Onde estava o meu anjo da guarda? A pergunta de quem sofre uma tragédia
Chovia fino na estrada quando o caminhão invadiu a pista. Ela se lembra do clarão dos faróis, do grito do metal e, depois, de um silêncio que durou horas. Acordou num corredor de hospital, com o braço imobilizado e um médico que olhava para a prancheta como quem procura ali a coragem que lhe faltava. A filha de sete anos, que dormia no banco de trás, abraçada a um coelho de pano, não tinha resistido. O coelho sobreviveu. Naquela madrugada, sozinha diante de uma parede branca que parecia não terminar nunca, voltou-lhe aos lábios a oração que a mãe lhe ensinara e que ela repetira com a menina todas as noites à beira da cama: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…”. A oração veio com a naturalidade das coisas aprendidas na infância. E, colada a ela, a pergunta que lhe atravessou a alma como uma lâmina: onde estava o anjo da guarda da minha filha? Onde estava o meu?

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Há duas respostas fáceis para essa pergunta, ambas cruéis. A primeira é a do cético, que sorri com uma falsa pena e explica que anjos são histórias para “fazer as crianças dormirem”. Tem a vantagem de ser simples e a desvantagem de deixar aquela mãe sozinha no corredor para sempre. A segunda é a do sentimental, que imagina o anjo como uma espécie de airbag celeste, um dispositivo de segurança instalado por Deus para amortecer os choques da vida. Essa é mais doce e, ainda assim, a mais perigosa, pois, no dia em que o airbag não abrir, a fé explodirá junto com o carro.
O que a Igreja responde: o anjo estava ali
A resposta da Igreja é muito mais simples e sincera: o anjo estava ali. Sim, simplesmente isso: o anjo estava ali!
Estava ao lado da menina até o último instante, e estava ao lado daquela mãe no corredor do hospital, fazendo exatamente aquilo para que Deus o enviou. A Sagrada Escritura chama os anjos de espíritos servidores, enviados a serviço daqueles que devem herdar a salvação (Hb 1,14). Aí está a medida de toda a sua obra. O anjo da guarda é ministro da Providência divina em vista da vida eterna e cuida do bem temporal do homem na medida em que estes servem a esse fim. O mundo costuma julgar o anjo pelo que acontece ao corpo, mas este é um juízo equivocado, visto que seu real juízo se estabelece pelo que acontece à alma. Quando Deus permite uma tragédia no tempo, o anjo concentra seu cuidado no campo onde a salvação se decide: a inteligência ferida e o coração dilacerado de quem sofre, onde as virtudes teologais da fé, da esperança da caridade precisam permanecer de pé depois que todo o resto caiu.
É sobre essa obra silenciosa que as páginas seguintes procuram trazer alguma luz.
1. Guardião do caminho para Deus: Para que Deus enviou o anjo da guarda? O que é a “guarda dos anjos” segundo Santo Tomás de Aquino?
Para saber onde o anjo estava, é preciso saber para que foi enviado. Santo Tomás explica que Deus executa sua providência por meio de causas intermediárias; e como a natureza angélica está entre Deus e o homem, cabe aos anjos executar a providência divina a respeito da salvação humana, ajudando o homem a tender ao seu fim e livrando-o daquilo que impede o seu avanço. A essa execução, conclui ele, chama-se “guarda dos anjos”1. Deus não precisa deles, assim como um pai não precisa que o filho pequeno o ajude a carregar as compras. E, no entanto, entrega-lhe a sacola mais leve, porque o amor gosta de associar. Santo Tomás ensina que Deus age assim por sabedoria, para conceder aos anjos a dignidade de conduzir as criaturas de volta ao Criador2.
Todo ser humano tem um anjo da guarda?
