Saúde alimentar

Jejum e autoextermínio: o perigo dos excessos na era do corpo ideal

A virtude, o filtro necessário para os novos tempos

Tudo o que é em excesso sempre acabará por nos destruir. A virtude como sinal de harmonia e equilíbrio ajuda-nos a estabelecer os critérios necessários para uma vida humanamente aberta ao novo e ao bem.

Crédito: vadimguzhva /GettyImages

Depois da década dos anos 80 no século XX, o mundo acertou no espaço do desespero para responder fatidicamente ao efeito de obesidade gerado pelos novos alimentos fast. A era do micro-ondas, do rápido e gostoso entrou na sociedade pós moderna e os resultados foram cada vez mais nefastos.

Da aceitação dos anos 70 à urgência fitness

Ser gordo ou gorda até o final dos anos 70 não era um drama nem causava constrangimento; os quilos a mais não constituíam uma faixa de pessoas que aterrorizavam a população; engordar até era um certo desejo normal e assim possuir um bom estado de saúde.

Logo depois que o sedentarismo e a vida confortável dos anos 80 e 90 superaram as famosas expectativas, a humanidade criou uma resposta imediata: emagrecer é urgente. Todo tipo de bariátricas, de medicamentos e de soluções apareceram, pois o ideal era chegar aos 60 anos magros com cara de 20. O termo fitness assim como também o excesso de academias e ginásios aumentaram cada vez mais.

O jejum, entre a estética do corpo e o silêncio da alma

Algumas pessoas consideraram o jejum como uma saída imediata ao emagrecimento. Alguns, durante um tempo específico, decidiram jejuar e misturam um ideal religioso junto a uma forma estética ou sadia de evitar certos alimentos. Como professor de bioética, digo abertamente que a automedicação não será jamais benéfica! Todo processo terapêutico deve ser acompanhado por profissionais competentes que respondam suficientemente às claras exigências de cada organismo. Não podemos pensar que um jejum cuja finalidade é religiosa tenha como escopo a redução de medidas corporais. De fato, o jejum que agrada a Deus é aquele que parte do coração e mantém o silêncio da alma; onde Deus, que vê o que está no escondido, nos recompensa.

O jejum ancorado na fé não pode ter objetivos visuais ou corporais

Nenhum jejum ancorado na fé pode ter objetivos visuais ou corporais. O jejum na vida cristã fortalece nossa pessoa como um todo; faz parte da virtude da temperança e constitui um caminho de perfeição e não de compensação para poder estar bem. Algumas pessoas oferecem, nos tempos litúrgicos de Quaresma e Advento ou durante exercícios piedosos de novenas e peregrinações, uma abstinência, e acabam comentando os resultados dela especialmente quando dizem: “emagreci”. Atenção para não cairmos na antiga retribuição de ser suportados por Deus se fazemos o que nos prometemos.

Todo jejum para a glória de Deus e não a nossa

Todo jejum tem como finalidade a glória de Deus e não a nossa; por trás de cada abstinência e oferta está, em primeiro lugar, o nosso coração, que se oferece como oferenda e súplica, a fim de que a nossa própria vida seja sinal de entrega e doação.

Trabalhemos a nossa espiritualidade e desenvolvamos nossa maturidade para podermos responder ao chamado que o Senhor nos faz a diário de sermos santos; e não confundamos o real e concreto objetivo dos nossos atos de piedade que não são para compensar uma realidade sublime e alcançar um benefício imediato.

A proporcionalidade sempre será a melhor de todas as guias nas nossas vidas. Evitando os excessos, poderemos viver augusta e sadiamente.


Padre Rafael Solano

Sacerdote da arquidiocese de Londrina (PR). Mestre e doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e pós-doutorado em Teologia Moral e Familiar pelo Pontifício Instituto João Paulo II de Roma, Universidade Lateranense de Roma. Atua como consultor da CNBB setor vida e família e como professor de Teologia Moral e Bioética na PUC (PR), Campus Londrina. Autor de livros publicados pela Editora Canção Nova.