CURA DOS TRAUMAS DA MORTE

Felizes os que morrem no Senhor: a morte à luz da fé

“Ouvi, então, uma voz vinda do céu, que dizia: ‘Escreve: Ditosos os mortos, os que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, que eles descansem de suas fadigas, pois suas obras os acompanham.’” (Apocalipse 14,13)

Diante de um tema tão delicado, o autor sagrado faz questão de afirmar que ouviu uma voz que veio do Céu. A respeito da morte, só mesmo uma palavra testificada pelo Céu.

A Palavra de Deus e a vitória de Cristo sobre a morte

Uma declaração vinda diretamente do Céu

Existem pouquíssimos textos bíblicos com essa afirmação. Acreditamos que a Bíblia é um livro inspirado por Deus, mas escrito com palavras humanas. Apenas em algumas situações muito especiais a Bíblia afirma que está reproduzindo uma voz de cura dos traumas da morte ou uma ordem procedente direto do Céu. O texto em questão ganha autoridade maior ainda porque, além de ser uma voz do Céu, está dito explicitamente que o Espírito é quem está declarando.

Do castigo ao remédio salvífico

Outra coisa que chama nossa atenção é que o texto começa com uma declaração de felicidade – realidade que, aparentemente, não tem nada a ver com a tristeza da morte. Aliás, se a morte não fazia parte dos planos originais de Deus, por que ela entrou nesse plano? Como é possível ser feliz com ela e apesar dela?

Jesus não veio excluir a morte nem encobri-la. Jesus veio matá-la. Ele veio vencer a morte. Morrendo, Jesus matou a morte. Aquilo que era um castigo, agora, por causa do Senhor, torna-se um salutar remédio. Jesus transformou o castigo da morte em remédio salvífico.

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Existem muitos castigos que podem se transformar em remédio. Quando alguém é justamente punido e aprende com o castigo recebido, o castigo vira remédio. Essa deveria ser a finalidade de toda medida de correção. Na hora, a correção nunca é boa, mas necessária. Aliás, esse é o critério para se aplicar uma correção: a necessidade de corrigir ou reparar o mal, para que suas consequências não sejam piores.

Ressurreição x reencarnação: a verdadeira esperança cristã

O amor de Deus e a dádiva da vida única

Em relação à morte, Jesus tem uma postura absolutamente coerente. Ele não foge da morte nem inventa uma solução enganosa para tão delicado tema. Infelizmente, muitos são aqueles que acabam criando uma falsa esperança ao recorrer às doutrinas de reencarnação ou coisas similares. A reencarnação pode até ser uma resposta bonita e romântica, aparentemente justa, mas é uma resposta mentirosa e totalmente contrária à fé cristã.

Jesus nos ensina que Deus nos ama e nos perdoa. Deus está do nosso lado e quer salvar-nos. Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Timóteo 2,4). Na teoria da reencarnação, não existe essa visão linda do Deus que ama, perdoa, quer e pode salvar. Como o ser humano não pode ser perdoado, deve pagar por tudo o que fez de errado numa outra vida. Além disso, multiplica-se a própria morte.

A crença na ressurreição nos garante que temos uma única vida humana (Hebreus 9,27) e que morremos uma única vez. Na reencarnação, são muitas mortes, tantas quantas forem as reencarnações pelas quais a pessoa tiver de passar.

O exemplo de Jesus: diálogo aberto e afetuoso sobre a morte

Jesus não inventou uma falsa explicação para a morte nem fugia de assuntos que a ela se referiam. Jesus conversava com seus amigos sobre o tema. Além de falar algumas vezes para os discípulos sobre o que lhe aconteceria em Jerusalém, existe um episódio que me emociona, ocorrido durante o velório de Lázaro, um de seus amigos mais íntimos e queridos.

Diante da dor de Maria e de Marta pela perda do irmão leproso, Jesus recordou algo que tinham discutido antes. Creio que Jesus tenha conversado com os irmãos de Betânia a respeito da morte iminente de Lázaro, já que sua doença era grave e incurável do ponto de vista humano. Não dispomos de referenciais bíblicos sobre a ocasião dessa conversa, mas, se não houvessem conversado, quando Lázaro morreu, Jesus não teria dito para Marta: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (João 11,40).

Se o assunto não tivesse sido tratado anteriormente, Marta simplesmente lhe diria: “Não me lembro quando foi que o Senhor falou sobre isso!” O silêncio de Marta, diante da pergunta de Jesus, comprova que o assunto tinha sido longamente conversado.

Como enfrentar e tratar a morte no mundo atual

A preparação para o momento final e o conforto dos sacramentos

Jesus não tem medo de falar da morte. Esse não pode ser um assunto a ser evitado. Se a pessoa corre o risco de morte, temos a obrigação moral de falar-lhe a respeito, até para ajudar no processo de preparação para morrer. Bom seria se todos nos preparássemos para esse dia.

É um grande conforto para uma família enlutada saber que seu falecido foi atendido por um sacerdote, que lhe ofereceu a unção dos enfermos e a absolvição de todos os pecados. Essa é uma graça para todos e ajuda muito no processo de superação da perda, sempre dolorosa, de um ente querido.

A frieza do mundo moderno perante a finitude

O mundo moderno não gosta de falar sobre a morte. Cria-se a ilusão de que não tocar no assunto ameniza o problema. Em função disso, criou-se uma indústria a serviço da morte. Os agentes funerários cuidam de tudo. O doente vai para um centro de terapia intensiva, onde morre longe dos familiares e amigos.

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Morre-se sem o calor humano de um familiar querido segurando suas mãos. Alguns escondem o fato das crianças, por medo de traumatizá-las. O velório é feito num lugar apropriado, afastado da casa, com todas as providências para que seja o menos traumático possível. É a falsa ideia de que, estando longe do falecido, a dor pode ser amenizada. Infelizmente, isso envolve a morte em cuidados impessoais; além de não resolver o problema, acaba gerando medos, falsas doutrinas, pesos de consciência e muitos traumas.

