📰 Comunicação

Dia da Imprensa: qual a atitude cristã frente ao poder da mídia?

A imprensa e seu poder de influência

O termo “quarto poder” foi bastante usado para descrever a força da imprensa, seja na fiscalização de instituições (Executivo, Legislativo e Judiciário), seja para influenciar a opinião pública ou interferir em decisões.

A comunicação é capaz de definir as prioridades sociais — quando dá destaque a alguns temas e silencia outros — ou decidir quem fala, quando dá voz a uns e cala outros. A imprensa ainda é capaz de ser a janela do mundo para muitas pessoas, que só o conhecerão através dos meios de comunicação.

Créditos: Mihajlo Maricic / Getty Images.

Na história da mídia, vimos que, quando a imprensa não sofre censuras, em governos ditos democráticos, diversos tipos de opinião circulam sem sanções. Mas os ditadores também usaram os meios de comunicação para espalhar ideias e consolidar suas teorias. Logo, o poder dos meios de comunicação pode ser usado de qualquer lado.

Contudo, assim como os outros poderes precisam agir dentro de um código de conduta, a imprensa também não deve se abster de seguir uma ética.

A Igreja e os meios de comunicação

Ao longo dos séculos, a Igreja tem se ocupado em orientar o uso da comunicação e vem publicando, ao longo do tempo, diversos documentos que orientam os fiéis e o clero sobre o cuidado com o uso e o conteúdo da mídia.

Foi com o primeiro documento conciliar, o Inter mirifica, escrito em 1963 após o Concílio Vaticano II, que a Igreja adotou, pela primeira vez, a expressão “comunicação social”, recordando que esta deve ser considerada um processo entre seres humanos. No documento, são abordados o direito à informação, a opinião pública e a escolha livre, pessoal e responsável no lugar da censura. Outro texto que podemos destacar foi o Communio et progressio, de 1971, uma instrução pastoral criada pós-Concílio para atender ao Decreto Inter mirifica. Esse texto traz orientações para as atitudes dos cristãos perante os meios de comunicação. Além desses, poderíamos citar vários outros documentos do Magistério da Igreja que orientam a nossa prática, seja enquanto espectadores, seja enquanto produtores de conteúdo dos veículos de imprensa.

Para quem atua com os meios de comunicação na produção de conteúdo e crê em Cristo, a Igreja sempre lembra que não se pode abrir mão de um posicionamento baseado no Evangelho, seja com a escuta, a busca pela verdade ou a apresentação mais justa possível dos fatos, mantendo sempre o olhar de esperança para Aquele que é o Senhor da história e que, de todo o mal, retira um bem.

Aos receptores da mídia, a Igreja orienta a busca cada vez maior de informações seguras, de veículos sérios e da educação que proporcione entender os vários ângulos dos fatos, de modo a não se deixar influenciar por fake news ou notícias contadas pela metade e fora do contexto.

A era digital

E uma vez que a imprensa tradicional convergiu para os meios tecnológicos e que a inteligência artificial tem sido usada pelos veículos de comunicação, sejam novos ou tradicionais, não podemos esquecer aqui do alerta que o Papa Leão XIV tem dado ao mundo no que se refere à IA: “Preservar rostos e vozes”, tema da sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações deste ano, bem como da sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, que fala sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Neste documento, o pontífice pede: “…parais a construção da enésima Babel, congregando forças para edificar no bem, a fim de que a humanidade nunca perca a própria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no coração do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar.”

A Igreja tem nos lembrado de que comunicar é uma atitude propriamente humana; somente nós exercemos essa habilidade de forma profunda. Delegar essa missão inteiramente às máquinas, permitir que nossa capacidade criativa seja substituída ou perder o caminho frutuoso de crescimento que é a busca do conhecimento é nos diminuir como seres humanos, chamados a ser imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26).

O mundo das comunicações, atualmente, tem sido composto por holofotes, narrativas e hostilidades; vale tudo em troca de likes e curtidas: mentir, enganar, explorar o sofrimento humano, criar vozes, fazer mortos ressuscitarem, destruir reputações…

A pergunta que fica é: como cristãos, com base no que a mídia deveria ser, com base no que a Igreja nos orientou ao longo dos anos, qual deve ser nosso comportamento numa era em que uma boa parte da população é produtora de conteúdo?

Qual deve ser a atitude dos profissionais de mídia frente àqueles que usam do poder para manipular e com o objetivo de influenciar o maior número possível de pessoas?

Cronologia dos principais documentos da Igreja sobre a comunicação

Ao longo dos séculos, foram muitos os documentos pontifícios e pastorais que destacaram o tema das comunicações. Embora os mais conhecidos sejam os que tratam dos modernos meios, a Igreja sempre se pronunciou a respeito da importância e do bom uso dos meios de comunicação. Confira os principais:

Inter multiplices – Papa Inocêncio VIII (1487): Bula dirigida aos bispos alemães. O texto fala sobre o entusiasmo da “invenção providencial” da prensa de Gutenberg (1439) e dava algumas orientações quanto ao cuidado pastoral dos bispos em relação ao conteúdo publicado.

Vigilanti cura – Papa Pio XI (1936): Encíclica que fala sobre o cinema, sendo considerado o primeiro documento pontifício que trata dos modernos meios de comunicação além da imprensa. Não se limita a tratar dos perigos trazidos por esse meio, mas ressalta os valores e oportunidades que podem ser oferecidos por este.

