Angeologia e espiritualidade

Onde está o anjo da guarda na hora da tragédia?

Onde estava o meu anjo da guarda? A pergunta de quem sofre uma tragédia

Chovia fino na estrada quando o caminhão invadiu a pista. Ela se lembra do clarão dos faróis, do grito do metal e, depois, de um silêncio que durou horas. Acordou num corredor de hospital, com o braço imobilizado e um médico que olhava para a prancheta como quem  procura ali a coragem que lhe faltava. A filha de sete anos, que dormia no banco de trás, abraçada a um coelho de pano, não tinha resistido. O coelho sobreviveu. Naquela madrugada, sozinha diante de uma parede branca que parecia não terminar nunca, voltou-lhe aos lábios a oração que a mãe lhe ensinara e que ela repetira com a menina todas as noites à beira da  cama: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador…”. A oração veio com a naturalidade das coisas aprendidas na infância. E, colada a ela, a pergunta que lhe atravessou a alma como  uma lâmina: onde estava o anjo da guarda da minha filha? Onde estava o meu? 

Workshop of Domenichino, Public domain, via Wikimedia Commons

Há duas respostas fáceis para essa pergunta, ambas cruéis. A primeira é a do cético, que sorri com uma falsa pena e explica que anjos são histórias para “fazer as crianças dormirem”. Tem a vantagem de ser simples e a desvantagem de deixar aquela mãe sozinha no corredor para sempre. A segunda é a do sentimental, que imagina o anjo como uma espécie de airbag celeste, um dispositivo de segurança instalado por Deus para amortecer os choques da vida. Essa é mais doce e, ainda assim, a mais perigosa, pois, no dia em que o airbag não abrir, a fé explodirá junto com o carro.

O que a Igreja responde: o anjo estava ali

A resposta da Igreja é muito mais simples e sincera: o anjo estava ali. Sim, simplesmente isso: o anjo estava ali! 

Estava ao lado da menina até o último instante, e estava ao lado daquela mãe no corredor do hospital, fazendo exatamente aquilo para que Deus o enviou. A Sagrada Escritura chama os anjos de espíritos servidores, enviados a serviço daqueles que devem herdar a salvação (Hb 1,14). Aí está a medida de toda a sua obra. O anjo da guarda é ministro da Providência divina em vista da vida eterna e cuida do bem temporal do homem na medida em que estes servem a esse fim. O mundo costuma julgar o anjo pelo que acontece ao corpo, mas este é um juízo equivocado, visto que seu real juízo se estabelece pelo que acontece à alma.  Quando Deus permite uma tragédia no tempo, o anjo concentra seu cuidado no campo onde a  salvação se decide: a inteligência ferida e o coração dilacerado de quem sofre, onde as virtudes teologais da fé, da esperança da caridade precisam permanecer de pé depois que todo o resto caiu. 

É sobre essa obra silenciosa que as páginas seguintes procuram trazer alguma luz. 

1. Guardião do caminho para Deus: Para que Deus enviou o anjo da guarda? O que é a “guarda dos anjos” segundo Santo Tomás de Aquino?

Para saber onde o anjo estava, é preciso saber para que foi enviado. Santo Tomás explica que Deus executa sua providência por meio de causas intermediárias; e como a natureza angélica está entre Deus e o homem, cabe aos anjos executar a providência divina a respeito da salvação humana, ajudando o homem a tender ao seu fim e livrando-o daquilo que impede o seu avanço. A essa execução, conclui ele, chama-se “guarda dos anjos”1. Deus não precisa deles, assim como um pai não precisa que o filho pequeno o ajude a  carregar as compras. E, no entanto, entrega-lhe a sacola mais leve, porque o amor gosta de  associar. Santo Tomás ensina que Deus age assim por sabedoria, para conceder aos anjos a dignidade de conduzir as criaturas de volta ao Criador2. 

Todo ser humano tem um anjo da guarda?

