Deixar-se conduzir pela Palavra

Jesus conhecia profundamente a Bíblia. Mais do que isso, Ele amava e se guiava pelas suas Palavras. Isso é o suficiente para que todos nós façamos o mesmo. Na tentação do deserto, quando o demônio investiu contra Jesus Cristo, Ele o rebateu com as palavras da Escritura e, por três vezes, disse-lhe: “Está escrito: ‘O homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor’ (Dt 8,3c)”.
Quando o tentador exigiu que o Filho de Deus se jogasse do alto do templo, Jesus lhe respondeu: “Está escrito: ‘Não provocareis o Senhor; vosso Deus’ (Dt 6,16a)”. E quando Satanás tentou fazer com que Jesus o adorasse, ouviu mais uma vez a Palavra de Deus: “Está escrito: ‘Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás o teu culto e só jurarás pelo seu nome’ (Dt 6,13)”. O demônio foi vencido e se afastou.

O fato de Jesus ter se defendido das tentações e lançando, no rosto do tentador, as palavras da Escritura, mostra-nos a importância e a eficácia delas no caminhar da vida daquele que deseja viver pela fé a fim de ser feliz e de poder agradar a Deus.
Não é sem razão que São Pedro disse: “Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal, porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (II Pd 1,20-21).

A Bíblia não é um livro de ciência, mas de fé. Utilizando os mais diversos gêneros literários, ela narra acontecimentos da vida de um povo guiado por Deus – há quatro mil anos –, atravessando os mais variados contextos sociais, políticos, econômicos, etc. Por isso, a Palavra de Deus não pode sempre ser tomada ao “pé da letra”, embora, algumas vezes, o deva ser. “Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica” (II Cor 3,6c), disse São Paulo.

Para aquele que possui a fé, sem a qual “é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6a), a Palavra do Senhor é alimento sólido para a vida espiritual, indispensável para aquele que deseja, pela fé, fazer a vontade d’Ele e ter luz na própria vida.
A Carta aos Hebreus diz que “a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4,12).
Para que a Palavra de Deus seja eficaz em nossa vida, precisamos meditá-la; pela fé, acreditar nela e colocá-la em prática objetivamente. Em outras palavras, precisamos obedecê-la, pois estaremos obedecendo ao próprio Senhor.
“Por isso, também damos graças, sem cessar, a Deus, porque recebestes a Palavra de Deus que de nós ouvistes. Vós a recebestes não como palavra de homens, mas como realmente é: Palavra de Deus, que age eficazmente em vós que crestes” (1 Tess 2,13).

A alma da Igreja é o Espírito Santo dado em Pentecostes; por isso a Igreja não erra na interpretação da Bíblia e isso é dogma de fé. Jesus mesmo lhe garantiu isto: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,13a).
O Salmo mais longo da Bíblia é dedicado à Palavra de Deus. O Salmo 118:

“Vossos preceitos são minhas delícias.
Meus conselheiros são as vossas leis” (v. 24).
“O único consolo em minha aflição
É que vossa palavra me dá vida” (v. 50)
“Quão saborosas são para mim vossas palavras,
mais doces que o mel à minha boca” (v. 103).
“Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos. E uma luz em meu caminho” (v. 105).
“Encontro minha alegria na vossa palavra,
Como a de quem encontra um imenso tesouro” (v.162).

O Espírito Santo nos ensina essa verdade pela boca do profeta Isaías; cuja boca tornou “semelhante a uma espada afiada” (Is 49,2):
“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não voltam sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado a minha vontade e cumprido a sua missão” (Is 55,10).

A palavra de Deus é transformadora e santificante. São Paulo explica isso a seu jovem discípulo Timóteo com toda convicção: “Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para persuadir, para corrigir e formar na justiça” (2Tm 3,16). Ela é, portanto, um instrumento indispensável para a nossa santificação. Não conseguiremos ter “os mesmos sentimentos de Cristo” (Fil 2,5) sem ouvir, ler, meditar, estudar e conhecer a Sua Santa Palavra. São Jerônimo, dizia que “quem não conhece o Evangelho, não conhece Jesus Cristo”.
Jesus nos ensina que “a Escritura não pode ser desprezada” (Jo 10,34). São Paulo recomendava a Timóteo que se aplicasse à sua leitura (1Tm 4,13).

Jesus é a própria Palavra de Deus, o Verbo Divino que se fez carne (Jo 1,1s). No livro do Apocalipse, São João viu o Filho do homem… “e de sua boca saia uma espada afiada, de dois gumes” (Ap 1,16). É o símbolo tradicional da irresistível penetração da Palavra de Deus. Essa Palavra nos questiona, interroga, ilumina, guia, consola; enfim, santifica. São Pedro diz que renascemos pela força dessa palavra.
“Pois haveis renascidos, não duma semente corruptível, mas pela palavra de Deus, semente incorruptível, viva e eterna”, (1Pe 1,23) e, como disse o profeta Isaias: “a Palavra do Senhor permanece eternamente” (Is 11,6-8).

Quando avisaram a Jesus que a Sua Mãe e os seus irmãos queriam vê-Lo, o Senhor disse: “Minha mãe e meus irmãos são estes que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 8,21). Quando aquela mulher levantou a voz, do meio do povo, e lhe disse: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”, o Senhor respondeu: “Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11,28).

Quando alguém é renovado pelo Espírito Santo, sente a necessidade da Palavra de Deus, para guiá-lo e santificá-lo.
Pela boca do profeta Amós, o Espírito Santo disse: “Eis que vem os dias.. em que enviarei fome sobre a terra, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas fome e sede de ouvir a palavra do Senhor” (Am 8,11). Graças a Deus esses dias chegaram!

Quando Jesus explicava as Escrituras para os discípulos de Emaús, eles sentiam “que se lhes abrasava os corações” (Lc 24,32). Assim também continua a ser, hoje, para todo aquele que medita a Palavra de Deus. Ela nos purifica no fogo do Espírito Santo. Todos os santos, sem exceção, mergulharam fundo as suas vidas nas santas Escrituras e deixaram-se guiar pelos ensinamento da Igreja.


Felipe Aquino

Professor Felipe Aquino é viuvo, pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova. Página do professor: www.cleofas.com.br Twitter: @pfelipeaquino

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