Tradições juninas: um mergulho na fé e na cultura brasileira
Junho é tempo de tradições, de imensas festas populares dedicadas a santos muito especiais para os brasileiros e também para os portugueses que trouxeram ao Brasil o costume dos festejos juninos em homenagem a Santo Antônio (dia 13), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29). Por todo o País, especialmente nas cidades do Nordeste, as comemorações são tão elaboradas que incluem até certa dose de rivalidade entre os municípios. Uma competição saudável, fruto da vontade das comunidades em receber o título de “maior festa de São João do País”, como acontece nas cidades de Caruaru, em Pernambuco, e de Campina Grande, na Paraíba.

Créditos: Arquivo Instituto Canção Nova / Por Maria Fernanda Alves – Aluna voluntária do NCPE
A importância social e econômica dos festejos
É maravilhoso que ainda existam comemorações dessa natureza em um tempo, muitas vezes, marcado pela exacerbação da violência, da criminalidade e da individualidade. Por isso, é essencial que neste período do ano possamos dedicar momentos preciosos para comparecer a festas familiares, cheias de alegria, colorido e fé. Muitos já consideram os festejos juninos do Nordeste um evento de dimensões semelhantes ao Carnaval carioca. Um indicativo de que o turismo e o comércio dessa região são positivamente impulsionados, aquecendo a economia, gerando empregos, renda e trabalho.
Quadrilhas: o caldeirão cultural da brasilidade
Compostas por elementos que evidenciam o verdadeiro caldeirão cultural que é o Brasil, as festas trazem como uma de suas principais atrações as tradicionais quadrilhas, dança originalmente francesa que surgiu no final do século XVIII e tem suas raízes nas antigas contradanças inglesas. Trata-se de uma dança trazida ao Brasil no início do século XIX, quando se tornou uma constante nos salões da corte e da aristocracia. Hoje, as quadrilhas tipicamente juninas já estão devidamente impregnadas de brasilidade e são levadas tão a sério nas cidades nordestinas que os grupos começam a ensaiar meses antes. Um ritual que, a cada ano, se fortalece por meio das inovações, criatividade e experiência.
Sabores, brincadeiras e o simbolismo da fogueira
Uma das características mais interessantes dos festejos juninos está no sem-número de brincadeiras e de comidas típicas que completam um cenário que, não raro, nos remete à infância. Um tempo em que a ingenuidade e as tradições interioranas ainda tinham certo espaço mesmo nas cidades grandes.
Outra particularidade desses eventos é a fogueira. Reza a tradição que elas têm origem na história bíblica do nascimento de São João Batista, cuja mãe, Isabel, teria feito uma fogueira para avisar Maria, Mãe de Jesus, que havia dado à luz. Nesse sentido, as fogueiras são uma espécie de louvor ao santo conhecido por profetizar a vinda do Salvador.
A vida e os exemplos dos santos juninos
Santo Antônio: humildade e pregação
A mesma humildade tinha Santo Antônio que, nascido em uma família de fidalgos, resolveu, como São Francisco, levar uma vida de doação e de pregações. Antes de ser conhecido pelo dom da oratória e pela inteligência privilegiada, não relutava em realizar as tarefas domésticas com grande empenho no convento onde viveu, próximo à cidade de Bolonha. Sua simplicidade e humildade eram tantas que os outros frades do lugar jamais suspeitaram dos seus profundos conhecimentos teológicos.
São João Batista: o precursor
A relevância do papel de São João Batista reside no fato de ter sido o precursor de Cristo, a voz que clamava no deserto e anunciava a chegada do Messias, insistindo para que os judeus se preparassem, pela penitência, para essa vinda. Através de uma vida extremamente coerente, não cessava jamais de chamar os homens à conversão, advertindo: “Arrependei-vos e convertei-vos, pois o reino de Deus está próximo”. João Batista passou a ser conhecido como profeta. Alertava o povo para a proximidade da vinda do Messias e praticava um ritual de purificação corporal por meio de imersão dos fiéis na água, para simbolizar uma mudança interior de vida.
A vaidade, o orgulho, ou até mesmo, a soberba, jamais estiveram presentes em São João Batista e podemos comprová-lo pelos relatos evangélicos. Por sua austeridade e fidelidade cristã, ele é confundido com o próprio Cristo, mas imediatamente retruca: “Eu não sou o Cristo” (Jo 3, 28) e “não sou digno de desatar a correia de sua sandália”. (Jo 1,27). Quando seus discípulos hesitavam, sem saber a quem seguir, ele apontava em direção ao único caminho, demonstrando o rumo certo, ao exclamar: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. (Jo 1,29).
São Pedro: a “pedra” da Igreja
Quanto às qualidades de São Pedro, basta dizer que foi o escolhido por Cristo para ser a pedra que edificaria a sua Igreja. O Evangelho de São Mateus (16,15-23) diz que Jesus teria perguntado aos seus discípulos: “E vós, quem pensais que sou eu?”. Ao que Pedro respondeu: “És o Cristo, Filho de Deus vivo”. E, então, disse Jesus: “Simão, filho de Jonas, és um homem abençoado! Pois isso não te foi revelado por nenhum homem, mas pelo meu Pai, que está no céu. Por isso, te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e o poder da morte não poderá mais vencê-la. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu, e o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado no céu”.
Um tempo para refletir e celebrar
É bom relembrarmos esses ensinamentos. E é mais do que válido aproveitarmos as festas juninas ao lado de quem amamos, resgatando nossa infância e permitindo que ela permaneça conosco por mais tempo. Que nesse período ainda possamos refletir sobre a vida de Santo Antônio, São João Batista e São Pedro — homens divinizados justamente porque fizeram de suas vidas um caminho no qual predominaram a verdade e a fé.
Relacionados