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O milagre da mão seca e o chamado de Jesus à inclusão

A inclusão como expressão viva do Evangelho

O encontro de Jesus com o homem da mão seca nos ensina que ninguém pode permanecer apenas como espectador na comunidade. Em Cristo, toda pessoa é restaurada para viver com dignidade, pertença e missão. A inclusão não é uma concessão: é uma expressão concreta do Evangelho vivido.

O Evangelho de São Mateus 12,9-13 nos relata que Jesus entra na sinagoga e ali está um homem com a mão seca. Não se trata apenas de uma enfermidade física, mas de uma condição que o limitava social e religiosamente. Uma mão seca é uma mão que não trabalha, não produz e não participa plenamente. Aquele homem estava dentro do espaço religioso, mas sua vida permanecia marcada pela exclusão.

Créditos: AUNG MYO HTWE / Getty Images.

Em vez de se sensibilizarem com o sofrimento, alguns questionavam: “É permitido curar no sábado?” Não buscavam a vida daquele homem. Procuravam um motivo para acusar.

Quantas vezes isso ainda acontece hoje? Pessoas com deficiência estão presentes em nossas comunidades, mas continuam sem uma verdadeira participação.

Diante da armadilha dos fariseus, Jesus responde com uma imagem simples e profunda: se alguém salvar uma ovelha num dia de sábado, quanto mais deve cuidar de uma pessoa! E afirma com clareza: “É permitido fazer o bem”.

Jesus rompe uma lógica religiosa fechada em normas para revelar o coração do Pai: Deus não exclui, Deus restaura, Deus devolve a vida. Então, dirige-se diretamente àquele homem e diz: “Estende a mão”.

Do altar à ação: o chamado ao protagonismo e à missão

Jesus não faz tudo sozinho. Ele convida aquele homem a um gesto, e a cura acontece quando o homem responde ao chamado. O milagre não é apenas a mão que volta a se mover, é a pessoa que volta a ter o seu lugar.

Aquele homem deixa de ser alguém limitado à margem para tornar-se alguém capaz de agir novamente. A sua mão, antes estéril, agora pode trabalhar, servir, tocar e colaborar.

Aqui está uma imagem forte para a Igreja de hoje. A inclusão verdadeira acontece quando ajudamos cada pessoa a estender a mão, isto é, expressar seus dons, assumir responsabilidades, participar da missão e colocar sua vida a serviço do Reino.

A Igreja ensina que ninguém é chamado a uma fé passiva. O Catecismo recorda: “Os leigos, incorporados a Cristo pelo Batismo, participam, a seu modo, da função sacerdotal, profética e régia de Cristo” (CIC, n. 897). Isso significa que todos têm uma missão, inclusive, e de modo pleno, as pessoas com deficiência.

São João Paulo II reforça: “A vocação cristã é, por sua natureza, também vocação ao apostolado” (Christifideles Laici, n.17). Não existe discípulo sem lugar na missão. Não existe membro do Corpo de Cristo sem função.

Jesus sabia que seria criticado por curar no sábado. Mesmo assim, fez o bem. Também hoje, iniciativas de inclusão podem gerar estranhamento:

— “Nunca fizemos assim…”
— “Vai dar trabalho…”
— “As pessoas vão comentar…”

Mas o critério de Jesus nunca foi a aprovação social. Foi sempre o amor que devolve a vida. Uma comunidade verdadeiramente evangélica não pergunta: “O que vão pensar?”, mas pergunta: “O que precisamos fazer para que todos possam participar?”.

Leia também outros artigos da colunista Cynthia Santos:
.:Uma reflexão sobre a inclusão na Igreja
.:Onde a solidão encontra misericórdia

Quando a Igreja permite “estender a mão” é quando uma paróquia:

  • adapta sua catequese;
  • favorece a acessibilidade;
  • convida para ministérios e serviços;
  • reconhece capacidades em vez de limitações.

O homem do Evangelho não apenas foi curado, ele foi reintegrado. Sua mão restaurada é sinal de que agora ele pode agir, colaborar e construir junto. Assim acontece conosco: quando Cristo nos alcança, podemos viver um movimento que consiste em: encontrar Cristo, experimentar a restauração, descobrir o nosso lugar e servir com alegria.

São João Paulo II recorda: “Os fiéis leigos são chamados por Deus para contribuir, a partir de dentro, para a santificação do mundo” (Christifideles Laici, n. 15).

O homem da mão seca entrou na sinagoga como alguém limitado, e saiu restaurado, capaz de agir novamente. Assim deve acontecer em nossas comunidades: ninguém deve ser reduzido à condição de espectador, impedido de colaborar ou deixado à margem.

Que nossas paróquias sejam lugares onde todos possam ouvir, no mais íntimo do coração: “Estende a mão!”, e possam responder, com sua vida e seus dons: “Senhor, aqui estou. Quero servir”.

Sobre a autora:
Cynthia Santos é mestre em Comunicação Acessível pelo Instituto Politécnico de Leiria e licenciada em História pela PUC-MG, católica comprometida com a evangelização, com trajetória dedicada à comunicação, cultura e inclusão. Com experiência internacional em países como Portugal, Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha, destacou-se como Produtora Criativa do programa “Mãos que Evangelizam” (TV Canção Nova) e integrou, em Portugal, o marketing do Essence Inn Marianos (Fátima), primeiro hotel acessível do país. Atualmente, vive em Portugal e atua com formação e consultoria em acessibilidade.