Na Suma, São Tomás explica por que o homem precisa dessa condução. Somos semelhantes a viajantes com mapas surrados: nosso conhecimento vacila e nossos afetos oscilam ao sabor das circunstâncias, e cada encruzilhada da vida moral nos encontra um pouco mais cansados. Convém, por isso, que sejamos guiados por espíritos já firmados para sempre no bem, que regulem e movam nossa marcha em direção a esse mesmo bem3. A ajuda é oferecida a todos, desde o nascimento, e Deus não a economiza nem com os que a recusarão. Santo Tomás chega a afirmar que nem mesmo aquele que se perderá fica privado dela: assim como não lhe falta a luz interior da razão, também não lhe falta esse socorro exterior que Deus concedeu a toda natureza humana4. O anjo é uma oferta de salvação que caminha ao lado do homem a vida inteira, batendo à porta sem arrombá-la. O Catecismo subscreve a mesma doutrina, recordando as palavras de São Basílio: ao lado de cada fiel está um anjo, como protetor e pastor, para conduzi-lo à vida5. 

O anjo da guarda protege o corpo ou a alma?

O cuidado do corpo entra nessa missão, mas em seu devido lugar. A criança pequena, ainda incapaz de merecer ou de pecar, tem um anjo que a protege dos males corporais na medida em que estes poderiam prejudicar a sua alma6. Quando o anjo da guarda segura a mão da criança à beira da escada, está pensando em algo muito maior do que os degraus. Mesmo quando ampara o corpo, nosso amigo celeste tem os olhos postos na eternidade. 

2. A providência que permite: Por que Deus permite a tragédia se existe o anjo da guarda?

Se o anjo executa a ordem da Divina Providência, ele quer o que Deus quer e  permite o que Deus permite. A pergunta pela ausência do anjo nos leva, então, ao mistério da própria providência, que alcança cada criatura naquilo que ela tem de mais singular7 e,  ainda assim, deixa acontecer o acidente e os infortúnios da vida. Vista daqui de baixo, a história se parece com um bordado olhado pelo avesso (para usar o exemplo de São Padre Pio): fios cortados e cores que não combinam. O mesmo artigo de Santo Tomás oferece a chave para imaginar o lado direito do bordado: quem tem o cuidado de um todo permite certas falhas nas partes, para não impedir o bem do conjunto8. Garrigou-Lagrange acrescenta que Deus só quer a dor e o mal físico de modo acidental em vista de um bem mais alto9. Qual seja esse bem, São Paulo o diz no trecho de sua carta mais citado nos tratados da Providência: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

O anjo da guarda e a tribulação permitida por Deus

É sob essa luz que se deve ler o texto de Santo Tomás que responde mais diretamente a nossa pergunta. O anjo da guarda, diz ele, jamais abandona inteiramente o homem. Em algo, porém, o deixa: não impede que seja submetido a alguma tribulação, nem mesmo que caia em  pecado, segundo a ordem dos juízos divinos10. A tribulação permitida acontece dentro da própria guarda. O anjo que não desviou o golpe continua ao lado de quem o recebeu, com a mesma solicitude de antes, e talvez com mais trabalho do que antes. 

Jó e os caminhos da providência

O livro de Jó é o grande comentário bíblico a essa doutrina. O leitor sabe, desde o prólogo, que Deus permitiu a Satanás provar o justo; Jó ignora essa razão até o fim, e é justamente por ignorá-la que sua fidelidade vale tanto. Garrigou-Lagrange vê, neste relato, as vias ocultas da providência, reveladas ao leitor no início do livro e profundamente misteriosas para o aflito. Seguindo o comentário de Santo Tomás, observa que o erro dos amigos de Jó foi esquecer a vida futura e exigir que toda justiça se cumprisse nesta vida11. Quando o próprio Senhor fala, responde às perguntas de Jó com perguntas ainda maiores, e Jó se cala em paz. Chesterton escreveu, a propósito desse livro, que os enigmas de Deus satisfazem mais do que as soluções dos homens12. A lição final é que Deus prova os seus como o ouro na fornalha. Se uma aflição concreta é prova ou castigo, e em que medida é uma coisa e outra,  somente Ele o sabe. 

