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O que é obediência para o cristão?

A obediência e a disposição para escutar a voz de Deus

O Evangelho de Lucas, capítulo 2,41-50, relata um breve diálogo entre Jesus e Sua Mãe. Num primeiro momento, Maria pede explicações pelo comportamento de Jesus, e Este responde que fazia a vontade de Deus, mas, depois, se cala, obedecendo aos pais. O Evangelho diz: “Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré e era obediente a eles” (Lc 2,51). Ser obediente é o mesmo que “escutar”, dar ouvidos ao que os pais pedem para fazer. Jesus se justifica, mas obedece. O evangelista relata a consequência, no Filho, desta relação com Deus e da obediência aos Seus pais, descrevendo que Jesus “ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,52).

A obediência (do latim obedire = obedecer) pode ser classificada como uma das virtudes, e se define como um comportamento de alguém que se coloca na posição de escuta. O termo obediência, tal como a ação de obedecer, conduz da escuta atenta à ação, que pode ser puramente passiva ou exterior ou, pelo contrário, provocar uma profunda atitude interna de resposta. No caso de Jesus, e também o que Deus espera de nós, não é uma obediência de submissão, passiva, de medo, mas de alguém que se coloca diante do Pai como amigo e reconhece a importância de escutar Sua voz e praticar Seus ensinamentos: “Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha” (Mt 7,24).1 No Sermão da Montanha, Jesus proclamou que “nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

No texto de Mateus 12,46-50, lemos: “Jesus perguntou: Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, Jesus disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Jesus ultrapassa o limite de família como simples parentesco sanguíneo, alargando os limites da familiaridade com Ele àqueles que cumprem a vontade de Deus. Os verdadeiros familiares do Senhor são aqueles que “fazem” a vontade de Deus: “Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Ele mesmo, Jesus, é um verdadeiro mestre no “fazer” a vontade do Pai, também Sua Mãe Maria, discípula fiel, é exemplo para nós: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Maria escuta, acredita e cumpre o que escuta e acredita, “feliz Aquela que acreditou” (Lc 1,45).

O que é obediência para o cristão?

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Cristo é modelo de obediência para nós

Na perspectiva de Jesus, a vontade de Deus não deve ser feita com a atitude de um escravo que executa ordens do patrão, mas com o dinamismo e a criatividade de alguém que sabe escutar, obedecer e ser coerente com a Palavra escutada. Deve ser a atitude de um filho de uma filha que ama; “portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência”, escreve Paulo aos Romanos (13,5). Guardar a Palavra de Deus e obedecer-lhe tem que ser por amor e não por medo.

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23).

É preciso escutar a Palavra de Deus, deixar que essa Palavra caia em nosso coração, mas também a praticar, torná-la fecunda em nós e produzir frutos na caridade para o mundo. Que a Palavra permaneça em nós e nós permaneçamos nela, mergulhemos nela, que sejamos orientados, conduzidos por essa Palavra.

Na Santa Ceia, narrado pelo evangelista São João nos capítulos de 14 a 17, despedindo-se dos Apóstolos na véspera de sofrer a Sua dolorosa Paixão, Jesus fez várias recomendações, um discurso de despedida com ensinamentos para seus discípulos e para nós: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (João 14,15).

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e manifestar-me-ei a ele” (João 14,21).

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada. Aquele que não me ama não guarda as minhas palavras. A palavra que tendes ouvido não é minha, mas sim do Pai que me enviou” (João 14,23).

Ele ainda repetiu: “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor” (João 15,10).

Ainda no contexto de despedida, Jesus insistiu para que permaneçamos n’Ele para podermos ter condições de guardar os Seus mandamentos e fazer Sua vontade: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim” (João 15,5). Permanece no Senhor aquele, aquela que escuta a Sua voz e a coloca em prática, e atende ao Seu chamado: “Vem e segue-me” (Mt 19,21).