Miranda prorsus – Papa Pio XII (1957): Encíclica que desenvolve o pensamento da Igreja sobre os “meios eletrônicos”: cinema, rádio e televisão. Mostra também uma análise positiva, os potenciais e as exigências pastorais que deles derivam. Os meios de comunicação têm força formativa: atingem a inteligência, a imaginação, as emoções e a conduta. Por isso, podem elevar ou deformar a sociedade.

Inter mirifica – Concílio Vaticano II (1963): É o primeiro documento de um concílio exclusivamente sobre o tema. Este decreto foi o primeiro texto da época a adotar a expressão “comunicação social”, recordando que esta deve ser considerada um processo entre seres humanos. Aborda, ainda, temas como o direito à informação, a opinião pública, a escolha livre, pessoal e responsável no lugar da censura. Quem produz informação tem responsabilidade gravíssima, porque os meios podem “conduzir a humanidade ao bem ou ao mal” ao informar e mobilizar as pessoas.
(Aqui se localiza a Central de controle do Vatican Media, antigo Centro Televisivo Vaticano, responsável pela captação de imagens e transmissões dos eventos do Papa e da Santa Sé).

Communio et progressio – (1971): Essa instrução pastoral foi elaborada pela comissão pontifícia instituída, em 1964, por São Paulo VI para atender a uma disposição do Concílio, expressa no Decreto Inter mirifica. Fruto de um longo trabalho de cooperação internacional, este documento apresenta uma orientação para as atitudes que os cristãos devem tomar perante os meios de comunicação social. Apresenta uma fundamentação doutrinal, destacando Jesus como o comunicador perfeito e a Eucaristia como a comunicação que leva à comunhão. O texto destaca os meios de comunicação como fatores do progresso humano, além de aprofundar o tema do direito à informação, a liberdade de comunicação, oportunidades e obrigações, o papel das diferentes iniciativas católicas nesse campo e a sólida formação profissional de seus agentes.

Aetatis novae – (1992): Instrução pastoral elaborada pelo Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, 20 anos após a Communio et progressio. Tem o objetivo de refletir sobre as consequências pastorais das modernas “revoluções tecnológicas”. Reforça a necessidade de uma pastoral com os profissionais dos meios de comunicação social que, frequentemente, são expostos a “pressões psicológicas e particulares dilemas éticos”. Como apêndice, apresenta elementos para um plano de pastoral para as comunicações sociais.

O Rápido Desenvolvimento – São João Paulo II (2005): Antes de falecer, o Papa nos deixou esta carta apostólica, dirigindo-se aos responsáveis pelas comunicações sociais. Ela fala sobre o discernimento evangélico e o compromisso missionário, e pede uma comunicação verídica e livre, que contribua para consolidar o progresso humano com a “força do Espírito Santo”.

O pensamento de grandes autores sobre o “Quarto Poder”

Edmund Burke: É frequentemente associado à expressão “quarto poder”. A ideia é que a imprensa, ao observar e criticar os governantes, torna-se uma força política tão relevante quanto os poderes formais do Estado.

Alexis de Tocqueville: Via a imprensa como essencial para a democracia, pois permite a circulação de opiniões, a fiscalização dos governos e a formação de uma esfera pública ativa. Mas também alertava para o risco de a opinião pública se tornar tirânica.

Walter Lippmann: Foi crítico da visão idealizada da imprensa. Para ele, a imprensa não espelha a realidade de modo neutro; ela constrói imagens simplificadas do mundo. Por isso, seu poder está em moldar a percepção pública.

Jürgen Habermas: Relaciona a imprensa à formação da esfera pública, espaço em que os cidadãos debatem assuntos comuns. O problema surge quando a imprensa deixa de favorecer o debate racional e passa a ser dominada por interesses econômicos, políticos ou publicitários.

Noam Chomsky e Edward Herman: Em Manufacturing Consent, defendem que a imprensa, em vez de fiscalizar plenamente o poder, muitas vezes reproduz os interesses das elites econômicas e políticas. Ou seja: o “quarto poder” pode virar instrumento de manutenção do poder.

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Visões dos Pontífices sobre o Papel da Imprensa

Paulo VI (Evangelii Nuntiandi): A Igreja não pode ignorar os meios de comunicação: eles são essenciais para alcançar a sociedade moderna. O poder da imprensa é também poder de evangelização e formação cultural.

João Paulo II: A mídia influencia a formação da opinião pública. por isso os comunicadores precisam reconhecer sua influência e a responsabilidade moral que ela traz.

Bento XVI: A mídia está numa encruzilhada: pode servir à verdade e ao bem comum ou virar instrumento de autopromoção, manipulação e domínio da opinião.

Francisco: O jornalismo deve combater fake news, a manipulação e a desinformação. O poder da imprensa deve ser usado para a verdade, a paz e a dignidade das pessoas, não para polarizar ou explorar fragilidades.

Elane Gomes
Membro da Comunidade Canção Nova desde 2000. Foi membro do núcleo por cerca de 16 anos e desde 2019 é membro do Segundo Elo. Casada com Rafael Coutinho e mãe da Maria Clara, do João Pedro e de um bebezinho que já está em Deus. É formada em Língua Portuguesa e Literatura, Mestra em Comunicação e Cultura Midiática e atualmente faz especialização em Sagradas Escrituras. Trabalha como Jornalista da TV Canção Nova. Atua em rádio há 25 anos.