A providência na história de Pedro e Tiago

O capítulo 12 dos Atos dos Apóstolos coloca lado a lado duas cenas que parecem se contradizer. Herodes manda matar Tiago à espada; poucos versículos depois, um anjo desperta Pedro na prisão, faz caírem as correntes e o conduz pelas ruas adormecidas de Jerusalém. A mesma Igreja rezava pelos dois, o mesmo Senhor governava os dois destinos. São Pedro foi liberto para continuar a missão; São Tiago, no entanto, foi libertado de outro modo, mais definitivo, e entrou primeiro na glória. Para os olhos da terra, um foi salvo e o outro perdido. Para os olhos do céu, os dois chegaram exatamente aonde deviam, e nenhum deles ficou um só instante fora do cuidado de Deus e de seus anjos. 

A promessa do salmo 90

O Salmo 90 promete que Deus dará ordens a seus anjos para guardarem o justo em todos os seus caminhos. Há uma ironia terrível no fato de que o primeiro a transformar esse versículo em garantia de “proteção espetacular e irrestrita” foi o demônio, no deserto  (Mt 4,6). Nosso Senhor recusou a leitura diabólica. As promessas do Salmo, cheias de  realismo espiritual, fazem entrever a vida futura, e o próprio Salmo termina apontando para ela: “Estarei com ele na tribulação, eu o livrarei e o glorificarei, e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 90,15-16). A promessa inclui a tribulação, e o que Deus jura é atravessá-la junto com o justo. 

3. Como o anjo toca a alma

Para compreender o que o anjo faz no meio da dor, é preciso saber de que modo um espírito puro pode tocar uma criatura feita de barro. Santo Tomás dedica a isso uma questão inteira da Suma, com a paciência de um relojoeiro que desmonta o mecanismo peça por peça, e suas distinções iluminam o nosso tema com uma precisão indispensável. 

Como o anjo ilumina a inteligência

O primeiro campo da ação angélica é a inteligência. O anjo a ilumina de dois modos: 1) fortalecendo a sua luz: como um corpo mais quente, aquece o que dele se aproxima, e 2) propondo-lhe a verdade sob imagens sensíveis, adaptadas a uma inteligência que conhece a partir dos sentidos13. É um mestre que se abaixa até a altura do aluno. Nas questões sobre a verdade, o Doutor Angélico precisa o alcance dessa ação: o anjo não pode infundir a luz  intelectual, como Deus faz, e pode, contudo, fortalecer a luz infundida, para que o homem veja com mais perfeição14. E observa, quase de passagem, que o homem nem sempre percebe quando está sendo iluminado por um anjo!15. É uma das frases mais humildes e mais belas da angelologia. Passamos a vida inteira recebendo bons pensamentos e assinando-os como  nossos. 

Como o anjo age sobre a imaginação e a memória

Como a inteligência humana se apoia na imaginação, o anjo pode agir também sobre ela, movendo as disposições corporais que a sustentam e fazendo surgir diante da mente uma imagem ou outra16. Trabalha com o material que a própria vida depositou no homem: uma lembrança, uma palavra ouvida na catequese, o rosto de alguém que se ama, um conselho do diretor espiritual e assim por diante.  

O anjo pode mover a vontade? O santuário que só Deus alcança

A vontade, porém, guarda um santuário onde só Deus entra. Somente Ele pode movê-la a partir de dentro, porque só Ele a criou e a inclina ao bem. O anjo fica à porta desse santuário: ele move a vontade de modo indireto, 1) apresentando à inteligência um bem sob o aspecto que o torna desejável, ou 2) despertando as paixões sensíveis; e mesmo assim a vontade permanece sempre livre para consentir ou resistir17. Bonino oferece um exemplo simples: assim como um demônio pode acender a concupiscência, um anjo bom pode suscitar um movimento de coragem18. 