Na Suma, São Tomás explica por que o homem precisa dessa condução. Somos semelhantes a viajantes com mapas surrados: nosso conhecimento vacila e nossos afetos oscilam ao sabor das circunstâncias, e cada encruzilhada da vida moral nos encontra um pouco mais cansados. Convém, por isso, que sejamos guiados por espíritos já firmados para sempre no bem, que regulem e movam nossa marcha em direção a esse mesmo bem3. A ajuda é oferecida a todos, desde o nascimento, e Deus não a economiza nem com os que a recusarão. Santo Tomás chega a afirmar que nem mesmo aquele que se perderá fica privado dela: assim como não lhe falta a luz interior da razão, também não lhe falta esse socorro exterior que Deus concedeu a toda natureza humana4. O anjo é uma oferta de salvação que caminha ao lado do homem a vida inteira, batendo à porta sem arrombá-la. O Catecismo subscreve a mesma doutrina, recordando as palavras de São Basílio: ao lado de cada fiel está um anjo, como protetor e pastor, para conduzi-lo à vida5.
O anjo da guarda protege o corpo ou a alma?
O cuidado do corpo entra nessa missão, mas em seu devido lugar. A criança pequena, ainda incapaz de merecer ou de pecar, tem um anjo que a protege dos males corporais na medida em que estes poderiam prejudicar a sua alma6. Quando o anjo da guarda segura a mão da criança à beira da escada, está pensando em algo muito maior do que os degraus. Mesmo quando ampara o corpo, nosso amigo celeste tem os olhos postos na eternidade.
2. A providência que permite: Por que Deus permite a tragédia se existe o anjo da guarda?
Se o anjo executa a ordem da Divina Providência, ele quer o que Deus quer e permite o que Deus permite. A pergunta pela ausência do anjo nos leva, então, ao mistério da própria providência, que alcança cada criatura naquilo que ela tem de mais singular7 e, ainda assim, deixa acontecer o acidente e os infortúnios da vida. Vista daqui de baixo, a história se parece com um bordado olhado pelo avesso (para usar o exemplo de São Padre Pio): fios cortados e cores que não combinam. O mesmo artigo de Santo Tomás oferece a chave para imaginar o lado direito do bordado: quem tem o cuidado de um todo permite certas falhas nas partes, para não impedir o bem do conjunto8. Garrigou-Lagrange acrescenta que Deus só quer a dor e o mal físico de modo acidental em vista de um bem mais alto9. Qual seja esse bem, São Paulo o diz no trecho de sua carta mais citado nos tratados da Providência: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).
O anjo da guarda e a tribulação permitida por Deus
É sob essa luz que se deve ler o texto de Santo Tomás que responde mais diretamente a nossa pergunta. O anjo da guarda, diz ele, jamais abandona inteiramente o homem. Em algo, porém, o deixa: não impede que seja submetido a alguma tribulação, nem mesmo que caia em pecado, segundo a ordem dos juízos divinos10. A tribulação permitida acontece dentro da própria guarda. O anjo que não desviou o golpe continua ao lado de quem o recebeu, com a mesma solicitude de antes, e talvez com mais trabalho do que antes.
Jó e os caminhos da providência
O livro de Jó é o grande comentário bíblico a essa doutrina. O leitor sabe, desde o prólogo, que Deus permitiu a Satanás provar o justo; Jó ignora essa razão até o fim, e é justamente por ignorá-la que sua fidelidade vale tanto. Garrigou-Lagrange vê, neste relato, as vias ocultas da providência, reveladas ao leitor no início do livro e profundamente misteriosas para o aflito. Seguindo o comentário de Santo Tomás, observa que o erro dos amigos de Jó foi esquecer a vida futura e exigir que toda justiça se cumprisse nesta vida11. Quando o próprio Senhor fala, responde às perguntas de Jó com perguntas ainda maiores, e Jó se cala em paz. Chesterton escreveu, a propósito desse livro, que os enigmas de Deus satisfazem mais do que as soluções dos homens12. A lição final é que Deus prova os seus como o ouro na fornalha. Se uma aflição concreta é prova ou castigo, e em que medida é uma coisa e outra, somente Ele o sabe.
