🗝️ ⚔️ Chave e Espada

Pedro e Paulo, unidos pela confissão de fé

Diferenças e parecenças

É de praxe, na época da Solenidade de São Pedro e São Paulo, uma pregação que prima por apresentar as grandes diferenças entre os dois apóstolos. A intenção é muito positiva. O intuito é mostrar como Deus pode operar portentos quando as pessoas, com as suas peculiaridades, dispõem-se a colaborar com Ele na Sua obra. Pessoas com gênios e carismas distintos, quando se abrem à graça de Deus, enriquecem a Igreja, fortalecendo-a em diferentes frentes.

Pintura de El Greco. Domínio público.

Uma abordagem diferente também é possível e até mesmo necessária. Para os membros da Igreja, importa muito mais pôr em evidência os pontos comuns do que os incomuns. Eis alguns pontos de convergência: Pedro e Paulo foram chamados por Jesus — um por meio da abordagem pessoal e física, e o outro por meio da “experiência espiritual” de escutar a voz do Ressuscitado; eram homens trabalhadores; gastaram as suas vidas por amor ao Evangelho; confessaram a fé com coragem e sofreram o martírio.

Testemunho da Escritura

A importância de ambos é posta em evidência pelo autor do livro dos Atos dos Apóstolos, que estrutura o seu escrito em duas partes: a primeira em torno de Pedro (capítulos 1 a 12) e a segunda em torno de Paulo (capítulos 13 a 28). O interessante é que esse livro apresenta os retratos da Igreja primitiva organizada em diversas comunidades e em processo contínuo de crescimento. Considerando o conjunto do escrito, Pedro está situado nos eventos que marcam o contexto da primeira organização da Igreja. Paulo, por sua vez, é apresentado no contexto de propagação do Evangelho e, consequentemente, de expansão da Igreja.

Pedro iniciou o seguimento a Jesus à beira do Mar da Galileia (Mc 1,16-18). Depois dos eventos da paixão, morte e ressurreição, Paulo também o fez no caminho de Damasco, enquanto viajava com o intuito de debelar a Igreja (At 9,1-22). Em diferentes contextos e circunstâncias, os dois foram visitados e chamados por Jesus. E as duas histórias, que começaram em lugares diferentes e de modos tão distintos, cruzaram-se e tiveram o seu ponto culminante na cidade de Roma.

Testemunho da tradição

A tradição afirma que os dois foram martirizados na capital do império: um por crucifixão e o outro por decapitação. Isso confere à Igreja de Roma um caráter singular, já reconhecido desde os primórdios. Um dos testemunhos mais remotos é encontrado nos escritos de Santo Irineu de Lyon:

“A maior Igreja, a mais conhecida e a mais antiga de todas, fundada e constituída pelos dois gloriosos apóstolos Pedro e Paulo” (Contra as heresias, Livro III, 3,2).

Santo Irineu argumenta contra os gnósticos, que afirmavam possuir ensinamentos secretos e ocultos. Para desmenti-los, o santo bispo explica que a verdadeira doutrina cristã é pública e foi transmitida abertamente pelos apóstolos aos seus sucessores, os bispos. Ele complementa dizendo que, embora pudesse listar a sucessão de bispos de todas as cidades, bastava olhar para a de Roma para provar o seu argumento. Logo no parágrafo seguinte, ele passa a listar a sucessão dos bispos de Roma desde o apóstolo Pedro, passando por Lino, Anacleto e Clemente, até chegar ao bispo que governava a Igreja na sua própria época, Eleutério.

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Testemunho da história

E quando se faz a lista histórica completa dos bispos de Roma, parte-se do apóstolo Pedro e chega-se a Leão XIV, que é o 267º sucessor do santo apóstolo. Pedro foi o primeiro bispo de Roma e, consequentemente, o primeiro Papa da Igreja Católica. Sendo assim, o bispo de Roma tem por múnus apascentar a Igreja Particular que lhe é confiada — ou seja, a Diocese de Roma — e confirmar na fé os fiéis católicos de todo o mundo, sendo sinal visível da unidade da Igreja, governada por ele e pelos bispos em comunhão com ele (cf. Lumen Gentium, 22). Ademais, ele é o guardião das relíquias dos dois santos apóstolos, guardando também a força sempre eloquente dos seus testemunhos.

Por fim, a celebração comum dos dois apóstolos acontece em Roma desde a segunda metade do século III; trata-se, portanto, de uma tradição muito antiga, que é conservada pela Igreja Católica Apostólica Romana com o intuito de atestar a sua apostolicidade e a indissociabilidade da confissão de fé de Pedro e Paulo. Na verdade, os mártires de todos os contextos da história da religião cristã, mesmo sendo tão diferentes uns dos outros, são unidos pela força das suas confissões de fé. No caso de Pedro e Paulo, a cruz e a espada foram os instrumentos para o selamento dessa união com o derramamento de sangue.

Padre Robison Inácio de Souza Santos
Diocese de Guaxupé (MG), doutorando em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.