Sem máscaras: a verdade sobre ataque a menores e a queda
Aqueles que vivem um encontro pessoal com Deus e que buscam uma vida no Espírito Santo jamais podem se descuidar no percurso. Devem ser fortes e vigilantes, como as virgens prudentes (Cf. Mt 25, 1-13) que aguardavam o noivo para as núpcias, ou, como nos ensina o Apóstolo Pedro, vigilantes, porque o “vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé” (1Pd 5,8-9a). Ou seja, não se pode jamais baixar a guarda e a vigilância. Principalmente para aqueles que são líderes do rebanho. Pois, constantemente, as investidas do inimigo são sobre estes de forma mais intensa. Deixando-os propensos a quedas em suas fraquezas, uma delas, talvez a mais vergonhosa, é a dos abusos dos menores, a que chamo também de pecado gravíssimo, porque realmente é algo que manifesta o total afastamento do estado de graça. Tais pecados deixam marcas profundas na vida do abusado. Isso nos leva a compreender que esta realidade deve ser tratada como aquilo que de fato é, e sem tentar mascará-la de modo algum. (1)

Crédito: Mary Long / GettyImages
Uma espiritualidade que se concretiza
Por isso, nossa oração pelas vítimas e também pela conversão do abusador deve converter-se em ações concretas de vigilância, para que isso não se repita. Muito menos fazer uma minimização de gravidade ou de algum modo ignorar a dor daquele que sofreu o abuso, tratando como algum tipo de carência, este seria o pior dos “deserviços” que poderíamos prestar nesses casos.
Assim proponho que, partindo de uma espiritualidade amadurecida e de uma fé alicerçada sobre a rocha inabalável, que seja, primeiro de tudo, transmitida aos fiéis uma formação de consciência capaz de levar todos a perceber os desvios de conduta, não somente dos líderes, mas de todo o povo fiel, e que tais desvios possam ser combatidos e extirpados do nosso meio. Isso significa que os diversos instrumentos também psicológicos e médicos devem ser utilizados com total força para ajudar a evitar qualquer desvio de conduta.
A espiritualidade autêntica que não é “desencarnada”, leva em consideração o homem composto por sua dimensão material, espiritual e psicológica. Inclusive neste último reside a consciência, que o Concílio Vaticano II chama de “sacrário inviolável”. E este precisa ser preservado e mantido em sua pureza de forma que, qualquer abuso, se caracteriza em um verdadeiro “ato sacrílego”.
A paróquia como hospital sagrado: um refúgio de cura e segurança
A formação se faz necessária e deve também portar uma espiritualidade que gere atos de fé capazes de transformar o ambiente paroquial em verdadeiros lugares de segurança onde qualquer pessoa que se aproxima, possa sentir-se protegida de qualquer tipo de violência. E isso se faz através de pequenos atos que manifestam a proteção e a segurança que todos desejam encontrar no espaço institucional da Igreja para que a pessoa ferida sinta-se num “verdadeiro hospital de campanha”, onde receba amparo total e seja restaurada pela ação do Espírito Santo.”
Este hospital-paróquia deve manifestar a sua capacidade de oferecer acolhimento e cuidado a todas as pessoas, sem distinções ou exclusividades a grupos, e com atenção especial aos mais necessitados de apoio. Partindo da opção preferencial pelos pobres, que a instituição seja capaz de transcender a visão puramente social ou materialista, mas adotar a perspectiva bíblica, que vê em cada ser humano fragilidades que precisam ser curadas.
Algumas ações práticas
Sim, a oração pode manifestar-se como a mais profunda ação prática, mas também, como dissemos neste texto, precisamos alargar nossa compreensão de pessoa, constituída também de materialidade e psicologia. Poderemos colocar ações práticas para o cuidado com as vítimas, evitar potenciais abusos, e garantir que seja restabelecida a justiça. Daqui brotam alguns protocolos que já se encontram implantados com excelência em praticamente todas as dioceses, como: grupos para escuta e acolhida para orientação dos protocolos para denúncias; proteção e total descrição para investigação, mantendo os casos em sigilo absoluto, proteção da divulgação de nomes ou algo do gênero; critérios rigorosos de seleção de candidatos ao trabalho em pastorais e ao ministério ordenado.(3)
Além de buscar estabelecer códigos de conduta claros para colaboradores, missionários e prestadores de serviço, a formação permanente sobre práticas e protocolos para o atendimento pessoal guarda constante vigilância, responsabilização e identificação de possíveis abusos e abusadores, inclusive aqueles de autoridade e/ou espiritual, que podem ser base para outros tipos.
Estado permanente de vigilância
Certamente, nossa fé não é destacada da realidade, mas busca santificá-la (4) para que todos conservem a semelhança do nosso Criador, e que sejam verdadeiros testemunhos da Sua Misericórdia. Este “conservar” diz respeito também à atuação dos superiores e demais lideranças, que devem estar atentos aos grupos que estão sob sua responsabilidade, bem como aos demais que possam apresentar sinais claros dessa propensão a se tornarem abusadores. A esses que atuam no serviço de autoridade, devem agir como quem deseja corrigir fraternalmente, evitando atribuir cargos e funções que possam favorecer ocasiões de queda.
Contudo, nos casos em que, porventura, venham ocorrer situações de abusos, uma vez identificadas, jamais diminuir a gravidade ou buscar contornar com soluções puramente paliativas, mas aplicar a medicina correta para a enfermidade. Por isso chama-nos a atenção a necessidade de não tolerar nenhuma atitude dúbia, por mínima que seja. Deve-se agir com fraterna caridade, para que a “vítima” seja sempre reservada e que tal situação não se repita mais. (5)
Todo este caminho está de acordo com o Segundo Mandamento, “amar o próximo como a si mesmo”. E aqui percebe-se esta íntima relação quando se busca aprofundar a compreensão da dinâmica do amor. A Igreja, como Mãe Amorosa, não poderia fechar os olhos diante de certos tipos de agressão, mas, quer permanecer prudente e vigilante para que nenhum de seus amados filhos sofra. Por isso, supliquemos em nossas orações, para que tenhamos capacidade e força para atuar contra esta triste realidade.
Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, interceda por cada um de nós, curando todos os corações feridos.
Pe Jaelson Cerqueira Santos, Diocese Teixeira de Freitas-BA, Mestre em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma.





