Devoção e espiritualidade

Compilado de meditações sobre o Preciosíssimo Sangue de Jesus

Essas meditações serão uma contribuição para conhecer o mistério do Preciosíssimo Sangue de Jesus

Queres conhecer o poder do sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com seu sangue (cf. Ex 12,6-7). Que dizes Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas porque é figura do sangue do Senhor. Mas, se agora, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, o inimigo vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicadas a Cristo, o sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe. (Catequeses de São João Crisóstomo 3,13-19; Liturgia das Horas II, 415).

Sangue de Cristo, recebido pelos fiéis na Eucaristia

“Cristo deu sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1Jo 3,16). É certamente a mesma coisa que se lê nos Provérbios de Salomão: “Quando te sentares à mesa de um poderoso, observa com atenção o que te é oferecido; e estende a tua mão, sabendo que também deves preparar coisas semelhantes” (Pr 23,1-2: Vulg.). Ora, a mesa do poderoso é a mesa em que se recebe o Corpo e o Sangue daquele que deu a sua vida por nós. Sentar-se à mesa significa aproximar-se com humildade. Olhar com atenção o que é oferecido, é tomar consciência da grandeza desta graça. E estender a mão, sabendo que também se devem preparar coisas semelhantes, significa o que já disse antes: assim como Cristo deu a sua vida por nós, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. É o que diz o apóstolo Pedro: Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, a fim de que sigamos os seus passos (cf. 1Pd 2,21). Isto significa preparar coisas semelhantes. Foi o que fizeram, com ardente amor, os santos mártires. Se não quisermos celebrar inutilmente as suas memórias e nos sentarmos sem proveito à mesa do Senhor, no banquete onde eles se saciaram, é preciso que, como eles, preparemos coisas semelhantes. Amemo-nos também nós uns aos outros, como Cristo nos amou e se entregou por nós (Tratado de S. Agostinho sobre o Evangelho de São João 84,1-2)

Sangue de Cristo correndo por terra na agonia

No Horto das Oliveiras, Jesus enfrenta sua maior provação, estando cheio de pavor e angústia, em meio a uma tristeza mortal (Mc 14,33), em agonia, com o suor tornado como gotas de sangue que caíam no chão (Lc 22,44). Lá, pediu a Deus: “Abbá! Pai! tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice!” (Mc 14,36).

Como Jesus venceu essa provação? O autor da Carta aos Hebreus, referindo à oração de Cristo no Horto, afirma que Ele “dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que tinha poder de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua piedade.” (Hb 5,7-8). Essa “piedade” ou “submissão” expressa a inteira confiança de Cristo em Deus, seu Pai, assim como sua total disposição de obediência, sua fidelidade: “seja feito não o que eu quero, porém o que tu queres” (Mc 14,36).

Sua oração foi atendida! De fato, Ele entrou no Jardim das Oliveiras, cheio de terror e angústia, mas de lá saiu revestido da majestade divina. Quando chegaram os guardas para prendê-lo, “Jesus sabendo tudo o que ia acontecer com ele, saiu e disse: ‘A quem procurais?’ Responderam: ‘A Jesus de Nazaré!’ Ele disse: ‘Eu sou’” (são estas as palavras no original grego e não simplesmente: “Sou eu”, como se costuma traduzir, cf. Jo 18,5). Ora, “Eu sou” é o nome divino revelado por Deus a Moisés: “Deus disse a Moisés: ‘Eu sou aquele que sou.’” E acrescentou: “Assim responderás aos israelitas: ‘Eu sou, envia-me a vós’” (Ex 3,14). Saindo do Horto, vencedor da provação, Jesus reivindica para si o nome de Deus.

E foi a glória desse nome que fez prostrar com a face em terra os guardas que vieram prendê-lo: “Quando Jesus disse ‘Eu sou’, eles recuaram e caíram por terra” (Jo 18,6). Ele mergulhou no poço do desespero humano, da situação onde não há mais saída e o sofrimento parece não mais ter fim, mas dele saiu vencedor. Assim, “tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9). Venceu para que participássemos de sua vitória!

