Enquanto esperamos a vinda gloriosa do Senhor

Vivemos, nestes dias, os principais mistérios da nossa fé, celebrando a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não há religião no mundo que reúna tão sublimes momentos em tão poucos dias, renovando-os anualmente com piedade cada vez maior. A liturgia, notadamente, durante o chamado tríduo pascal, traduz em gestos e palavras o grande núcleo central da fé da Igreja Primitiva pois, anunciamos a sua morte enquanto esperamos a sua vinda (1Cor 11, 26).

Jesus, durante sua última Ceia, disse aos seus: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19). A Eucaristia é o cumprimento dessa ordem do Senhor: ser memória desse gesto de Jesus. Trata-se do zicarôn hebraico, onde a presença de Deus na vida do povo devia ser celebrada festivamente. Quando Jesus, na última ceia, utiliza essa expressão, fica claro aos discípulos que estão diante de uma semelhante instituição, com a mesma necessidade de celebrar, isto é, de por um marco em suas vidas que serias lembrado em constante atualização.

A Eucaristia acontece dentro da Páscoa judaica, do sêder pascal. A história da Salvação, prefigurada em tantos momentos durante a vida do povo de Israel – escravidão-libertação-terra prometida – encontra naquela Ceia com os discípulos um ponto de chegada e ao mesmo tempo, um novo início de caminhada. O cordeiro imolado e partilhado, antes da partida do Egito, o maná que caiu do céu para alimentar o povo, a aliança do Sinai com o dom da Lei, tudo isso vem recordado de modo celebrativo na Eucaristia. Jesus dará um passo maior, um avanço gigante, porque havia chegado o momento esperado desde todos os tempos: Jesus é sacerdote, altar e cordeiro (Liturgia). A Eucaristia ampliará infinitas vezes um simples memorial judaico para lhe conferir realidade de Sacramento. Deus se faz realmente presente e não apenas lembrado, como evocação.

Celebramos, portanto, na Quinta-Feira Santa, a Instituição da Santíssima Eucaristia. Mateus, Marcos e Lucas são unânimes em mencionar esse fato com todos os detalhes. O mesmo ritual judaico do sêder pascal, vai aos poucos se configurando em algo absolutamente novo diante dos comensais: o pão ázimo é transformado em “meu corpo”, e a copa de vinho se torna “o meu sangue. O sangue da Aliança, é derramado por todos para remissão dos pecados” (Mt 26,28): do mundo todo.

João, por sua vez, trata da Eucaristia, particularmente no capítulo 6 – o famoso discurso sobre o Pão da Vida. Durante a ceia, ele muda completamente de foco. Em vez de mostrar a instituição da Eucaristia, como os outros evangelistas, ele relata algo que os outros não mencionam: o lava-pés. Faziam parte da ceia judaica dois momentos para se lavar as mãos. Jesus, porém, levanta-se e passa a lavar os pés, dizendo: “Vós também deveis lavar os pés uns dos outros” (Jô 13,13). Que belo modo de descrever o comprometimento da Eucaristia! Quem lava os pés do outro, corre o risco de sujar as próprias mãos. Isso é comprometer-se com o irmão, fazer comunhão com ele; é o modo mais sublime de viver esse grande Sacramento. Com atitudes como essa Deus forjou grandes Santos e Santas e continua inspirando na humanidade em tantos irmãos e irmãos atitudes idênticas ou parecidas.

“Todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35), disse Jesus na última ceia. Esse amor deve ser manifestado com todas as evidências e não reduzir-se apenas a algo conceitual. Os primeiros cristãos eram “um só coração e uma só alma” (At 4,32), testemunha o autor dos Atos dos Apóstolos. Uma unidade de comprometimento que encontrava sua fonte na vivência assídua da Eucaristia. E, sabendo que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos (Jo 15,13), esse será sempre o modo de melhor configurar-se ao Cristo, que se entrega por todos como sacrifício, por amor.

Um papel todo particular no Sacramento da Eucaristia tem o Espírito Santo. Pede-se ao Pai que Ele seja derramado sobre as oferendas, para que elas se tornem – para nós – o corpo e o sangue de Cristo. Aliás, o Espírito Santo é invocado em todos os Sacramentos da Igreja. É por isso chamado “alma da Igreja”. Vem em nosso socorro para que possamos compreender essas realidades espirituais e atua em nós com os seus dons, para que tenhamos as forças necessárias para testemunhar Jesus entre os homens e ser, no mundo, sinal do amor de Deus. Ele clama ao Pai por nós “com gemidos inexprimíveis” (Rm 8,18).

Há ainda um outro aspecto que não deve passar desapercebido: a assimilação do ser do Cristo: “…aquele que se alimenta de mim, viverá por mim” (Jo 6, 57). Viver por ele! Poderá haver algum compromisso mais importante? Ser para o outro presença e sinal desse amor! A Igreja, reunida em torno do seu pastor, traduz esse momento de modo particularmente emocionante: diz o Catecismo da Igreja Católica, que o Bispo do lugar é sempre responsável pela Eucaristia, mesmo quando é presidida por um presbítero; seu nome é nela pronunciado para significar que é ele quem preside à Igreja particular, em meio ao presbitério e com a assistência dos diáconos” (nº 1369).

Finalmente, a Eucaristia nos coloca diretamente em perspectiva de vida eterna. Ela, antecipando a “bem aventurada Esperança”, anima em nós a disposição de “peregrinos rumo à Terra Prometida”, a Jerusalém celeste. É alimento dos caminhantes e fortalece-nos nessa jornada. Ela é, conforme o belíssimo hino eucarístico “Lauda Sion”, o “pão dos anjos, que se tornou pão dos peregrinos: verdadeiro pão dos filhos”. Pão que dá força não apenas física, mas, particularmente, espiritual.

Apoiar-se na Eucaristia é garantir santidade de vida. É poder enfrentar as dificuldades do dia-a-dia com vigor sempre renovado que só a certeza de se ter Jesus consigo pode dar. Esta é a razão pela qual, após a consagração, exclamamos com o coração transbordante de alegria: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda”!

Dom Eusébio Oscar Scheid
Arcebispo do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, 26 de março de 2002

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