Reflexão

Escutando a Deus: a história que poderia ser a nossa

Queria contar uma história, mas pensei no trabalho que daria, porque é preciso muita criatividade e inspiração para contá-la bem e, na prática, nunca fui uma boa contadora de histórias. No entanto, lembrei-me de um fato que aconteceu e vou contá-lo aqui em forma de história. Antes de iniciá-la, gostaria de levantar uma questão: você tem escutado a Deus?

Ela estava indo para a casa dela depois de um dia de trabalho. O caminho era o mesmo de sempre: mesmo horário e até os passos eram os mesmos; ela chegaria em casa na mesma hora. Exatamente tudo como sempre foi: já havia comprado o pão (o lanche do dia estava garantido), era só chegar em casa e preparar o café, até o cheirinho dele ela já sentia. “Tomar café da manhã é maravilhoso, mas no fim da tarde já começando a escurecer também é bom”, isso passava pela sua cabeça enquanto caminhava.

Escutando-a-Deus-a-história-que-poderia-ser-a-nossa

Foto Ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Tudo se faz diferente quando Deus está presente

Aquele dia, no entanto, seria diferente. Pela manhã, quando saiu de casa, uma sucessão de fatos foram chamando a sua atenção: o canto do pássaro que nunca havia reparado; o seu Luiz, homem bom e trabalhador que tinha seu comércio ali na rua, e lhe deu um bom-dia demorado, como se estivesse mais feliz do que o normal; o ônibus que veio quase vazio e deu até para sentar no caminho para a faculdade. E na calçada esburacada (que algumas vezes já lhe fez torcer o pé e foi causa de grande dor) havia nascido, despretensiosamente e contra todas as probabilidades, uma pequena flor que lhe serviu de “remédio” para superar a memória dolorida daquele lugar.

“Que engraçado! O dia hoje parece estar sorrindo”, assim ela pensava.

Após relatar esses fatos a uma amiga da faculdade, que sentou ao seu lado no ônibus, ela perguntou: “Você já teve um dia assim?”.

A amiga respondeu-lhe: “Já sim! Quando os dias estão assim, tenho certeza absoluta de que é Deus querendo falar comigo“.

– “É mesmo? Como você tem tanta certeza?”.

A amiga continuou a responder: “Deus fala baixinho, Ele é muito discreto. E cada uma dessas coisas traz uma paz ao meu interior que quase sou capaz de ouvi-Lo dizer: ‘A Paz esteja contigo! Veja, filha, que dia lindo preparei para ti!’.”

Leia mais:
.: Como Deus pode nos ajudar na construção da vida espiritual?
.: Por que temos dificuldades para ouvir Deus?
.: A experiência com Deus nos torna cada vez mais humanos
.: Diante da escolha é preciso refletir

Escutando Deus

Então, abriu-se nela um espaço que até aquele momento nunca havia percebido em si. Um “lugar de Deus”, chamemos assim. Um lugar dentro de si onde Deus habita, fala e age. Um lugar de silêncio também. Esse lugar, muitas vezes, assim como agora, tornava-se sensível a partir de fora. Sim, eram as situações externas que a faziam migrar para dentro desse lugar até então desconhecido. E aquele dia todo ela parecia estar voltada para dentro de si, mas era um dia como outro qualquer.

Nada de extraordinário havia acontecido. A não ser o fato de ela ver tudo diferente e, com o olhar mais atento, descobriu, naquele dia, que Deus falava com ela e estava totalmente decidida a ouvir cada sussurro.

Foi então que, já com as chaves na mão para abrir a porta de casa, ela foi abordada por dois rapazes com aspecto amedrontador, os olhos de ambos estavam como que dilatados, respiravam rápido como quem está com uma terrível pressa e uma intenção não muito sensata. Um deles, segurando no seu braço, disse-lhe:

-“Moça! Moça, passa a bolsa!”.

Ela não hesitou e, logo, entregou tudo o que tinha, inclusive o pão. Subindo os dois numa moto, jogaram na calçada o saco de pão e foram embora com sua bolsa e tudo o que nela havia.

Ele fala conosco

Na hora, ela sentiu um pavor tremendo, parecia que não seria capaz de sustentar-se sobre suas próprias pernas. Por uns instantes, esqueceu-se de tudo o que havia lhe acontecido naquele dia tão particular e só pensava em sua bolsa, nos pertences que nela estavam e no trabalho que daria recuperar todos os documentos que lhe foram roubados. Assim que começou a lamentar-se, lembrou-se do que a amiga lhe havia dito: “Quando os dias estão assim, tenho a certeza absoluta de que é Deus querendo falar comigo”.

Então, ela pensou: “Será que também nisso Deus está querendo falar comigo? Será que Deus fala até por meio de pessoas tão más? E de situações como essas?”. Em meio a tantas perguntas que lhe ocorriam, lembrou-se de um dia ter ouvido dona Lúcia, uma senhora de mais idade e muita sabedoria, que morava nas redondezas dizer: “Deus pode tirar um bem de um mal aparente, minha filha; não fosse assim, Ele não o permitiria”.

Ela sentiu-se consolada por essa memória. Todo o medo dissipou-se e ela decidiu tomar aquela situação como mais uma forma de Deus falar-lhe. Entrou em casa e lembrou-se novamente da bolsa, pois deveria colocá-la no cabide que ficava atrás da porta, e quase foi tomada novamente pelo sentimento de terror. Mas, numa súbita decisão, seguiu para a cozinha, colocou água para ferver, preparou o café, sentou-se à mesa, degustou seu delicioso e tão esperado café com o pão quentinho.

Louvar a Deus por toda a nossa história de vida

Ela resolveu louvar a Deus por tudo o que lhe havia acontecido naquele dia, desde que acordou até aquele momento, mesmo sabendo que, no outro dia, teria grande trabalho com a papelada da segunda via dos seus documentos. Estava decida a guardar aquela paz que lhe havia sido revelada por cada situação corriqueira daquele dia (aparentemente) tão normal e ao mesmo tempo extraordinário.

Louvou a Deus por aquela amiga que lhe mostrou não apenas algo novo, mas um jeito novo de viver. E, apesar de tudo, preferiu guardar a paz, pois não tinha mais dúvida de que, a todo momento, Deus estava com ela.

banner_espiritualidade


Carla Picolotto

Carla Picolotto, é natural de São José das Missões-Rio Grande do Sul membro da Canção Nova desde 2009. Passou pelas missões do Rio de Janeiro- RJ, Fortaleza- CE, além de Cachoeira Paulista-SP e Lavrinhas-SP atua hoje na missão de Queluz- SP na Equipe de Formação do Discipulado, que corresponde ao segundo ano do período de Averiguação de ingresso das novas vocações à Canção Nova.

comentários