🍽️ Convivência

O lugar da refeição na vivência da fé em família

É na família que colocamos em prática o Evangelho nas ações do dia a dia

A Igreja cristã primitiva se reunia nas casas das famílias, onde se partia o pão, se compartilhavam os bens, se faziam orações e se celebrava a Eucaristia. Essa ideia de Igreja doméstica foi bastante trabalhada no Magistério de São João Paulo II. De acordo com o Papa das famílias, “a Igreja Universal, e nela cada Igreja Particular, revela-se de maneira mais imediata e concreta como esposa de Cristo na «igreja doméstica» e no amor aí vivido: amor conjugal, amor paterno e materno, amor fraterno, amor de uma comunidade de pessoas e gerações” (Gratissimam Sane, 19).

Família reunida à mesa durante uma refeição, com as mãos dadas em oração antes da refeição.

Crédito: andreswd by Getty Images.

É na família que recebemos – ou deveríamos receber – a catequese com as primeiras noções da fé. Nela também colocamos em prática o Evangelho através das renúncias, da doação, do zelo e dos cuidados com o outro, assim como das orações para as diversas circunstâncias vividas.

Toda essa dimensão se aprofunda ainda mais quando vivemos, dentro da própria família, os mistérios da fé. Muitas vezes, os pais católicos, por receio de os filhos se sentirem forçados a seguir uma religião, caem em outro extremo: o de não lhes ensinarem a viver a fé. 

Ensina a criança o caminho que deve seguir

A palavra nos ensina o seguinte: “Ensina à criança o caminho que deve seguir, que não se afastará dele, mesmo quando envelhecer” (Pr 22,6).

Quando, desde cedo, vivemos com os nossos filhos o dia a dia da fé – incluindo grandes celebrações como  Páscoa, Natal, tempos litúrgicos ou festas importantes da Igreja –, vamos incutindo neles o gosto e o entendimento sobre o que professamos. Dessa forma, embora nem sempre consigam compreender inteiramente questões profundas da doutrina, vai sendo despertado neles o desejo de compreender, na vivência diária, as razões do que cremos e celebramos. 

O sentido da refeição na Palavra de Deus

Um momento singular para transmitir e viver a fé dentro da família é a refeição. A simbologia desse ato perpassa toda a Sagrada Escritura. Em Gênesis, vemos que Abraão, quando recebeu a visita de anjos em forma humana, preparou para eles uma refeição durante a qual os visitantes levaram ao casal idoso a promessa divina de que Sara ficaria grávida apesar da velhice. Oferecer refeição é dar ao outro acolhimento e espaço em nossa família. Também Isaque, antes de abençoar o filho que seria seu primogênito, pediu que este lhe preparasse uma refeição que precederia o momento solene da bênção.

Na cultura judaica, sentar-se à mesa com alguém para refeição significa criar vínculo. Cristo foi diversas vezes criticado por comer com pecadores e publicanos. E ele o fazia a fim de mostrar unidade com essas pessoas como fez com Levi (cf Mc 2,15-17); Zaqueu (cf. Lc 19,1-10) ou os irmãos Lázaro, Marta e Maria (Lc 10,38-42).

Foi na Última Ceia que o Senhor revelou diversos ensinamentos a Seus discípulos, anunciou a traição, deixou o discípulo amado reclinar em seu peito (cf Jo. 13) e instituiu a Eucaristia ( Lc 22), que  é, em amplo sentido, uma refeição; há nela também o significado de partilha, doação e sacrifício.

O livro de Apocalipse também fala das bodas do Cordeiro, onde um banquete aguarda aqueles que abraçaram o chamado à santidade. O reino dos Céus é, portanto, comparado a um grande banquete, festa na qual viverão os que foram salvos por Cristo. Esses são apenas alguns  exemplos de como a mesa é para os cristãos lugar e sinal de harmonia, bênção, unidade, revelação, ensinamento e oração. 

O lugar da refeição na vivência da fé em família

As famílias precisam aproveitar, todos os dias, desta riqueza de sentido da que há na refeição em comum. Apesar do ritmo frenético e de uma agenda lotada de atividades, parar e sentar-se à mesa com os nossos é uma forma de lembrarmos do que mais importa e do que dá sentido àquilo que realizamos. É o momento de reconstruir ou construir laços, de ser presença na vida de cada um, ouvir suas lutas e dores e compartilhar vivências. É ainda a oportunidade de os pais transmitirem a fé com histórias, respostas às perguntas, e (por que não?), com seu próprio testemunho de vida.

Um breve testemunho

Em casa, temos o costume de levar a catequese e o ensinamento bíblico aos nossos filhos na hora do jantar. Lemos a Bíblia, histórias de santos ou outras com ensinamentos de virtudes. Além disso, ouvimos seus relatos e buscamos com eles os ensinamentos que partem das experiências do dia.

No domingo, Dia do Senhor, nosso momento especial é a hora do almoço: mesa posta com detalhes de flores e fotos da família ou algo sobre uma data importante; além disso, comidinha feita com um pouco mais de capricho e… histórias, perguntas sobre a fé ou conversas que ajudaram em seu desenvolvimento. As crianças auxiliam a pôr a mesa  e criam brincadeiras para depois. Cada um tem o seu lugar e sua função.

Como toda família com pequenos, às vezes tem choro de quem não quer comer, birras chamadas de atenção para quem quer sair logo, a fim de brincar… Mas percebemos que eles já esperam por esses momentos e sentem falta quando falta um detalhe ou outro.

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É na família que o Reino de Céu se constrói

Precisamos redescobrir nossos lares como Igreja doméstica e acolher a refeição à mesa como espaço de transmissão de memória, identidade e fé.

Como querer que nossos filhos obedeçam a Deus se não cultivarmos essa Aliança com eles e  investirmos tempo nesse exercício?

É na família que o Reino de Céu se constrói: a fé nasce, cresce e se torna uma árvore frondosa que serve de sustento para vida e sustento no futuro.


Elane Gomes

Missionária da Comunidade Canção Nova desde o ano 2000. Professora de Língua Portuguesa, radialista e especialista em Comunicação e Cultura. Mestra em Comunicação e Cultura. Atualmente trabalha no Jornalismo da TV Canção Nova de São Paulo. Prega em encontros pelo Brasil e atua como formadora de membros da Comunidade. É esposa, mãe e trabalha também com aconselhamento de casais.