📰 Comunicação

Dia da Imprensa: qual a atitude cristã frente ao poder da mídia?

Iluminada pelo Evangelho, a comunicação continua sendo instrumento de encontro, serviço e esperança

O termo “quarto poder” foi bastante usado para descrever a força da imprensa, seja na fiscalização das instituições — Executivo, Legislativo e Judiciário —, seja para influenciar a opinião pública ou interferir em decisões. Os meios de comunicação são capazes de definir prioridades sociais, dando destaque a alguns temas e silenciando outros, além de decidir quem fala e quem permanece sem voz. A imprensa ainda é a janela do mundo para muitas pessoas que, em diversos casos, só o conhecerão através da mídia.

Créditos: Mihajlo Maricic / Getty Images.

A história mostra que, quando a imprensa não sofre censuras, diferentes opiniões circulam livremente. Por outro lado, ditadores também usaram os meios de comunicação para espalhar ideias e consolidar suas teorias. Logo, o poder da mídia pode servir às mais diversas formas de ver o mundo. Contudo, assim como os demais poderes precisam agir dentro de um código de conduta, a imprensa não deve se abster de seguir uma ética.

A Igreja e os Meios de Comunicação

Ao longo dos séculos, a Igreja tem se ocupado em orientar o uso da comunicação e vem publicando diversos documentos que orientam os fiéis e o clero sobre o cuidado na utilização e o conteúdo da mídia. Foi com o primeiro documento conciliar, o Inter Mirifica, publicado em 1966, após o Concílio Vaticano II, que a Igreja adotou pela primeira vez a expressão “comunicação social”, recordando que esta deve ser considerada um processo entre seres humanos. No documento, são abordados ainda o direito à informação, a opinião pública, a escolha livre, pessoal e responsável no lugar da censura.

Outro texto que podemos destacar foi o Communio et Progressio, de 1971, uma instrução pastoral criada após o Vaticano II para atender ao Decreto Inter Mirifica. Esse texto traz recomendações para as atitudes dos cristãos perante os meios de comunicação. Além destes, poderíamos citar vários outros documentos do Magistério da Igreja que orientam a nossa prática, seja enquanto espectadores, seja enquanto produtores de conteúdo dos veículos de imprensa.

A quem atua e utiliza os meios de comunicação e crê em Cristo, a Igreja sempre lembra que não se pode abrir mão de um posicionamento baseado no Evangelho, seja com a escuta, a busca pela verdade, a apresentação mais justa possível dos fatos, mantendo sempre o olhar de esperança naquele que é o Senhor da história e que, de todo o mal, retira um bem. A Barca de Pedro orienta ainda a busca cada vez maior de informações seguras, veículos sérios e uma educação que proporcione entender os vários ângulos dos fatos, de modo a não se deixar influenciar por fake news ou notícias contadas pela metade e fora de contexto.

A era digital

Uma vez que a imprensa tradicional convergiu para os meios tecnológicos, não podemos nos esquecer, aqui, do alerta que o Papa Leão XIV tem dado ao mundo no que se refere à Inteligência Artificial: “Preservar rostos e vozes”, tema de sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações deste ano.

Recentemente, o Santo Padre publicou a primeira encíclica de seu pontificado, a Magnifica Humanitas, na qual fala sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Neste documento, o pontífice pede:

“…pareis a construção da enésima Babel, congregando forças para edificar no bem, a fim de que a humanidade nunca perca a própria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no coração do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar” (n. 16).

A Igreja tem nos lembrado de que os seres humanos são as únicas criaturas que exercem a comunicação de forma profunda e consciente. Delegar inteiramente às máquinas a missão de comunicar nossas ideias; permitir que nossa capacidade criativa seja substituída ou perder o caminho frutuoso de crescimento que é a busca do conhecimento consiste em nos diminuir enquanto pessoas chamadas a sermos imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26).

O mundo das comunicações, atualmente, tem sido composto por holofotes, narrativas e hostilidades. Vale tudo em troca de likes e curtidas para entrar no jogo dos algoritmos: mentir, enganar, explorar o sofrimento humano, criar vozes, usar imagens de pessoas que já partiram, destruir reputações…

A pergunta que fica é: como cristãos — com base no que a mídia deveria ser e no que a Igreja nos orientou ao longo dos anos — qual deve ser nosso comportamento numa era em que grande parte da população é produtora de conteúdo? Qual deve ser a atitude dos profissionais da mídia frente aos que usam do poder para manipular e influenciar o maior número possível de pessoas?

Fica aqui o grande ensinamento de São Paulo: “Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma.” (1Cor 6,12)

A liberdade de comunicar e informar não pode ser confundida com a liberdade de manipular. Em um tempo em que todos podem produzir conteúdo, o compromisso cristão com a verdade, a dignidade humana e o bem comum se torna ainda mais necessário. A comunicação, quando iluminada pelo Evangelho, continua sendo instrumento de encontro, serviço e esperança.

 

Elane Gomes
Membro da Comunidade Canção Nova desde 2000. Foi membro do núcleo por cerca de 16 anos e desde 2019 é membro do Segundo Elo. Casada com Rafael Coutinho e mãe da Maria Clara, do João Pedro e de um bebezinho que já está em Deus. É formada em Língua Portuguesa e Literatura, Mestra em Comunicação e Cultura Midiática e atualmente faz especialização em Sagradas Escrituras. Trabalha como Jornalista da TV Canção Nova. Atua em rádio há 25 anos.