Gestão e política

A política precisa de bons gestores

É um desafio organizar processos e funcionamentos na sociedade, mas é preciso bons gestores

Gerir processos e funcionamentos é um complexo desafio, principalmente quando são consideradas as exigências, necessidades e prioridades. Ao gestor, requerem-se resultados, e não é permitido um planejamento que busque apenas a manutenção burocrática do que já se conquistou. Mas, lamentavelmente, existem certos hábitos culturais que impõem atrasos e inviabilizam o caminhar na direção das inovações. Esses costumes também alimentam a baixa autoestima da população e precisam ser superados para se alcançar o êxito.

Há de se considerar que toda cultura guarda, nos hábitos e práticas, idiossincrasias que devem ser corrigidas para não se tornarem furos por onde as energias escapam. E muitos são os procedimentos que podem eliminar tudo o que impede a limpidez, a velocidade e a objetividade nos processos capazes de vencer descompassos. Para que esses mecanismos se efetivem, sempre será necessário o exercício cidadão das avaliações e análises. Uma permanente disponibilidade para derrubar os obstáculos que impedem avanços e progressos. São muitas as barreiras, de todo tipo, e várias delas são desconsideradas. Assim, não recebem os tratamentos adequados e continuam a minar forças. Acabam alimentando comodismos com a justificativa de que “sempre foi assim”.

A política precisa de bons gestoresFoto: Wesley Almeida/cancaonovaa.com

Valorização da história, cultura e religiosa

Dentre esses graves hábitos culturais que precisam ser superados, há um que merece atenção especial: o descaso com o qual é tratado o patrimônio histórico, cultural e religioso de um povo. A desconsideração é generalizada, indicando a necessidade de se promover, inclusive a partir de processos educativos, o desabrochar da consciência sobre a grandeza desse patrimônio. É grave quando uma ambiência cultural não contribui para a difusão do conhecimento e a valorização dos próprios bens históricos, culturais e religiosos. Principalmente, quando se costuma valorizar somente o que pertence aos outros, em lugares distantes.

A consequência dessa visão distorcida é o inadequado tratamento, nos campos da preservação e promoção, por parte de cidadãos e governantes. É lastimável o desconhecimento da riqueza da própria história. Parece que tudo começou hoje. Perde-se, no esquecimento, a herança dos antepassados, com prejuízos para identidades e sua preservação. Nesse horizonte, é deplorável a incapacidade para lidar, usufruir e valorizar as diferentes culturas que compõem o tecido de uma sociedade. É condenável a tendência jocosa de “rifar” a própria riqueza cultural, enfraquecendo o amálgama consistente que pode advir desse patrimônio. Sem esses bens, a contribuição cidadã fica sempre muito comprometida, pois se perde componente determinante para a promoção da autoestima. Perde-se a capacidade para a inovação e a audácia. Habitua-se ao que é mediano e contenta-se em admirar o que é extraordinário, mas pertencente a outros lugares e pessoas.

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Nessa direção, convive-se com prejuízos – na economia, no turismo e na infraestrutura. Potencialidades são desperdiçadas. Esses comprometimentos, com uma lista de tantos outros, precisam ser considerados, pois não é possível admitir as perdas acirradas pelas irresponsabilidades ou incompetências das instâncias administrativas e governamentais. É preciso que se contemple os patrimônios de outras culturas, não para simples contemplação, mas como gesto capaz de mexer com os próprios brios e, assim, suscitar um espírito de luta – força para ações que busquem valorizar o que se tem e o que se é. Os que governam necessitam de uma sabedoria que lhes permita incursões no domínio da cultura para promover e fortalecer valores com a insubstituível consciência da prioridade que merecem os mais pobres. O desenvolvimento de uma sociedade, para ser duradouro, tem que ser sustentável e integral.

Preservação dos valores da sociedade

A gestão, pois, para além de resultados econômicos, deve se pautar na relação entre princípios e valores, alicerçados nos parâmetros da justiça, liberdade e da verdade. Esse modo de pensar processos gerenciais é conflitante com o que se percebe na dimensão da política partidária. Os representantes do povo, no Executivo e no Legislativo, gastam tempo demais na arquitetura de conchavos, coligações, discussões, muitas delas de caráter apenas partidário, motivadas por interesses pessoais ou de pequenos grupos. Sobra pouco tempo para os assuntos verdadeiramente urgentes, de interesse da população, que requerem sabedoria, agilidade, priorização. Prevalecem a pouca assertividade, a velocidade similar a passos de tartaruga, a busca por soluções a partir de velhas respostas, sem inventividade. Vangloria-se sobre o que já foi feito, quase sempre aquém das necessidades e das potencialidades.

Gasta-se tempo demais com disputas por cargos e para a satisfação de interesses partidários. Certamente, esses são alguns hábitos que inviabilizam o desabrochar de autênticos líderes. No complexo âmbito de gestão e política, há urgências que exigem ousadia, correções de elementares posturas. De modo mais amplo, torna-se urgente corrigir dinâmicas que atrasam processos, promovem a mediocridade, demolindo patrimônios culturais, históricos e religiosos em razão de vícios e descompassos na relação entre a gestão e a política.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atual membro da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para as Igrejas Orientais. No Brasil, é bispo referencial para os fiéis católicos de Rito Oriental. http://www.arquidiocesebh.org.br

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