CURA DOS TRAUMAS DA MORTE

Saborear o luto

A dor de perder alguém amado

Não existe nenhuma pessoa neste planeta que não tenha passado pela experiência da perda de um ente querido. Essa é uma experiência profundamente humana e dolorosa. Por mais que se goste da pessoa amada, nunca mais, neste mundo, você poderá conversar, brincar, brigar com ela, partilhar de sua presença, tocar nela nem olhar no fundo de seus olhos. Por isso a dor é tão grande. Parece que nos roubaram o chão.

A necessidade de vivenciar a dor diante de Deus

Diante da morte, as reações são absolutamente únicas. Alguns tentam ignorar a tristeza. Outros acabam se fechando em si mesmos. Existem ainda aqueles que reprimem a dor. Nada disso adianta! A dor é real e precisa ser corretamente vivida. É necessário aprender a chorar diante de Deus. Quem chora em Deus não se afoga em suas lágrimas!

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A importância do tempo de luto

Acolhendo as emoções e desabafando com o Criador

O luto é o tempo de que precisamos para retomar nossa vida.

É um tempo difícil, mas muito importante. Muitas vezes, a pessoa sente um misto de emoções: revolta, tristeza, conformismo, raiva, angústia e indignação. É normal misturar sentimentos. O coração não é uma mesa com várias gavetinhas onde separamos os sentimentos, emoções e outros bichos. Por isso é preciso aprender a desabafar em Deus. Mostre-lhe o coração ferido e machucado.

Não devemos ter medo de mostrar nossas queixas para Deus.

O socorro nos salmos de lamentação

A Bíblia traz lindas orações de pedido de ajuda para os momentos de desespero e dor. Muitos Salmos são verdadeiras poesias de  lamentação:

“Sobe até Deus a minha voz, e peço socorro; chega a Deus a minha voz e Ele me ouve. No dia da angústia busco o Senhor; a noite toda estendo a mão, sem me cansar, e rejeito qualquer consolo. Lembro-me de Deus e solto gemidos, medito e meu espírito se abate. Conservas em vigílias os meus olhos, fico aturdido sem poder falar. Relembro os dias antigos […]” (Salmo 76,2-6).

O peso dos questionamentos sem resposta

O luto saboreado ajuda a superar também as situações que ficaram sem solução. Não é incomum a pessoa ficar se perguntando: Fiz pelo falecido tudo o que estava a meu alcance? Será que poderia ter feito de modo diferente? Por que não fiquei mais tempo a seu lado?

O triste dessas — inevitáveis — perguntas é que a pessoa acaba se autocondenando sempre. Com isso, fica tentando achar uma desculpa ou uma justificativa. Alguns chegam a pensar que foram os culpados pela morte ou pela doença da pessoa. Outros passam o resto da vida tentando encontrar os porquês.

A Misericórdia Divina que cura o coração

Se houve culpa ou negligência, agora é hora de apresentar-se diante de Deus com suas dores e tristezas, mas, acima detudo, com o coração confiante de que Ele é misericordioso e poderoso o suficiente para curar seu coração ferido e machucado. Deus não nos condena, e a pessoa falecida também não.

A graça do Sacramento da Confissão

A morte purifica tudo, inclusive as imperfeições de nossos relacionamentos.

Muitas vezes, uma boa confissão ajuda bastante nessas horas. Diante de um sacerdote, abra seu coração ferido. Não tenha medo de reconhecer sua culpa. Entregue a pessoa falecida para Deus. Fale com o sacerdote sobre as dificuldades de relacionamento que tinha, sobre os pecados partilhados, sobre palavras pesadas e omissões, e também sobre tudo que você acha que ficou devendo ao ente querido.

A libertação e a paz daqueles que estão em Deus

Tenha certeza de que a morte, depois da ressurreição de Jesus, é um grande remédio para todos os males, inclusive para os relacionamentos estragados. Por certo, a pessoa falecida já está livre cura dos traumas da morte das consequências da falta de perdão. Ela está em Deus. Quem está em Deus está na paz. Por isso é importante fazer o que está a nosso alcance para que a pessoa tenha os cuidados médicos e espirituais necessários para uma morte santa.

Quando tenho a certeza de que meu falecido está em Deus, não posso temer nenhuma conta a pagar. Quem está em Deus está livre. Nenhuma ofensa atinge aquele que está no coração de Deus, porque quem morre em Deus chega à sua plenitude. Agora, do coração de Deus, a pessoa nos enxerga com os olhos iluminados pela graça e compreende os motivos pelos quais agimos ou deixamos de agir. Ao encontrar Deus, na plenitude da vida, tudo o que era imperfeito será purificado.