A providência na história de Pedro e Tiago
O capítulo 12 dos Atos dos Apóstolos coloca lado a lado duas cenas que parecem se contradizer. Herodes manda matar Tiago à espada; poucos versículos depois, um anjo desperta Pedro na prisão, faz caírem as correntes e o conduz pelas ruas adormecidas de Jerusalém. A mesma Igreja rezava pelos dois, o mesmo Senhor governava os dois destinos. São Pedro foi liberto para continuar a missão; São Tiago, no entanto, foi libertado de outro modo, mais definitivo, e entrou primeiro na glória. Para os olhos da terra, um foi salvo e o outro perdido. Para os olhos do céu, os dois chegaram exatamente aonde deviam, e nenhum deles ficou um só instante fora do cuidado de Deus e de seus anjos.
A promessa do salmo 90
O Salmo 90 promete que Deus dará ordens a seus anjos para guardarem o justo em todos os seus caminhos. Há uma ironia terrível no fato de que o primeiro a transformar esse versículo em garantia de “proteção espetacular e irrestrita” foi o demônio, no deserto (Mt 4,6). Nosso Senhor recusou a leitura diabólica. As promessas do Salmo, cheias de realismo espiritual, fazem entrever a vida futura, e o próprio Salmo termina apontando para ela: “Estarei com ele na tribulação, eu o livrarei e o glorificarei, e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 90,15-16). A promessa inclui a tribulação, e o que Deus jura é atravessá-la junto com o justo.
3. Como o anjo toca a alma
Para compreender o que o anjo faz no meio da dor, é preciso saber de que modo um espírito puro pode tocar uma criatura feita de barro. Santo Tomás dedica a isso uma questão inteira da Suma, com a paciência de um relojoeiro que desmonta o mecanismo peça por peça, e suas distinções iluminam o nosso tema com uma precisão indispensável.
Como o anjo ilumina a inteligência
O primeiro campo da ação angélica é a inteligência. O anjo a ilumina de dois modos: 1) fortalecendo a sua luz: como um corpo mais quente, aquece o que dele se aproxima, e 2) propondo-lhe a verdade sob imagens sensíveis, adaptadas a uma inteligência que conhece a partir dos sentidos13. É um mestre que se abaixa até a altura do aluno. Nas questões sobre a verdade, o Doutor Angélico precisa o alcance dessa ação: o anjo não pode infundir a luz intelectual, como Deus faz, e pode, contudo, fortalecer a luz infundida, para que o homem veja com mais perfeição14. E observa, quase de passagem, que o homem nem sempre percebe quando está sendo iluminado por um anjo!15. É uma das frases mais humildes e mais belas da angelologia. Passamos a vida inteira recebendo bons pensamentos e assinando-os como nossos.
Como o anjo age sobre a imaginação e a memória
Como a inteligência humana se apoia na imaginação, o anjo pode agir também sobre ela, movendo as disposições corporais que a sustentam e fazendo surgir diante da mente uma imagem ou outra16. Trabalha com o material que a própria vida depositou no homem: uma lembrança, uma palavra ouvida na catequese, o rosto de alguém que se ama, um conselho do diretor espiritual e assim por diante.
O anjo pode mover a vontade? O santuário que só Deus alcança
A vontade, porém, guarda um santuário onde só Deus entra. Somente Ele pode movê-la a partir de dentro, porque só Ele a criou e a inclina ao bem. O anjo fica à porta desse santuário: ele move a vontade de modo indireto, 1) apresentando à inteligência um bem sob o aspecto que o torna desejável, ou 2) despertando as paixões sensíveis; e mesmo assim a vontade permanece sempre livre para consentir ou resistir17. Bonino oferece um exemplo simples: assim como um demônio pode acender a concupiscência, um anjo bom pode suscitar um movimento de coragem18.