Por que quase nunca percebemos a ação do anjo da guarda no sofrimento

Daqui brotam duas consequências para quem sofre. A primeira é que a ação do anjo na tribulação é quase sempre discreta, e por isso quase sempre esquecida. Garrigou-Lagrange ensina que a intervenção do anjo da guarda que, por ordem de Deus, sugere um bom  pensamento, no sono ou na vigília, pertence ao curso ordinário da providência e é frequente na vida dos que se abandonam a Deus19. A segunda é que essa ação alcança precisamente as faculdades que a tragédia fere. O choque de uma perda enche a imaginação de cenas que voltam sem cessar, turva o juízo e revolve as paixões como um vendaval. É nesse campo devastado que o anjo trabalha: acalmando, sugerindo, trazendo à memória uma palavra do Evangelho, protegendo como quem protege com as mãos em concha a pequena chama que  ainda resta acesa. 

4. O anjo e as virtudes teologais na provação: Como o anjo da guarda sustenta a fé, a esperança e a caridade na provação

A fé, a esperança e a caridade são obra exclusiva de Deus na alma. O assentimento da fé procede de Deus, que move interiormente pela graça20, e a caridade é derramada nos corações “pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Bonino resume o princípio do seguinte modo: o dom da graça está estritamente reservado a Deus, o único que pode agir no interior da vontade; e, ainda assim, convém que a instrução espiritual do homem passe pela iluminação dos anjos21. O anjo é, portanto, o jardineiro de uma planta que ele mesmo não  semeou. Prepara o terreno, afasta as pragas, rega nas horas de seca e se alegra com cada flor que Deus faz brotar. Na tragédia, cada uma das três virtudes é atacada de um modo próprio, e o anjo acorre a cada uma segundo a sua natureza. 

A fé: a luz que não se apaga

Contra a fé, a tragédia levanta a objeção mais antiga do mundo: se Deus fosse bom e poderoso, isso não teria acontecido. É curioso que a dor, que deveria ser o argumento mais forte contra Deus, tenha levado tantos homens a encontrá-lo: os santos são aqueles que  sofreram e continuaram crendo; ou, melhor: que creram ainda mais por isso! O primeiro  socorro do anjo chega à inteligência. Ele repropõe à alma as verdades que ela já conhece e que a dor encobriu como a neblina encobre uma paisagem que continua lá: Deus é Pai, nada  escapa à Sua providência, a morte não tem a última palavra etc. E, segundo o princípio enunciado nas questões sobre a verdade, fortalece a luz que a alma já recebeu, para que continue a ver quando tudo escurece. Na véspera da Paixão, Cristo rezou para que a fé de Pedro não desfalecesse, na hora em que Satanás pedira para peneirá-lo como trigo (Lc 22,31- 32). Garrigou-Lagrange aproxima essa cena do prólogo de Jó e comenta que são melhores os  que assim são peneirados22. Junto de cada fiel provado, o anjo é o primeiro servidor dessa oração de Cristo. 

A esperança: o horizonte da eternidade

O perigo mais agudo da tragédia é o desespero, que encolhe o universo inteiro até o tamanho de um quarto de hospital. A esperança tem por objeto a bem-aventurança eterna e o auxílio divino para alcançá-la23. Poderíamos dizer que ela é a “virtude das janelas”. Como o anjo pode mover a vontade apresentando-lhe um bem sob o aspecto que o torna amável, ele é capaz de reabrir essas janelas e de recordar à alma que as almas dos justos estão nas mãos de Deus (Sb 3,1). Pode ainda suscitar, no plano das paixões, aquele pequeno movimento de coragem que permite dar o passo seguinte. Os amigos de Jó erraram por esquecer a vida futura; o anjo trabalha no sentido oposto e mantém a eternidade diante dos olhos de quem sofre, como quem segura uma lanterna na direção da saída. 

Na escuridão da noite, vemos muito mais longe do que à luz do dia, porque é preciso que o sol se esconda para que as estrelas apareçam. Enquanto o dia nos mostra o bairro, a noite nos mostra o universo. Do mesmo modo, quando a providência apaga numa vida o brilho das coisas da terra, as realidades espirituais começam a mostrar-se em toda a sua grandeza24. Na noite da provação, o anjo ajuda a alma a erguer os olhos para as estrelas. 