Ressurreição e glória

São Paulo escreve aos Filipenses, 2,6-11 e apresenta-nos Cristo como modelo de obediência ao Pai: “Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes”. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens até a morte, e morte de cruz, até ao dom total da vida. Essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projetos do Pai resultaram em ressurreição e glória. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe. Em consequência da nossa obediência, do nosso amor, da nossa entrega, também resultará em nossa ressurreição. Jesus nos chama para uma vida de obediência como Ele mesmo foi obediente ao Pai. “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna” (Jo 5,24). Obedecer a Deus implica colocar nossa fé n’Ele.

São João Paulo II, na encíclica Veritatis Splendor 2 afirma: “O bem consiste em pertencer a Deus, obedecer-Lhe, caminhar humildemente com Ele, praticando a justiça e amando a piedade”. O cristão, na escuta da Palavra, em obediência à voz de Deus, na caminhada de fé, vai discernindo entre o bem e o mal, construindo sua vida em comunhão com Deus, como afirma São Paulo aos Filipenses 1,10: “com que possais discernir o que é mais perfeito e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo”.

O cristão temente a Deus age de acordo com a autenticidade, com prudência, e procura encontrar o eco da voz de Deus no seu interior. Tende naturalmente escutar a Palavra de Deus, a buscar a verdade e fazer a vontade de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, n.1800).

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Formar a consciência para obedecer a Deus

Para o Apóstolo Paulo, os cristãos devem formar sua consciência, examinando-se a si mesmo, procurando a vontade de Deus: “Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice” (1Cor 11,28). “A razão da nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência de que, no mundo e, particularmente, entre vós, temos agido com santidade e sinceridade diante de Deus, não conforme o espírito de sabedoria do mundo, mas com o socorro da graça de Deus” (2Cor 1,12). “Digo a verdade em Jesus Cristo, não minto; a minha consciência me dá testemunho pelo Espírito Santo” (Rm 9,1). “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,2).

No Catecismo da Igreja Católica, no número 1785, temos: “Na formação da consciência, a Palavra de Deus é a luz de nosso caminho. É preciso que a assimilemos na fé e na oração e a ponhamos em prática. É preciso ainda que examinemos nossa consciência confrontando-nos com a Cruz do Senhor. Somos assistidos pelos dons do Espírito Santo, ajudados pelo testemunho e conselhos dos outros e guiados pelo ensinamento autorizado da Igreja”. Formar a consciência para Deus é ainda educar as pessoas no mistério da oração como diálogo com Deus, deixando-as, ao mesmo tempo, livres para responder aos apelos de Deus.

Obedecer a Deus ou aos homens? A quem devemos obedecer?

No livro dos Atos dos Apóstolos, 4,18-19, quando queriam obrigar que Pedro e João não falassem nem ensinassem em nome de Jesus, assim responderam: “Julgai vós mesmos se é justo, diante de Deus, que obedeçamos a vós e não a Deus! Quanto a nós, não nos podemos calar sobre o que vimos e ouvimos”. Também em Atos dos Apóstolos 5,28-29: “Expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome. Não obstante isso, tendes enchido Jerusalém de vossa doutrina! Quereis fazer recair sobre nós o sangue deste homem?”. Pedro e os apóstolos replicaram: “Importa obedecer antes a Deus do que aos homens”. É a Deus que devemos escutar a voz e obedecer aos Seus mandamentos.

No seguimento a Cristo a obediência à Palavra de Deus é a luz de nosso caminho. É preciso que a assimilemos na fé e na oração, e a ponhamos em prática. “Procurai o que é agradável ao Senhor” (Ef 5,10), nisto consiste nossa verdadeira felicidade.

Referências:

1 Para nos ajudar na reflexão: COELHO, Mário Marcelo. Educar para as virtudes humanas. São Paulo: Canção Nova, 2013. Você poderá encontrar em eBook: https://www.wook.pt/ebook/educar-para-as-virtudes-humanas-padre-mario-marcelo-coelho-scj/18228530

2 JOÃO PAULO II. Carta Encíclica “Veritatis Splendor” sobre algumas questões fundamentais do ensinamento moral da Igreja. 3 a ed. São Paulo: Loyola, 1994, n. 11.

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Padre Mário Marcelo, scj

Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. O sacerdote é autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética. Membro do grupo Interdisciplinar de Peritos (GIP) da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.

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