Por que quase nunca percebemos a ação do anjo da guarda no sofrimento
Daqui brotam duas consequências para quem sofre. A primeira é que a ação do anjo na tribulação é quase sempre discreta, e por isso quase sempre esquecida. Garrigou-Lagrange ensina que a intervenção do anjo da guarda que, por ordem de Deus, sugere um bom pensamento, no sono ou na vigília, pertence ao curso ordinário da providência e é frequente na vida dos que se abandonam a Deus19. A segunda é que essa ação alcança precisamente as faculdades que a tragédia fere. O choque de uma perda enche a imaginação de cenas que voltam sem cessar, turva o juízo e revolve as paixões como um vendaval. É nesse campo devastado que o anjo trabalha: acalmando, sugerindo, trazendo à memória uma palavra do Evangelho, protegendo como quem protege com as mãos em concha a pequena chama que ainda resta acesa.
4. O anjo e as virtudes teologais na provação: Como o anjo da guarda sustenta a fé, a esperança e a caridade na provação
A fé, a esperança e a caridade são obra exclusiva de Deus na alma. O assentimento da fé procede de Deus, que move interiormente pela graça20, e a caridade é derramada nos corações “pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Bonino resume o princípio do seguinte modo: o dom da graça está estritamente reservado a Deus, o único que pode agir no interior da vontade; e, ainda assim, convém que a instrução espiritual do homem passe pela iluminação dos anjos21. O anjo é, portanto, o jardineiro de uma planta que ele mesmo não semeou. Prepara o terreno, afasta as pragas, rega nas horas de seca e se alegra com cada flor que Deus faz brotar. Na tragédia, cada uma das três virtudes é atacada de um modo próprio, e o anjo acorre a cada uma segundo a sua natureza.
A fé: a luz que não se apaga
Contra a fé, a tragédia levanta a objeção mais antiga do mundo: se Deus fosse bom e poderoso, isso não teria acontecido. É curioso que a dor, que deveria ser o argumento mais forte contra Deus, tenha levado tantos homens a encontrá-lo: os santos são aqueles que sofreram e continuaram crendo; ou, melhor: que creram ainda mais por isso! O primeiro socorro do anjo chega à inteligência. Ele repropõe à alma as verdades que ela já conhece e que a dor encobriu como a neblina encobre uma paisagem que continua lá: Deus é Pai, nada escapa à Sua providência, a morte não tem a última palavra etc. E, segundo o princípio enunciado nas questões sobre a verdade, fortalece a luz que a alma já recebeu, para que continue a ver quando tudo escurece. Na véspera da Paixão, Cristo rezou para que a fé de Pedro não desfalecesse, na hora em que Satanás pedira para peneirá-lo como trigo (Lc 22,31- 32). Garrigou-Lagrange aproxima essa cena do prólogo de Jó e comenta que são melhores os que assim são peneirados22. Junto de cada fiel provado, o anjo é o primeiro servidor dessa oração de Cristo.
A esperança: o horizonte da eternidade
O perigo mais agudo da tragédia é o desespero, que encolhe o universo inteiro até o tamanho de um quarto de hospital. A esperança tem por objeto a bem-aventurança eterna e o auxílio divino para alcançá-la23. Poderíamos dizer que ela é a “virtude das janelas”. Como o anjo pode mover a vontade apresentando-lhe um bem sob o aspecto que o torna amável, ele é capaz de reabrir essas janelas e de recordar à alma que as almas dos justos estão nas mãos de Deus (Sb 3,1). Pode ainda suscitar, no plano das paixões, aquele pequeno movimento de coragem que permite dar o passo seguinte. Os amigos de Jó erraram por esquecer a vida futura; o anjo trabalha no sentido oposto e mantém a eternidade diante dos olhos de quem sofre, como quem segura uma lanterna na direção da saída.
