🧠 Comportamento

Da diversão ao vício - como os jogos de aposta agem em nós?

Em que momento a diversão deixa de ser diversão?

Buscando um momento de diversão e distração, tudo vai acontecendo de forma inocente e, sem que percebamos, vamos sendo tomados pela necessidade de jogar. Uma aposta entre amigos, um jogo facilmente acessível pelo celular e estimulado por influenciadores digitais e times de futebol. A promessa inclusa na propaganda é clara: você terá diversão garantida, rápida, barata e, acima de tudo, a oportunidade de enriquecer.

E olha que coisa interessante: quem não gostaria de enriquecer apostando muito pouco? Ah, mas se der errado, eu paro. E, de fato, muitas pessoas apostam e conseguem parar. Mas o que temos nos deparado é com milhares e milhares de relatos de endividamento e perda de patrimônio, problemas financeiros e outros mais.

O que era a chance de enriquecer, passa a ser uma uma fonte de expectativa, ansiedade, adrenalina e, na maioria das vezes, de sofrimento.

Pessoa segurando um celular com um jogo de apostas, representando a prática de jogos de azar pelo celular.

Crédito: luza studios by Getty Images.

O início de um ciclo perigoso

As apostas não dependem apenas da nossa vontade de ganhar. Elas podem ativar mecanismos psicológicos específicos e jamais são feitos de forma aleatória. Os jogos são construídos com detalhes cuidadosamente planejados para manter nossa atenção, despertar a expectativa de ganhar e nos incentivar a continuar apostando.

Quando apostamos, existe uma expectativa em relação ao resultado. O cérebro entra em estado de antecipação: “Será que vou ganhar?”. Essa espera pode ser estimulante. Quando ocorre uma recompensa, sentimos prazer e satisfação. E quando perdemos, pode surgir imediatamente o desejo de tentar novamente.

É aí que começa um dos ciclos mais perigosos. Ganhar pode fazer com que a pessoa queira continuar. Perder também.

Depois de uma perda, é muito comum aparecer o pensamento: “Agora eu vou recuperar”. E iniciam-se as pequenas apostas para uma tentativa maior, mas que, ao longo do tempo, somam altos valores e comprometimento financeiro.

Esse pensamento alimenta um ciclo.

Perde → tenta recuperar → aposta mais → perde novamente → tenta recuperar novamente.

E quanto maior o prejuízo, maior pode ser a dificuldade de parar.

Se formos pensar em qual conceito define essa relação com os jogos, chegamos a uma definição técnica e médica para isso:

Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Texto Revisado), o transtorno de jogos pela internet (Internet Gaming Disorder) é caracterizado por um padrão recorrente e persistente de comportamento relacionado a jogos eletrônicos, principalmente on-line, que leva a prejuízos significativos na vida pessoal, social, acadêmica ou profissional.

O que pode ser observado para entendermos que há um problema relacionado aos jogos?

Os principais critérios incluem:

Preocupação excessiva com jogos;

Sintomas de abstinência quando não joga;

Necessidade de aumentar o tempo de jogo para obter satisfação;

Tentativas fracassadas de controlar ou reduzir o tempo de jogo;

Perda de interesse por outras atividades;

Uso continuado mesmo com prejuízos evidentes;

Mentiras sobre o tempo gasto jogando;

Uso dos jogos como fuga de emoções negativas;

Prejuízos em áreas importantes da vida.

Quando o ato de apostar se torna um alívio temporário, trazendo duras consequências com o tempo

Outro aspecto importante é que não somos influenciados apenas quando ganhamos. Há um chamado nos jogos que nos faz encontrar uma questão particularmente delicada: a aposta oferece uma recompensa imediata em um mundo no qual muitas das nossas conquistas exigem tempo. Todos aqueles que nos influenciam para a continuidade no jogo nos levam a crer que é fácil, rápido, possível e barato.

Essa possibilidade que sempre fica no aspecto “quase” nos move efetivamente para um comportamento repetitivo. Aquilo que ficou no “quase ganho”, nos faz voltar a jogar para tentar de novo, porque uma nova aposta pode levar ao ganho (ou a ilusão dele).

Se você tem vivido isso, pergunte-se sinceramente porque o jogo entrou na sua vida. O que você tem buscado? Emoção, esperança, distração, reconhecimento, sensação de competência ou simplesmente uma maneira de fugir, por alguns momentos, de sentimentos difíceis? Tem trocado a vida e suas emoções pelo jogo? Quando estou triste, aposto. Quando estou entediado, aposto. Quando estou frustrado, aposto.

E, pouco a pouco, o cérebro pode aprender essa associação: “Quando me sinto mal, apostar me faz sentir alguma coisa.”

O problema é que o alívio costuma ser temporário. E este alívio temporário muda nossa relação com o jogo, com a vida, com as pessoas.

Depois podem aparecer a culpa, a vergonha, a preocupação com o dinheiro, os conflitos familiares e a necessidade de esconder o comportamento.

A pessoa pode começar a mentir sobre o quanto apostou. Pode esconder perdas. Pode pedir dinheiro emprestado. Pode utilizar recursos destinados a contas importantes. Pode comprometer o orçamento familiar.

E, muitas vezes, continua dizendo para si mesma:

“Eu consigo parar quando quiser.”

Essa frase merece atenção.

Não porque toda pessoa que aposta tenha um problema, mas porque a dificuldade de interromper o comportamento, apesar das consequências negativas, é um importante sinal de alerta.

A dependência não é simplesmente falta de caráter, irresponsabilidade ou falta de força de vontade. É um problema complexo, que envolve comportamento, emoções, aprendizagem, recompensa e contexto de vida.

Por isso pedir ajuda não deveria ser motivo de vergonha.

Às vezes, a pessoa demora a procurar ajuda porque acredita que precisa, primeiro, “resolver o problema do dinheiro”. Mas pode ser justamente o contrário: enquanto o comportamento de apostar não for compreendido e cuidado, a tentativa de recuperar financeiramente o que foi perdido pode levar a novas perdas.

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Compreender o que está por trás da vontade de apostar

A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender os gatilhos, identificar pensamentos automáticos, desenvolver estratégias para lidar com ansiedade e frustração e construir novas formas de buscar prazer, segurança e satisfação.

E a família também tem um papel importante. Não se trata de humilhar, ameaçar ou simplesmente dizer: “Pare de apostar”. É preciso estabelecer limites, proteger as finanças e, ao mesmo tempo, compreender que existe um sofrimento por trás daquele comportamento.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas:

“Por que você continua apostando?”

Talvez seja:

“O que acontece dentro de você quando sente vontade de apostar?”

Essa pergunta abre uma porta.

Se você tem vivido isso, tenha coragem de dar o primeiro passo, avaliando quanto você tem em dívidas, o que tem comprometido sua vida e o que tem acontecido contigo neste tempo. Quanto mais rápido você tiver essa consciência e essa ação, mais rápida será a forma de lidar com essa realidade e livrar-se de um mal que pode estar levando você à perda de esperança na vida.