A caridade: permanecer unido a Deus

A caridade é atacada pela revolta, como no caso da mulher de Jó que lhe ordenou: “amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2,9). Quando a tragédia nasce de um crime, soma-se a ela a tentação do ódio contra o culpado. Aqui aparece outra função do anjo: combater os  demônios, que exploram justamente as horas de fraqueza, como ladrões que preferem as  casas com a porta arrombada25. O ato de caridade brota da vontade movida pela graça, e o anjo o serve afastando as sugestões do inimigo e apresentando à alma os motivos do amor:  o Crucificado, a vontade de Deus que tudo ordena ao bem, a misericórdia que ela mesma já recebeu tantas vezes etc. 

O anjo sustenta a caridade também pela oração. O arcanjo Rafael revela a Tobit e a Tobias que apresentava ao Senhor a memória das suas orações (Tb 12,12), e o Apocalipse mostra a fumaça do incenso subindo com as orações dos santos da mão do anjo diante de  Deus (Ap 8,4). Santo Tomás explica que nossas orações chegam a Deus pelo ministério dos anjos que intercedem por nós26. Há algo de profundamente comovente nisso. Quando o fiel ferido já não consegue rezar, quando as palavras se desfazem na garganta e só resta o  choro, há alguém que recolhe essas lágrimas e as leva ao trono de Deus como se fosse um salmo. O ato perfeito da caridade na provação é a palavra de Jó: “o Senhor deu, o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). Garrigou-Lagrange diz que Deus, quando permite a perseguição exterior, não permite que o justo perca o ânimo: sustenta-o invisivelmente27. Na ordem da execução, esse sustento invisível passa muitas vezes pelas mãos do anjo. 

5. O anjo do Getsêmani: como o anjo consola quem sofre

Toda essa doutrina encontra a sua imagem perfeita num jardim das oliveiras. O Filho de Deus, que sustenta o universo com a sua palavra, está prostrado na terra, com o suor caindo-lhe como gotas de sangue. Pede ao Pai que afaste o cálice, se for possível, e entrega-se à Sua vontade. São Lucas acrescenta um detalhe que só ele registra: apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava; e, entrando em agonia, orava com mais insistência (Lc 22,43-44). 

Por que o anjo não afastou o cálice de Jesus

O cálice permaneceu. O anjo veio para fortalecer Aquele que ia bebê-lo. Há poucos paradoxos tão vertiginosos em toda a Escritura: o Criador dos anjos consolado por um  anjo, o Senhor dos exércitos celestes amparado por um dos seus soldados. E o fruto  dessa consolação é surpreendente. Depois dela, Jesus reza com mais intensidade, levanta-se e caminha ao encontro de quem o entrega. Eis a forma da ajuda angélica na hora da dor: ela sustenta a fidelidade e acompanha o homem através da cruz, até o outro lado. 

Poucas horas depois, quando São Pedro desembainha a espada, o Senhor lhe diz que poderia pedir ao Pai, e Ele lhe enviaria mais de doze legiões de anjos; mas então como se cumpririam as Escrituras? (Mt 26,53-54). Doze legiões esperavam uma palavra: ela apenas não foi dita. O poder de impedir estava ali, inteiro, e foi inteiramente subordinado à obra da salvação. Santo Tomás ensina que Cristo não teve anjo da guarda, porque já gozava da visão de Deus e era superior aos anjos28. Os anjos que o serviram no deserto e no Getsêmani exerceram um ministério junto à sua humanidade sofredora. Por analogia, o fiel que sofre  unido a Cristo pode contar, da parte do seu anjo, com um ministério semelhante. 