O valor sagrado dos rituais de despedida

O luto saboreado ajuda a superar os transtornos e as tristezas da sempre dolorosa perda de alguém querido. Pena que muitos não pratiquem mais nenhum ritual de luto. Tudo aparenta ser normal. Parece que nada mudou. Mas isso não é verdade. No íntimo, todos sentem a perda.

Até os animais sentem a dor da morte. Precisamos saborear as etapas apropriadas ao luto. Velório, despedida, orações, sepultamento, silêncio, missa de sétimo dia, de um mês, de um ano.

Durante os primeiros dias nos reservamos para acolher melhor a dor da perda. Não adianta querer tomar remédios para amenizá–la: ela não deve ser amenizada; deve ser sentida, saboreada de forma madura e equilibrada.

A oração pelos falecidos e a intercessão

Um modo maduro de se enfrentar a dor da perda é através das orações pelos falecidos. Além de rezar pela pessoa, precisamos ter a coragem de rezar para a pessoa. Ora, se podemos pedir que os santos intercedam por nós a Deus, por que não rezar pedindo a intercessão de nossos amados que agora estão próximos a Ele? Quem está definitivamente em Deus está verdadeiramente a nosso lado.

Que coisa linda! Quando um ente querido morre e vai para Deus, ele nos leva em seu coração. Eu estou em Deus pelo coração daqueles que me amavam e que agora já estão mergulhados na ternura divina. Tem um pedaço nosso no Céu. Quando morrermos, não iremos para um lugar completamente estranho. Além de Jesus ter nos prometido uma morada junto de Deus, um pedaço nosso já está n’Ele. Nós iremos nos reconhecer no Céu. O amor que vivemos nunca vai morrer. Amor não morre. Amor se transforma. Amar é acreditar que o outro não morrerá jamais.

A esperança do reencontro na eternidade

O amor transformado e sem limites no Céu

Logo, iremos nos reencontrar na eternidade com nossos amados, mas de um jeito completamente novo, restaurado, curado e transformado. Que bom que, no Céu, pelo amor transformado, não existem os limites do amor terrenal.

Adeus, ciúmes, brigas, desentendimentos e limites. O amor no Céu é completamente sem limites e sem as limitações daqui.

Essa certeza que Paulo nos revela na Carta aos Filipenses deveria ser um grande estímulo para uma vida plena:

“Nós, ao contrário, somos cidadãos do céu. De lá aguardamos como salvador o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo, humilhado, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, graças ao poder que o torna capaz também de sujeitar a si todas as coisas” (Filipenses 3,20-21).

Um novo sentido para as nossas lágrimas

A correta perspectiva da morte nos ajuda a viver de modo mais autêntico e consciente. Fugir da morte é fugir da vida.

Quando aprendemos a saborear a morte do jeito correto, nossa vida ganha um novo sentido. A certeza da vida eterna dá um
significado pleno às nossas lágrimas.

“As almas dos justos, porém, estão na mão de Deus, e nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos parecem ter morrido; sua saída do mundo foi considerada uma desgraça e sua partida do meio de nós, uma destruição, mas eles estão na paz. Aos olhos humanos parecem ter sido castigados, mas sua esperança é cheia de imortalidade. Tendo sofrido leves correções, serão cumulados de grandes bens, porque Deus os pôs à prova e os achou dignos de si. Provou-os como se prova o ouro na fornalha, e aceitou-os como ofertas de holocausto; no tempo do seu julgamento hão de brilhar, como centelhas que correm no meio do canavial; vão julgar as nações e dominar os povos, e o seu Senhor será rei para sempre. Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor descansarão junto a ele. Pois a graça e a misericórdia são para seus santos e a visita divina é para seus eleitos. Quanto aos ímpios, receberão o castigo segundo seus pensamentos, pois desprezaram o justo e se afastaram do Senhor. Infeliz o que despreza a Sabedoria e a disciplina; vã é sua esperança, estéreis seus esforços e inúteis suas obras […]” (Sabedoria 3,1-11).

(Fonte: Livro Cura dos traumas da morte, p. 11 a 17)

 

 

Padre Léo, SCJ (⭐09/10/1961 ✝️ 04/01/2007)
Fundador da Comunidade Bethânia (Servo de Deus)

 

Adaptação Amanda Martins