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O bullying pode estar mais perto de você do que imagina

Quem vê o bullying ser praticado e não faz nada, coopera com aquele que o pratica

O bullying pode ocorrer em qualquer contexto social e tem por característica ser um ato de violência física ou psicológica, feita intencional e repetidamente. Também é próprio do bullying ocorrer entre pares, isto é, entre estudantes, colegas de trabalho, grupos sociais onde não exista uma posição ou hierarquia entre o agressor e o agredido. Para todos os efeitos, eles são iguais, não existe nada que coloque o agredido numa posição de inferioridade antes do início dos ataques.

Ainda escutamos os mais velhos dizerem que isso ocorria sim, antigamente, mas ninguém se importava com zoação ou tiração de sarro. Era comum. Eu mesmo passei por umas semanas de perseguição, na quarta ou quinta série, e sobrevivi.

-O-bullying-pode-estar-mais-perto-de-você-do-que-imagina-Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

É preciso deixar claro, no entanto, que essa violência tem características e formatos novos. O bullying é mais uma consequência de uma sociedade doente, que favorece agressores e conta com nossa (sua e minha) conivência. É preciso inteirar-se do assunto e combatê-lo em nós mesmos, em nossa família, nas escolas e redes sociais.

Identifique o bullying

Isolamento, tristeza e medo de ir a determinados lugares são características de quem sofre bullying. Fique atento: filhos com materiais escolares depredados, “sumidos” ou pedindo sempre dinheiro também devem ser averiguados, pois podem estar sendo vítimas do bullying.

Se entre os meninos o bullying se manifesta de forma mais clara por ser físico e agressivo, entre as meninas a situação é bem mais complicada. O bullying se manifesta de forma velada, por meio de fofocas, exclusão e isolamento. A menina que nunca faz parte de uma turma e tem dificuldade em ser aceita em trabalhos de grupo também deve ser avaliada com cuidado.

Outra forma de identificar o bullying é estar atento às redes sociais. Além da intenção e da repetição, outra característica marcante do bullying é seu caráter público. Sem uma plateia, o bullying perde a graça para o agressor. Por isso, quem cria memes, vídeos, piadas e fofocas sobre colegas e envia por Whatsapp, publica no Facebook ou qualquer outro meio digital, é um típico agressor que quer ser aplaudido por sua “plateia”. Além da agressão em si, o que potencializa o ato é que os receptores agem como coautores e repassam a mensagem. Sejamos honestos, quem age como bully, é bully também. Quem dá um tiro em alguém não pode simplesmente alegar que não fez nada, só porque não fabricou a pistola e as balas.

O que fazer em casa?

Se seu filho pratica ou é coautor de bullyng, reveja seus conceitos. A maioria dos autores de bullying são humilhados em casa pelos adultos. Se seu filho quer se sentir poderoso à custa da opressão dos outros, o sinal de alerta tem de tocar forte em seu coração. É preciso rever e analisar de onde veio essa ideia de que o sofrimento de outra pessoa não nos interessa. Ignorar que seu filho é um agressor ou agredi-lo em casa com violência física ou psicológica só vai agravar ainda mais a situação. Temos instaurado, assim, o famoso círculo vicioso.

Se seu filho tornou-se vítima do bullyng, procure ajudá-lo. Repito: para ser bullying, precisa ser entre pares, ter intenção por parte do agressor, ser repetitivo, contar com o apoio de um grupo ou plateia e a concordância do alvo! Isso mesmo. Os estudos demonstram que o bullyng conta com o “apoio” do agredido, pois este possui uma baixa autoestima. A vítima acaba justificando os agressores e achando que não tem o direito de reclamar pois, “sou gordo mesmo”, “sou burra mesmo”, “sou feio mesmo” etc.

Autoestima

É importantíssimo estar atento aos episódios de baixa autoestima de seu filho. Procure valorizá-lo, sobretudo fazer com que se sinta amado por aquilo que ele é, com virtudes e defeitos, sem alterações. Um lar cristão, no qual se procura amar a todos como Jesus nos amou, promover e explicitar esse amor, já oferece uma blindagem contra o bullying, já minimiza o desenvolvimento de agressores e vítimas. Uns por não estarem dentro de uma família onde a lógica é o autoritarismo, e outro por ter a própria autoestima fortalecida.

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A escola tem parte no problema

Algumas escolas transferem o problema do bullying para os pais. Agressores e agredidos que se entendam. Assim como não ajuda a resolver o problema, a troca de acusações entre os pais, a acusação da escola, é que o problema é somente “de criação” e deve ser resolvido em casa, não passa de uma fuga.

A escola que identifica o bullying em suas dependências e aquelas que procuram uma educação plena de seus educandos devem tratar o assunto às claras e ser um agente ativo na erradicação do problema.

Se, em casa, os pais devem promover o diálogo, o amor incondicional, a solidariedade e a generosidade, a escola deve trabalhar os valores essenciais coletivamente. Lideranças positivas entre os alunos devem ser estimuladas, pois o líder que possui valores essenciais e uma relação de claro respeito por todos é um apoio firme ao combate de qualquer forma de violência ou desvio.

Escolas que são abertas a sugestões e reclamações dos alunos também desencorajam o bullying. Parece óbvio, mas o fato de a instituição não oprimir, rompe com a sequência do oprimido que se transforma em opressor, o que é tão comum no bullying. Onde os alunos ajudam a fazer as regras, o respeito e adesão às próprias regras aumentam. Inversamente, acaba diminuindo a chance do aparecimento de “poderes paralelos”.

Finalmente, é preciso deixar claro entre os alunos que o valentão ou a meninazinha que acha que pode decidir quem é legal e quem não é são dois coitados que precisam de ajuda. Quem assiste ao bullying precisa saber que é participante direto e está estimulando o que está acontecendo mesmo se não faz nada. Sem os aplausos e os “repasses” eletrônicos, o agressor começa a entender que não está sendo o bonzão, somente mais um carente tentando chamar à atenção.


Flávio Crepaldi

Flavio Crepaldi é casado e pai de 3 filhas. Especialista em Gestão Estratégica de Negócios, graduado em Produção Publicitária e com formação em Artes Cênicas. É colaborador na TV Canção Nova desde 2006 e atualmente cursa uma nova graduação em Teologia com ênfase em Doutrina Católica.

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