Como reconhecer a consolação do anjo em meio à dor

A cena ensina também uma pedagogia para quem acompanha os que sofrem. A consolação do anjo raramente tem a forma que o aflito imagina pedir. Chega como força para continuar rezando, como capacidade de dizer a vontade de Deus em lugar da própria, como uma paz que se instala na parte mais alta da alma enquanto a sensibilidade ainda sangra. É possível chorar e estar em paz ao mesmo tempo; os santos o fizeram, e o próprio Nosso Senhor o fez naquela noite. Garrigou-Lagrange descreve exatamente essa paz: em meio aos acontecimentos penosos, a alma permanece serena ao menos em sua parte superior, porque está intimamente persuadida de que Deus a conduz29. 

6. O anjo sofre conosco? O que ensina Santo Tomás

Resta uma pergunta que brota do afeto, e talvez seja a mais humana de todas: o anjo  chora conosco? Santo Tomás responde que os anjos não se entristecem com os males daqueles que guardam. Nada acontece no mundo contra a vontade dos anjos e dos bem-aventurados, porque a vontade deles adere inteiramente à ordem da justiça divina, e nada  acontece no mundo senão aquilo que essa justiça faz ou permite30. 

Vontade antecedente e consequente: a paz do anjo diante da dor

À primeira leitura, a resposta pode soar fria. Mas basta olhá-la um pouco mais de perto para encontrar seu calor. Bonino ilumina a questão com a distinção tomista entre vontade antecedente e vontade consequente31, que Santo Tomás formula ao tratar da vontade  divina32. Considerado em si mesmo, o bem do protegido é querido pelo anjo com todo o ardor da caridade. Na vontade consequente, que é a vontade real e última, ele quer o que Deus quer ou permite, porque contempla o desígnio que o homem ainda não pode ver. Sua paz é a de quem já leu o último capítulo do livro e sabe como a história termina. 

E essa paz é um presente para quem sofre. Quem atravessa uma tragédia precisa de muitas coisas, e uma das mais raras é alguém a seu lado que não se aflija junto. O salva-vidas que entra em pânico com o náufrago afunda com ele, enquanto que aquele que mantém a calma é o único que pode trazê-lo com segurança à praia. Garrigou-Lagrange afirma que as almas provadas verão um dia que os anjos encontravam motivo de alegria naquilo que,  por vezes, as deixou profundamente desoladas33. O anjo já contempla o bem que Deus  está tirando do mal, e sua serenidade é uma espécie de promessa silenciosa: um dia você também verá. 

O anjo da guarda na hora da morte: o que acontece depois

Quando a tragédia inclui a morte, a fé da Igreja estende o cuidado angélico até o limiar da eternidade. O pobre Lázaro, que viveu à porta do rico sem que ninguém o notasse, teve na morte um cortejo que nenhum rei conheceu: foi levado pelos anjos ao seio de Abraão (Lc  16,22). A liturgia das exéquias pede que os anjos conduzam ao paraíso aquele que partiu. Santo Tomás ensina que, depois da morte, cessa o ofício propriamente de guarda, porque o homem já não é peregrino; ainda assim, o anjo permanece unido a ele de outro modo, como companheiro na glória34. A morte, que aos olhos da terra parece o fracasso do guardião, é o momento em que ele entrega a sua obra concluída. Uma morte violenta ou repentina chega, assim, ao seu termo acompanhada pelo mesmo ministério que acompanhou a vida inteira. 

O anjo da guarda no corredor do hospital: onde ele estava, afinal

Voltemos àquela mãe sentada diante da parede branca. Se alguém pudesse abrir-lhe os olhos para o invisível, como Eliseu abriu os olhos do seu servo diante do exército que cercava a cidade, ela veria que nunca esteve sozinha. O anjo da guarda da filha acompanhou a menina até o  último instante e a conduziu a um lugar onde nenhum caminhão poderá jamais feri-la outra vez. O seu próprio anjo da guarda estava ali, junto dela, travando a batalha decisiva no único campo onde ela ainda podia ser vencida ou perdida: na sua inteligência, para que a fé não se  apagasse; no seu coração, para que a esperança não morresse e a dor não converte a caridade em revolta. A oração que ela rezou quase sem voz, “Santo Anjo do Senhor…”, subiu a Deus pelas mãos dele, mais bela do que qualquer oração que ela tenha rezado em seus dias felizes. 