Na escuridão da noite, vemos muito mais longe do que à luz do dia, porque é preciso que o sol se esconda para que as estrelas apareçam. Enquanto o dia nos mostra o bairro, a noite nos mostra o universo. Do mesmo modo, quando a providência apaga numa vida o brilho das coisas da terra, as realidades espirituais começam a mostrar-se em toda a sua grandeza24. Na noite da provação, o anjo ajuda a alma a erguer os olhos para as estrelas.
A caridade: permanecer unido a Deus
A caridade é atacada pela revolta, como no caso da mulher de Jó que lhe ordenou: “amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2,9). Quando a tragédia nasce de um crime, soma-se a ela a tentação do ódio contra o culpado. Aqui aparece outra função do anjo: combater os demônios, que exploram justamente as horas de fraqueza, como ladrões que preferem as casas com a porta arrombada25. O ato de caridade brota da vontade movida pela graça, e o anjo o serve afastando as sugestões do inimigo e apresentando à alma os motivos do amor: o Crucificado, a vontade de Deus que tudo ordena ao bem, a misericórdia que ela mesma já recebeu tantas vezes etc.
O anjo sustenta a caridade também pela oração. O arcanjo Rafael revela a Tobit e a Tobias que apresentava ao Senhor a memória das suas orações (Tb 12,12), e o Apocalipse mostra a fumaça do incenso subindo com as orações dos santos da mão do anjo diante de Deus (Ap 8,4). Santo Tomás explica que nossas orações chegam a Deus pelo ministério dos anjos que intercedem por nós26. Há algo de profundamente comovente nisso. Quando o fiel ferido já não consegue rezar, quando as palavras se desfazem na garganta e só resta o choro, há alguém que recolhe essas lágrimas e as leva ao trono de Deus como se fosse um salmo. O ato perfeito da caridade na provação é a palavra de Jó: “o Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). Garrigou-Lagrange diz que Deus, quando permite a perseguição exterior, não permite que o justo perca o ânimo: sustenta-o invisivelmente27. Na ordem da execução, esse sustento invisível passa muitas vezes pelas mãos do anjo.
5. O anjo do Getsêmani: como o anjo consola quem sofre
Toda essa doutrina encontra a sua imagem perfeita num jardim das oliveiras. O Filho de Deus, que sustenta o universo com a sua palavra, está prostrado na terra, com o suor caindo-lhe como gotas de sangue. Pede ao Pai que afaste o cálice, se for possível, e entrega-se à Sua vontade. São Lucas acrescenta um detalhe que só ele registra: apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava; e, entrando em agonia, orava com mais insistência (Lc 22,43-44).
Por que o anjo não afastou o cálice de Jesus
O cálice permaneceu. O anjo veio para fortalecer Aquele que ia bebê-lo. Há poucos paradoxos tão vertiginosos em toda a Escritura: o Criador dos anjos consolado por um anjo, o Senhor dos exércitos celestes amparado por um dos seus soldados. E o fruto dessa consolação é surpreendente. Depois dela, Jesus reza com mais intensidade, levanta-se e caminha ao encontro de quem o entrega. Eis a forma da ajuda angélica na hora da dor: ela sustenta a fidelidade e acompanha o homem através da cruz, até o outro lado.
Poucas horas depois, quando São Pedro desembainha a espada, o Senhor lhe diz que poderia pedir ao Pai, e Ele lhe enviaria mais de doze legiões de anjos; mas então como se cumpririam as Escrituras? (Mt 26,53-54). Doze legiões esperavam uma palavra: ela apenas não foi dita. O poder de impedir estava ali, inteiro, e foi inteiramente subordinado à obra da salvação. Santo Tomás ensina que Cristo não teve anjo da guarda, porque já gozava da visão de Deus e era superior aos anjos28. Os anjos que o serviram no deserto e no Getsêmani exerceram um ministério junto à sua humanidade sofredora. Por analogia, o fiel que sofre unido a Cristo pode contar, da parte do seu anjo, com um ministério semelhante.
