A espiritualidade de Jesus!

Alguém me sugeriu o tema. Estive mesmo pensando nele, nos últimos tempos. Antes de tudo, importa perguntarmos o significado de espiritualidade. Sucintamente, poderíamos dizer que significa o modo como alguém vive seu relacionamento com Deus. Pois bem, Jesus foi aquele que viveu da forma mais perfeita o relacionamento com Deus. Constituiu-se em modelo absoluto.

Qual seria, então, a forma mais perfeita do relacionamento com Deus? Está descrita no livro da Bíblia, com estas palavras:“Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!” (Dt 6,4).

A fim de nos darmos conta dessa caracterização da espiritualidade de Jesus, basta lermos os Evangelhos e compararmos com eles a vida de Jesus.

Quem, além de entender bem essa relação, no-la deixou escrita, foi São Paulo: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8).

Aniquilou-se. Em outras traduções, talvez mais corretas, encontramos “esvaziou-se”. Significa o que? Significa que ele renunciou, despiu-se de todos os seus títulos, sobretudo, do maior de todos eles, o título de ter “condição divina”, isto é, de ser Deus. Nós, infelizmente, somos colecionadores de títulos.

Qual a razão última desse esvaziamento? A razão última é o reconhecimento puro e simples de que Deus é Deus, de que Deus “é o único Senhor”. Nenhum título deverá subsistir independente do senhorio de Deus. Faz-se necessário esvaziar-nos de todos os títulos, a fim de reconhecermos que só ele “é digno de receber honra, glória e majestade” (Ap 4,11).

Acha-se isso bem expresso na conclusão da oração eucarística:“por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre”.

Quer dizer que toda atribuição a nós de honra e glória representa uma sonegação, isto é, subtraímos de alguém aquilo sobre o qual tem inalienável direito.

São Paulo, com esse exemplo de Jesus, exorta a comunidade de Filipos a ter um comportamento verdadeiramente cristão, ao escrever num versículo anterior ao citado acima: “Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses e sim os dos outros”. Para tanto, se faz necessário “esvaziar-se” dos próprios interesses, despir-se da ambição de fazer valer sobre os outros os próprios títulos.

Nisto consiste o pecado: atribuir-se a si mesmo o que pertence a Deus. A “serpente” disse a Eva: “…no dia em que dele comerdes (do fruto)… sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,5). Isto é, tereis as prerrogativas de Deus, não dependereis mais de ninguém, iguais a Deus, acima do bem e do mal, de toda lei moral. Sereis vossa própria lei, donos absolutos de si mesmos. Ambição de ser como Deus, pretender levar sempre vantagem. Eis o pecado.

Importa, portanto, esvaziar-se dessas ambições absurdas, renunciar à pretensão, ao título de ser como Deus. É como aceitar de perder-se. Assim se vence o pecado. Esse foi o exemplo de Jesus. Por isso, encontramos no Evangelho: “… o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-ᔠ(Mc 8,35).

Veja-se, ainda, sobre a espiritualidade de Jesus: portou-se ele “como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Ele não abriu a boca” (Is 53,7). O cordeirinho não reivindica. Jesus, nada reivindicou. Toda honra, toda glória deve ser atribuída a Deus.

Sua espiritualidade foi tão radicalmente estranha à tendência egoísta dos homens, dos homens sem Deus, agindo tão diversamente dos demais, que o centurião romano não se furtou de exclamar: “Este homem era realmente o Filho de Deus” (Mc 15,39). Isto é, somente um Deus pode comportar-se desse jeito, com tal desprendimento de si mesmo.

Pois bem. Num mundo cheio de interesses egoístas, cheio de preocupações de autopromoção, de auto-realização, muitos poderiam pensar: onde fica a justiça? A resposta a encontramos, tanto em São Paulo, como em São Pedro. Ensinam-nos eles: a justiça pertence ao Pai, pois, quanto a mim, “não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo” (Jo 3,17; 12,47). O Pai é quem fará justiça.

E o Pai fez justiça. São Paulo, depois de nos dizer que Jesus se esvaziou, acrescenta: “Por isso Deus o exaltou soberanamente…” (Fl 2,9s). São Pedro foi mais explícito: “Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; ele maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pd 2,23). Ao Pai pertence a justiça. Jesus pôde, por isso, dizer de forma absoluta como convém ao Pai: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Entrego-me à tua justiça.

Concluindo, ouso observar que a espiritualidade da justiça não é a de Jesus. Digo mais, a espiritualidade da justiça tem feito muito mal à nossa pastoral. Jesus cita Oséias: “Eu quero a misericórdia… Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13).

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