É isso que a teologia católica pode dizer a quem pergunta onde estava o seu anjo da guarda: Ele estava exatamente onde Deus o colocou, cumprindo a missão que Deus lhe deu: conduzir você à vida eterna. Às vezes, afasta o perigo, e nós o chamamos de sorte. Outras vezes, segundo a ordem dos juízos divinos, deixa que a tribulação chegue e permanece ao seu lado, dentro dela, e nós o chamamos de ausente. Em nenhum dos casos, contudo, abandona o seu  protegido. O anjo da guarda é o amigo mais fiel e o mais esquecido que um homem pode  ter, e só na eternidade saberemos quantas vezes nos salvou sem que percebêssemos.

Como rezar ao anjo da guarda na hora da provação: seis petições

Por isso, convém ensinar o fiel a pedir ao anjo da guarda, na hora da provação, aquilo que corresponde à sua missão e ao modo como ele age na alma: que 1) fortaleça a luz da sua inteligência, para que a fé continue a ver quando tudo escurece; que 2) proponha, na sua imaginação ferida, imagens santas no lugar das cenas que o atormentam, uma  palavra do Evangelho, o rosto do Crucificado, a lembrança dos que já estão nas mãos de  Deus; que 3) apresente à sua vontade o bem eterno sob o aspecto que o torna amável, para  que a esperança volte a abrir as janelas da alma; que 4) desperte em suas paixões aquele movimento de coragem que permite dar o passo seguinte; que 5) afaste as sugestões do inimigo, para que a dor não apodreça em revolta nem em ódio; e que 6) leve ao trono de Deus a oração que ele já não consegue formular. Pedir isso é pedir ao anjo da guarda exatamente aquilo para que Deus o enviou, e poucas orações coincidem tão perfeitamente com a vontade divina. Na noite da tragédia, rezar assim é estender a mão no escuro com a confiança de uma  criança, certa de que há alguém ali para segurá-la. 

Ou, se for difícil demais lembrar-se dessas seis petições, basta-nos repetir, como sempre, aquelas doces palavras da infância: “Santo Anjo do Senhor…”!

 

  1. TOMÁS DE AQUINO. Scriptum super Sententiis. Lib. II, d. 11, q. 1, a. 1.
  2. Ibid., ad 1.
  3. TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologiae. I, q. 113, a. 1. Doravante citada como S. Th.
  4. Ibid., I, q. 113, a. 4, ad 3.
  5. IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. n. 336.
  6. TOMÁS DE AQUINO. Scriptum super Sententiis. Lib. II, d. 11, q. 1, a. 3, ad 3.
  7. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 22, a. 2.
  8. Ibid., ad 2.
  9. GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Providence et la confiance en Dieu. Paris: Desclée de Brouwer, 1932. III parte, cap. 1.
  10. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 6.
  11. GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., III parte, cap. 3.
  12. CHESTERTON, G. K. Introduction to the Book of Job. 1907.
  13. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 111, a. 1.
  14. TOMÁS DE AQUINO. Quaestiones disputatae de veritate. q. 11, a. 3.
  15. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 111, a. 1, ad 3.
  16. Ibid., a. 3.
  17. Ibid., a. 2.
  18. BONINO, Serge-Thomas. Angels and Demons: a Catholic introduction. Washington, DC: The Catholic University of America Press, 2016. p. 80.
  19. GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
  20. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 6, a. 1.
  21. BONINO, op. cit., p. 268.
  22. GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., III parte, cap. 3.
  23. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. II-II, q. 17, a. 2.
  24. GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
  25. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 114, a. 1.
  26. TOMÁS DE AQUINO. Super Epistolam ad Philippenses. c. 4, lect. 1.
  27. GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
  28. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 4, ad 1.
  29. GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
  30. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 7.
  31. BONINO, op. cit., p. 272-273.
  32. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 19, a. 6, ad 1.
  33. GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., IV parte, cap. 5.
  34. TOMÁS DE AQUINO. S. Th. I, q. 113, a. 5, ad 2.