Quaresma e discernimento

A Quaresma é um tempo em que somos chamados, mais radicalmente, a viver na verdade da nossa vida cristã. Converter-se é abrir o coração a Deus e à exigência da sua Palavra. ‘Se hoje escutardes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações!’. Quando escutamos a Palavra de Deus, nada em nós fica na mesma: aquela situação a que nos acomodamos, o deixar pôr em questão situações e juízos em que não nos apetece mexer, o responder generosamente àquelas interpelações de amor e de serviço, que há tempos nos inquietam, mas que ainda não escutamos até ao fundo. É tempo de escutar a voz de Deus e de perceber os seus desejos e caminhos; é tempo de discernimento.

Discernir é captar a vontade do Senhor a nosso respeito e perceber os caminhos por onde o Espírito nos conduz. É responder, no tempo que passa, àquela eterna pergunta, que brota dos lábios de Paulo, na estrada de Damasco: ‘Senhor, que quereis que eu faça?’.

O discernimento, enquanto confronto com o desígnio de Deus e percepção dos caminhos do Espírito, deve ser uma atitude contínua do cristão, que deve ser feito em caminhos do Espírito, deve ser uma atitude contínua do cristão, que deve ser feito em Igreja, pois sozinhos corremos o risco de nos ouvirmos apenas a nós mesmos. Só Ele nos trará luz para percebermos o que é preciso mudar, para descobrir os caminhos do amor fraterno e da adoração, encontrar os modos de nos empenharmos na construção de uma sociedade mais harmônica e mais fraterna, numa palavra, para respondermos à nossa vocação.

Destes diversos aspectos do discernimento, quero sublinhar aquele que nos levará a perceber melhor a nossa vocação de cristãos no meio do mundo e da nossa participação específica, com todos os outros, na construção da sociedade. O momento que vivemos, de preparação para eleições legislativas, exige esse discernimento que, para ser cristão, deve ser feito à luz da verdade cristã em que acreditamos. Dela brota, antes de mais, a exigência da nossa participação.

Viver em sociedade é comprometer-se, responsavelmente, na resolução dos problemas dessa sociedade, para que seja mais justa, mais harmônica, mais respeitadora da dignidade do homem. O cristão sabe que a direitos correspondem deveres e que ele nunca pode estar no número daqueles que espera que ‘alguém’ resolva os seus problemas, limitando-se a deixar correr, ou a exigir e criticar. Abstêm-se, porque isto continua tudo na mesma e os políticos são todos iguais, protestam quando os seus interesses não são defendidos, sem perceber que uma sociedade desenvolvida e harmônica tem de ser obra de todos. Somos todos co-responsáveis pelo nosso futuro colectivo.

Uma outra concretização é a lucidez e clarividência na análise dos principais problemas colectivos que se apresentam ao País, como se chegou a eles e que vias justas encontrar para lhes procurar solução. Ao escolher, com o nosso voto, o principal órgão de soberania de que emanará o Governo da nação, não nos podemos deixar motivar apenas por simpatias partidárias ou pela personalidade dos intervenientes: o cristão tem de ter em conta as propostas concretas apresentadas, confrontá-las com a doutrina da Igreja sobre a pessoa e sobre a sociedade e ter garantias de que as propostas programáticas são exequíveis, pois não vale a pena prometer a lua sem nave espacial que a ela nos conduza.
O conhecimento dos problemas e das soluções propostas é crucial para o discernimento do cristão, pois as soluções apresentadas podem afastar-se da nossa visão cristã da realidade.

E a hora é de verdade e não de ambigüidades. E, finalmente, desse discernimento deve brotar a serenidade da esperança. Ninguém tem soluções infalíveis, mas isso não pode ser desculpa para não escolher. Devemos apoiar o projeto com que nos identificamos e nos parece mais viável, sabendo que a sua realização depende de todos, na pluralidade das nossas diferenças. Sejamos justos para quem se esforçou por fazer o melhor, demos o nosso apoio aos que se propuseram, com competência, dedicação, isenção e espírito de serviço ir mais longe, para o bem de Portugal.

† Dom José Policarpo,
Cardeal-Patriarca de Lisboa – Portugal
Portugal, 03 de Fevereiro de 2002.

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