Sangue de Cristo, manando abundante na flagelação

“[Cristo] foi ferido por causa de nossos pecados quando os descendentes de Israel o cobriam de injúrias, e Pilatos o mandou flagelar, enquanto nós éramos libertados das penas e dos suplícios. Antigamente eram muitos os açoites que se infligiam aos pecadores, mas Cristo foi flagelado por nós. Assim como morreu por todos, foi também por todos flagelado, tendo-se colocado sozinho no lugar de todos nós.” (São Cirilo de Alexandria, Livros sobre a adoração em espírito e verdade; Lecionário Monástico II, Edições Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1999, p. 180)

Sangue de Cristo, gotejando na coroação de espinhos

Depois os soldados teceram de espinhos uma coroa e puseram-lhe sobre a cabeça (Jo 19,2). Ao cravarem a coroa de espinhos com pauladas, diziam: “Como é rei, não pode ficar sem coroa, esperamos que esta seja de seu agrado.” Escorrendo sangue pelos cabelos, testa, rosto e pescoço, o Senhor inclinou a cabeça para o alto, para que nós que estávamos caídos, pudéssemos nos levantar. Mas vós sois, Senhor, para mim um escudo; vós sois minha glória, vós me levantais a cabeça (Sl 30,40). Quem poderá reclamar de uma ofensa, quando vemos o quanto o Senhor sofreu por nós? (Luis de Palma, A Paixão do Senhor, São Paulo, Factash Editora, 2005, p. 125).

Sangue de Cristo, marcando o caminho do Calvário

O Senhor, entregue ao arbítrio dos violentos, que zombavam da sua dignidade de rei, carregava, ele próprio, o instrumento de seu suplício, para se cumprir o que Isaías predissera: Nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza (Is 9,5). Quando, pois, o Senhor carregou o lenho da cruz, que transformou em cetro de seu poder, o que foi aos olhos dos ímpios grande zombaria, manifestou aos fiéis um grande misterio. Porque o invicto vencedor de Satanás, o poderoso combatente contra as forças inimigas, transformou gloriosamente o troféu de seu triunfo e trouxe para todos os reinos, em seus ombros de invencível paciência, o adorável sinal da salvação, confirmando por sua própria atitude todos os seus imitadores, aos quais disse: Quem não toma sua cruz e não me segue, não é digno de mim (Mt 10,38). (Papa São Leão Magno, Tratado 59 da Paixão do Senhor, 4; Lecionário Monástico II, Edições Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1999, p. 573).

Sangue de Cristo, derramado na cruz

Os que derramaram o sangue de Cristo não o fizeram com a intenção de tirar os pecados do mundo. No que lhes concerne, eles causaram mais sua perda que nossa salvação, mais sua condenação que nossa salvação. Contudo, inconscientemente eles prestaram serviço ao plano divino da salvação. A salvação do mundo, que se seguiu, veio do poder, da vontade, da intenção, do ato de Deus. Na efusão do sangue de Cristo, com efeito, não estava em ação apenas o ódio dos perseguidores, mas também o amor do Salvador. O ódio realizou a obra do ódio; o amor, sua obra de amor. Não foi o ódio, mas o amor que realizou a obra da salvação. O ódio, no entanto, derramou o sangue de Cristo e derramou-se a si próprio para que o homem soubesse quanto Deus o amava, ele que não poupou seu próprio Filho (Rm 8,32). De fato, Deus amou o mundo a tal ponto que deu o seu Filho único. Esse Filho único foi oferecido porque ele mesmo quis (Is 53,7 Vulg.) e, tendo amado os seus, amou-os até o fim (Jo 13,1). (Balduíno de Cantuária, Tratado sobre o Sacramento do Altar, II,1; Lecionário Monástico II, Edições Lúmen Christi, Rio de Janeiro, 1999, p. 588).

Jesus, desejoso de conseguir para os homens a liberdade e acumular de graças sua Mãe, estendeu os braços sobre a cruz. Os executores com fortes marteladas cravaram-no na cruz. Ali estava o Rei dos reis, pregado num madeiro, e Maria cravada no coração. Começou a correr sangue da cruz até o solo, como aqueles quatro rios que regavam o Paraíso e fertilizavam a terra (cf. Gn 2,10-14), mas estes infinitamente mais preciosos. (Luis de Palma, A Paixão do Senhor, São Paulo, Factash Editora, 2005, p. 161-162)

Sangue de Cristo, vertendo do lado aberto

Queres compreender mais profundamente o poder desse sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado à cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água, como símbolo do batismo; o sangue como símbolo da eucaristia. O soldado, trespassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede do templo santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com esse cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro, e eu recebi o fruto do sacrifício. (Catequeses de São João Crisóstomo 3,13-19; Liturgia das Horas II, 416).

Conteúdo extraído do Devocionário ao Preciosíssimo Sangue de Jesus