O primado da consciência

Como construir o valor do homem e a sua consciência?

Reflita sobre o valor do homem e a sua essência herdada de Deus

O valor do homem está naquilo que ele é, e a grande maravilha do seu ser está na sua “imagem e semelhança” com Deus, isto é, o homem é rico de “origem”. Todo o universo, incluindo a Terra e a beleza da natureza, é uma manifestação da glória do Senhor Onipotente. Contudo, a mais perfeita manifestação do Todo-Poderoso é a criatura humana. Cada pessoa, naquilo que ela tem de bom, é uma manifestação da glória e do poder de Deus. Alceu Amoroso Lima dizia que “o homem é a maior das virtualidades vivas”.

Na essência do seu ser, ele herdou do seu Senhor a inteligência, a liberdade, a vontade, a sensibilidade, a consciência. Esses atributos o colocam na posição de “rei” do universo, já que por meio deles submete a si toda a criação. Só ele tem “mãos” e “inteligência”. De todos esses atributos, a primazia está com a consciência, porque ela é a luz que ilumina e dirige o exercício dos demais talentos. Sem uma consciência reta, uma grande inteligência pode gerar muito mal; sem ela, a liberdade deságua na libertinagem e as demais riquezas inatas no homem podem se corromper.

Como construir o valor do homem e a sua consciênciaFoto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Ela é o espaço sacrossanto de cada indivíduo, inviolável, na qual somente ele pode entrar e “estar a sós” consigo e com o seu Senhor. A Gaudium et Spes, do Vaticano II, ensina que:

“Na intimidade da consciência, o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo, mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar o bem e a evitar o mal, no momento oportuno a voz dessa lei soa aos ouvidos do coração. É uma lei inscrita por Deus no coração do homem […] A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz” (GS 16).

O que é a consciência?

Newman, falando da consciência, afirmava:

“É a mensageira daquele que, no fundo da natureza, bem como no fundo da graça, fala-nos por meio de um véu, instrui-nos e governa. A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo”.

Santo Agostinho também nos chama a sempre voltar para ela:

“Volta à tua consciência, interroga-a. Volta, irmãos, ao interior, e em tudo o que fizerdes atentai para a testemunha, Deus” (Jo 8,9).

Por isso, se o homem destruir dentro de si este santuário íntimo e fizer calar a voz nítida desse “silêncio”, pelas motivações exigentes do exterior, ele estará destruindo o que há de mais caro e “sagrado” no seu ser. Estará se destruindo naquilo que ele é no seu “ser”, comprometendo todo o projeto da sua existência.

O mundo jamais poderá ser humano enquanto cada homem não deixar de pisotear a própria consciência. Será inócuo encher as páginas de leis e de códigos, como também será inócuo encher as ruas de policiais, enquanto a humanidade não for chamada a cultivar a consciência individual. Quem deseja reformar o mundo deve começar pela reforma da própria consciência.

Viva de acordo com seus princípios

A maior e última de todas as lições que meu pai deixou para nós seus filhos, já no fim da sua vida, como que resumindo toda a experiência acumulada, foi esta: “Filho, não faça nada contra a sua consciência!”. Jamais conseguirei esquecer essas palavras! Gostaria de repeti-las milhões de vezes para milhões de pessoas: “Não faça nada contra a sua consciência”, porque não compensa. Nem o dinheiro vil, nem o poder, a fama e o prazer, tampouco a glória, podem compensar o massacre da consciência, pois significa o massacre de si mesmo.

Lamentavelmente, é este triste espetáculo que assistimos hoje: o “massacre da consciência”. Por isso, vemos a sociedade esfacelada. Colbert dizia: “A grandeza de um país não depende da extensão do seu território, mas do caráter do seu povo”. Esse caráter é o fruto de uma consciência bem formada, a qual Pascal dizia ser “o melhor livro de moral existente; e aquele que mais devia ser consultado”.

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A maior crise da sociedade é a da consciência de cada cidadão, dos governantes e governados. Rouba-se, mata-se, corrompe-se, tapeia-se, prostitui-se, engana-se, como se as consciências estivessem mortas e como se Deus não existisse.

É a grande decadência do homem: “vendendo-se a si mesmo” pelo preço vil da satisfação dos seus baixos instintos.

Urge que se recuperem as consciências, formando-as no seio dos lares, nos bancos das igrejas e das escolas, nas ruas e nas praças, nas oficinas e fábricas. É preciso dar a elas o referencial absoluto da verdade revelada por Deus, para que elas sejam bem formadas. Para que elas não sejam laxas nem escrupulosas, terão de se alimentar da Palavra de Deus, como diz São Paulo: “viva, eficaz, penetrante, capaz de separar a alma do espírito, discernindo os pensamentos e sentimentos do coração” (Hb 4,12).

O Catecismo da Igreja Católica ensina:

“Uma consciência bem formada é reta e verídica. Formula seus julgamentos seguindo a razão, de acordo com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador. A educação da consciência é indispensável aos seres humanos submetidos às influências negativas e tentados pelo pecado a preferirem o próprio juízo e a recusar os ensinamentos autorizados. A educação da consciência é uma tarefa de toda a vida, garante a liberdade e gera a paz do coração.

Na formação da consciência, a Palavra de Deus é a luz de nosso caminho; é preciso que a assimilemos na fé e na oração e a coloquemos em prática. É preciso ainda que examinemos nossa consciência, confrontando-nos com a cruz do Senhor. ‘Somos assistidos pelos dons do Espírito Santo, ajudados pelos testemunhos e conselhos dos outros e guiados pelo ensinamento autorizado da Igreja’ (1783-1785)”.

São Paulo nos adverte que a Palavra de Deus “é útil para ensinar, para repreender, corrigir e formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra” (II Tim 3,16-17). Ela é o melhor meio para formar uma consciência reta.

“Quanto mais prevalecer a consciência reta, tanto mais as pessoas e os grupos se afastam de um arbítrio e se esforçam por conformar-se às normas objetivas da moralidade” (GS, 16).

Sem as âncoras presas em Deus, no Absoluto, nenhum homem terá uma consciência bem formada. Contudo, há que buscar o Deus único e verdadeiro; não aquele como muitos andam fazendo, hoje, criado a seu bel-prazer.

Para que não houvesse dúvida de quem Ele é, Deus se manifestou na plenitude da sua divindade em Jesus Cristo. Ele é a luz da consciência e a salvação do homem.

 


padre Anderson Marçal

Anderson Marçal Moreira é padre da Igreja Católica Apostólica Romana. Natural da cidade de São Paulo (SP), padre Anderson é membro da comunidade Canção Nova desde o ano 2000. No dia 16 de dezembro de 2007, foi ordenado sacerdote. Estudou Teologia Pastoral Bíblica-Litúrgica na Universidade Salesiana de Roma.

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