Como reconhecer a consolação do anjo em meio à dor
A cena ensina também uma pedagogia para quem acompanha os que sofrem. A consolação do anjo raramente tem a forma que o aflito imagina pedir. Chega como força para continuar rezando, como capacidade de dizer a vontade de Deus em lugar da própria, como uma paz que se instala na parte mais alta da alma enquanto a sensibilidade ainda sangra. É possível chorar e estar em paz ao mesmo tempo; os santos o fizeram, e o próprio Nosso Senhor o fez naquela noite. Garrigou-Lagrange descreve exatamente essa paz: em meio aos acontecimentos penosos, a alma permanece serena ao menos em sua parte superior, porque está intimamente persuadida de que Deus a conduz29.
6. O anjo sofre conosco? O que ensina Santo Tomás
Resta uma pergunta que brota do afeto, e talvez seja a mais humana de todas: o anjo chora conosco? Santo Tomás responde que os anjos não se entristecem com os males daqueles que guardam. Nada acontece no mundo contra a vontade dos anjos e dos bem-aventurados, porque a vontade deles adere inteiramente à ordem da justiça divina, e nada acontece no mundo senão aquilo que essa justiça faz ou permite30.
Vontade antecedente e consequente: a paz do anjo diante da dor
À primeira leitura, a resposta pode soar fria. Mas basta olhá-la um pouco mais de perto para encontrar seu calor. Bonino ilumina a questão com a distinção tomista entre vontade antecedente e vontade consequente31, que Santo Tomás formula ao tratar da vontade divina32. Considerado em si mesmo, o bem do protegido é querido pelo anjo com todo o ardor da caridade. Na vontade consequente, que é a vontade real e última, ele quer o que Deus quer ou permite, porque contempla o desígnio que o homem ainda não pode ver. Sua paz é a de quem já leu o último capítulo do livro e sabe como a história termina.
E essa paz é um presente para quem sofre. Quem atravessa uma tragédia precisa de muitas coisas, e uma das mais raras é alguém a seu lado que não se aflija junto. O salva-vidas que entra em pânico com o náufrago afunda com ele, enquanto que aquele que mantém a calma é o único que pode trazê-lo com segurança à praia. Garrigou-Lagrange afirma que as almas provadas verão um dia que os anjos encontravam motivo de alegria naquilo que, por vezes, as deixou profundamente desoladas33. O anjo já contempla o bem que Deus está tirando do mal, e sua serenidade é uma espécie de promessa silenciosa: um dia você também verá.
O anjo da guarda na hora da morte: o que acontece depois
Quando a tragédia inclui a morte, a fé da Igreja estende o cuidado angélico até o limiar da eternidade. O pobre Lázaro, que viveu à porta do rico sem que ninguém o notasse, teve na morte um cortejo que nenhum rei conheceu: foi levado pelos anjos ao seio de Abraão (Lc 16,22). A liturgia das exéquias pede que os anjos conduzam ao paraíso aquele que partiu. Santo Tomás ensina que, depois da morte, cessa o ofício propriamente de guarda, porque o homem já não é peregrino; ainda assim, o anjo permanece unido a ele de outro modo, como companheiro na glória34. A morte, que aos olhos da terra parece o fracasso do guardião, é o momento em que ele entrega a sua obra concluída. Uma morte violenta ou repentina chega, assim, ao seu termo acompanhada pelo mesmo ministério que acompanhou a vida inteira.
O anjo da guarda no corredor do hospital: onde ele estava, afinal
Voltemos àquela mãe sentada diante da parede branca. Se alguém pudesse abrir-lhe os olhos para o invisível, como Eliseu abriu os olhos do seu servo diante do exército que cercava a cidade, ela veria que nunca esteve sozinha. O anjo da guarda da filha acompanhou a menina até o último instante e a conduziu a um lugar onde nenhum caminhão poderá jamais feri-la outra vez. O seu próprio anjo da guarda estava ali, junto dela, travando a batalha decisiva no único campo onde ela ainda podia ser vencida ou perdida: na sua inteligência, para que a fé não se apagasse; no seu coração, para que a esperança não morresse e a dor não converte a caridade em revolta. A oração que ela rezou quase sem voz, “Santo Anjo do Senhor…”, subiu a Deus pelas mãos dele, mais bela do que qualquer oração que ela tenha rezado em seus dias felizes.