Aprender a viver e a estar presente na hora da partida

Que pena! O ser humano moderno precisa aprender a viver e também precisa aprender a morrer. É preciso saborear a morte, não como uma coisa macabra, mas como uma realidade da qual não se pode fugir e cujos sentidos mais profundos precisamos descobrir.

Se você puder estar ao lado de uma pessoa querida na hora em que ela estiver morrendo, você descobrirá coisas maravilhosas. Não tenha medo de segurar-lhe a mão, de afagar sua cabeça, de falar palavras doces e puras ao seu ouvido. Além de ajudar a pessoa a morrer melhor, você encontrará maior qualidade de vida, para si mesmo e para os outros.

O consolo bíblico e a semeadura da Vida Eterna

O consolo das Escrituras na hora do luto

Nenhuma outra realidade humana mereceu tanta atenção da Bíblia como o tema da morte. Quem passou pela dolorosa experiência da perda de alguém querido sabe o quanto é importante e confortador um texto bíblico na hora em que mais precisamos de uma palavra verdadeiramente amiga. Na Bíblia, só não encontra consolo quem não quer buscá-lo.

Jesus não fugiu da morte nem tentou minimizá-la. Ao conversar com Marta sobre esse tema tão delicado, Ele está nos convidando a uma reflexão séria e serena sobre o assunto. De morte devemos falar na intimidade. Não é assunto para ser banalizado com teses e teorias.

Nossas obras nos seguirão: a semeadura e a colheita

Outra coisa importante para o qual o versículo citado no início deste capítulo chama a atenção: nossa vida não se encerra neste mundo. Os que morrem no Senhor são felizes porque suas obras vão segui-los. Atrás de mim vem tudo aquilo que eu fiz.

Existe uma íntima relação entre a vida que se vive e o jeito como se morre. A Bíblia afirma que o que fazemos em nossa vida, o que fazemos com a nossa vida, o que fazemos de nossa vida está intimamente ligado à nossa morte.

Sabemos que vamos morrer, e deveríamos pensar sempre que a vida é uma grande semeadura. Com nossa vida terrena estamos semeando o que iremos colher na vida eterna. Nossas obras nos seguirão. Por isso não podemos pensar na morte como algo inesperado ou como se fosse a maior novidade do mundo.

Toda pessoa viva sabe que vai morrer, e ainda bem que não sabe o dia nem a hora. Além disso, todos deveriam ter consciência de seu destino final. O que a eternidade nos reserva não é novidade para ninguém. A pessoa que vive o bem sabe que o colherá. A salvação eterna depende muito mais do que sou e do que faço enquanto vivo, e não de um prêmio ou castigo de Deus depois de morto.

As três possibilidades pós-morte: Céu, Purgatório e Inferno

A eternidade e as escolhas humanas

Existem somente três possibilidades para a pessoa, depois da morte:

  1. A eternidade do Céu;
  2. A eternidade do Inferno;
  3. A transitoriedade do Purgatório.

Se a pessoa semeou o Inferno, irá colhê-lo imediatamente após a morte. Além de imediata, essa condenação é eterna, irreversível, irrevogável e definitiva. Nem Deus pode tirar do Inferno uma pessoa que por ele tenha optado.

O Purgatório como o “banho da alma”

O Purgatório é transitório. A pessoa morreu com alguns pecados, mas não estava num estado de ruptura radical com Deus. Ela escolheu o Céu, mas não está limpa o suficiente para mergulhar em Deus. Logo, a pessoa precisa se purificar. No Céu só entra quem estiver completamente purificado.

Não é difícil entender a doutrina do Purgatório. Vou dar um exemplo bem simples:

O rapaz está completamente sujo, trabalhando com barro e esterco. Alguém avisa que em meia hora sua namorada vai chegar. O que ele imediatamente irá fazer? Claro que será tomar banho e colocar roupa limpa e cheirosa. Purgatório é o banho da alma, para chegar limpa e perfumada ao coração de Deus.

A livre escolha e o destino final

Alguns negam a eternidade do Inferno dizendo que Deus é Pai bondoso e que por isso mesmo não mandaria ninguém para lá. É verdade! Deus não manda ninguém para o Inferno. É a pessoa que livremente escolhe essa ruptura definitiva.

“A árvore, onde cai, fica” (Eclesiastes 11,3). Que passagem linda para entendermos a morte:

      • A pessoa que em vida procura o Céu cai, na morte, no Céu.
      • A pessoa que em vida procura o Céu, mas se suja no pecado, cai entre o pecado e o Céu — no Purgatório.
      • Agora, quem faz uma opção de Inferno, quem cria Inferno para as pessoas que estão ao seu redor, vai direto para o Inferno.

O encontro transformador com a vida em Cristo

Jesus não escondia a morte. Jesus dialogava sobre a morte. Ainda mais: transformava em vida a situação de morte. Mas esse é um processo que, sem o mergulho na graça de Deus, enquanto não saímos das mentiras que o pecado criou para nós, é absolutamente impossível. Mentiras que, de modo especial, as doutrinas reencarnacionistas vêm colocando na cabeça das pessoas, inventando falsas saídas para a morte.

Teremos um encontro com a morte: a dos outros e a nossa. E esse encontro ou nos torna melhores, ou nos torna piores.

(Fonte: Livro Cura dos traumas da morte, p. 21 a 28)

Pe. Léo, SCJ (⭐09/10/1961 ✝️ 04/01/2007)
Fundador da Comunidade Bethânia (Servo de Deus)

Adaptação Amanda Martins