seja, não sabemos exatamente o que é o Amor, mas temos certeza absoluta que você está errado simplesmente porque não está embaralhando as nossas cartas em sua análise. São argumentos empíricos? Se não são, não se atreva a vir com uma resposta!

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Sei que o assunto é denso, por isso volto ao meu amigo do início: você percebeu que o ceticismo científico quer usar cola quente pra tudo? Se ela é maravilhosa para apliques e enfeites natalinos, não serve, em absoluto, para a funilaria de um carro. Quanto mais denso se torna o objeto de estudo, menos o empirismo e o cientificismo “cola”. Faz exatamente como a cola quente, suja um pouco a superfície, torna-a grudenta, mas não resolve o problema.

É claro, precisamos ser verdadeiros: a pesquisa científica é boa em muitos campos e trouxe inúmeros benefícios ao longo dos anos. A metodologia científica é excelente para produzir conhecimento durável em diversas áreas. Até mesmo o ceticismo intelectual, quando utilizado de forma honesta para questionar realidades conformadas, sedimentadas, buscando um novo olhar sobre o assunto e querendo construir é muito bom. Desfaz mitos irracionais e ajuda a construir um conhecimento mais saudável e palpável. Não nego a ciência como um todo, mas também não acredito em qualquer bobagem que ela propaga só porque foi publicada num recente artigo científico. Os erros apontados até aqui são basicamente dois:

1. Propagar que não existe algo verdadeiro, universal e eterno, que tudo, sem exceção, é transitório e reformulável. Ora, se a maioria das coisas são realmente assim e se o nosso conhecimento do mundo, da sociedade e dos outros é realmente limitado, isso não quer dizer que, automaticamente, TUDO seja assim. Você pode acabar se comportando como um sujeito que acordou no meio de um canavial e, por isso, sentenciou com absoluta segurança: não existem mais maçãs e laranjas!

2. Acreditar que a realidade material é tudo o que existe no universo. É com base nessa crença que querem reduzir todo o conhecimento ao puro conhecimento científico e adotar o ceticismo científico e o empirismo como lei. Como grande parte da humanidade vive de forma rasteira, preocupados somente com o comer, o beber, o vestir, o divertir (e, agora, o conectar), é fácil cair nessa armadilha. Mas medite: como você poderia medir o amor de sua mãe através de uma experiência empírica, com instrumentos científicos, que possa ser quantificada ou qualificada e seja reproduzível ao ponto de eu utilizar os mesmos parâmetros e chegarmos a uma conclusão segura de que minha mãe sempre me amou mais que a sua o amou? Como concluir que o “amor de mãe” esfriou durante os séculos?

O cristianismo: muito além do ceticismo

Gostaria que você notasse que, até aqui, não utilizei nenhum argumento teológico contra as várias camadas do ceticismo. Sim, foi de propósito. Primeiro, porque não é necessário, suas limitações são evidentes; e quando o ceticismo tenta abarcar questões muito além de sua capacidade, suas fragilidades aparecem por si só, como a cola quente.

Segundo, porque é comum a toda forma de pensamento indolente e medíocre, seja na filosofia contemporânea, nas seitas religiosas, na reflexão pseudopolítica ou pseudocientífica, bem como em diversas organizações sociais, atacar o cristianismo e fazer deste ataque a sua base dogmática. Ou seja, quando não se possui um conteúdo com embasamento racional, basta contradizer e criticar tudo o que a Igreja ensina e apoia e… voilà! Num passe de mágica, parece-se ter algum pensamento consistente, talvez até uma linha de raciocínio. Nesse sentido, todos são céticos filosóficos ao dizer que a Igreja está errada e Pilatos está certo: “Afinal, o que é a verdade?” (Jo 18,38).

Não só existem verdades absolutas, como existe a Verdade. Não apenas existe e experimentamos amor em nossa vida como também existe o Amor, aquele que ainda não amamos suficientemente. O cristianismo é, portanto, um salto absurdo de nível. Por isso o próprio Deus diz que “os meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, nem meu modo de agir é como os seus, tanto quanto o céu está elevado acima da terra, estão as minhas disposições acima das suas e os meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55,8-9).

A Verdade é uma pessoa, assim como o Amor. Isso quer dizer que além de procurar as verdades do mundo e do ser intelectualmente, precisamos nos relacionar com a Verdade como nos relacionamos com uma pessoa real. Real, mas muito acima dos nossos pensamentos, da nossa maneira cotidiana de agir e viver. É um movimento para toda uma vida, continua em toda a eternidade, e talvez esse seja um dos motivos porque Jesus afirmou que era “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6): eles se constroem juntos.

Então, não se confunda: um pouco de ceticismo, utilizado corretamente e nos objetos adequados, sempre terá seu valor. Tomá-lo como objetivo de vida e verdade inquestionável, no entanto, é comportar-se como o cachorro da fábula: o cão, deitado sobre a manjedoura dos animais, não comia o alimento separado para as vacas e cavalos e nem permitia que eles se aproximassem para comer. Deixemos que os pobres animais comam seu feno enquanto vamos ao encontro de nosso Senhor, que, certamente, nos espera com extraordinárias iguarias (Mt 11,28).

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Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é teólogo, casado e pai de três filhas. Além do bacharelado em Teologia, possui formação em Comunicação e especialização em Gestão, sendo colaborador da TV Canção Nova desde 2006. É o autor do livro “Santidade para todos: Descobrindo as Moradas Interiores”, em que, de maneira prática e descomplicada, ele explica o caminho espiritual pela busca da santidade.

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