É isso que a teologia católica pode dizer a quem pergunta onde estava o seu anjo da guarda: Ele estava exatamente onde Deus o colocou, cumprindo a missão que Deus lhe deu: conduzir você à vida eterna. Às vezes, afasta o perigo, e nós o chamamos de sorte. Outras vezes, segundo a ordem dos juízos divinos, deixa que a tribulação chegue e permanece ao seu lado, dentro dela, e nós o chamamos de ausente. Em nenhum dos casos, contudo, abandona o seu protegido. O anjo da guarda é o amigo mais fiel e o mais esquecido que um homem pode ter, e só na eternidade saberemos quantas vezes nos salvou sem que percebêssemos.
Como rezar ao anjo da guarda na hora da provação: seis petições
Por isso, convém ensinar o fiel a pedir ao anjo da guarda, na hora da provação, aquilo que corresponde à sua missão e ao modo como ele age na alma: que 1) fortaleça a luz da sua inteligência, para que a fé continue a ver quando tudo escurece; que 2) proponha, na sua imaginação ferida, imagens santas no lugar das cenas que o atormentam, uma palavra do Evangelho, o rosto do Crucificado, a lembrança dos que já estão nas mãos de Deus; que 3) apresente à sua vontade o bem eterno sob o aspecto que o torna amável, para que a esperança volte a abrir as janelas da alma; que 4) desperte em suas paixões aquele movimento de coragem que permite dar o passo seguinte; que 5) afaste as sugestões do inimigo, para que a dor não apodreça em revolta nem em ódio; e que 6) leve ao trono de Deus a oração que ele já não consegue formular. Pedir isso é pedir ao anjo da guarda exatamente aquilo para que Deus o enviou, e poucas orações coincidem tão perfeitamente com a vontade divina. Na noite da tragédia, rezar assim é estender a mão no escuro com a confiança de uma criança, certa de que há alguém ali para segurá-la.
Ou, se for difícil demais lembrar-se dessas seis petições, basta-nos repetir, como sempre, aquelas doces palavras da infância: “Santo Anjo do Senhor…”!
- TOMÁS DE AQUINO. Scriptum super Sententiis. Lib. II, d. 11, q. 1, a. 1.
- Ibid., ad 1.
- TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. I, q. 113, a. 1. Doravante citada como S. Th.
- Ibid., I, q. 113, a. 4, ad 3.
- IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. n. 336.
- TOMÁS DE AQUINO. Scriptum super Sententiis. Lib. II, d. 11, q. 1, a. 3, ad 3.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 22, a. 2.
- Ibid., ad 2.
- GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Providence et la confiance en Dieu. Paris: Desclée de Brouwer, 1932. III parte, cap. 1.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 6.
- GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., III parte, cap. 3.
- CHESTERTON, G. K. Introduction to the Book of Job. 1907.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 111, a. 1.
- TOMÁS DE AQUINO. Quaestiones disputatae de veritate. q. 11, a. 3.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 111, a. 1, ad 3.
- Ibid., a. 3.
- Ibid., a. 2.
- BONINO, Serge-Thomas. Angels and Demons: a Catholic introduction. Washington, DC: The Catholic University of America Press, 2016. p. 80.
- GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 6, a. 1.
- BONINO, op. cit., p. 268.
- GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., III parte, cap. 3.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 17, a. 2.
- GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 114, a. 1.
- TOMÁS DE AQUINO. Super Epistolam ad Philippenses. c. 4, lect. 1.
- GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 4, ad 1.
- GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 7.
- BONINO, op. cit., p. 272-273.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 19, a. 6, ad 1.
- GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
- TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 5, ad 2.





