Atualidade

Onde a solidão encontra misericórdia

Solidão no meio da multidão: “Não tenho ninguém…”

O Evangelho de João (5,1-16) nos apresenta o encontro de Jesus com um homem paralítico junto ao tanque de Betesda. Ali, havia uma multidão. Muitos enfermos, cegos, coxos e paralíticos se reuniam esperando uma chance de cura, mas, no meio de tanta gente, havia um homem que carregava uma dor ainda maior do que a deficiência física: a solidão.

Crédito: sean zheng lim / GettyImages

Ele diz a Jesus: “Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque…” (Jo 5,7). Que triste realidade ele vivia! Ele estava cercado de pessoas, mas não tinha quem o ajudasse; ele estava no meio da multidão, mas permanecia invisível; estava tão perto da esperança, mas excluído do acesso. Olhando para esse Evangelho, uma pergunta vem à mente: Quantas vezes, dentro da sociedade e até dentro da Igreja, pessoas com deficiência continuam vivendo assim? No meio da comunidade, mas sozinhas; presentes, mas sem espaço; vistas, mas não acolhidas; incluídas fisicamente, mas excluídas na dignidade.

O Evangelho diz: “Vendo-o deitado e sabendo que havia muito tempo que estava enfermo…” (Jo 5,6). Jesus enxergou aquele homem, Ele não passou apressado, Ele não o ignorou, não fingiu que não o viu. Jesus então se aproxima e pergunta: “Queres ficar curado?” Essa pergunta é cheia de respeito. Jesus não impõe, Ele convida e reconhece, naquele homem, uma pessoa, não um problema.

Aqui está o coração de uma Igreja de portas abertas

A inclusão começa quando olhamos o outro com dignidade e não com pena. O “Levanta-te” é a cura que reintegra e devolve o lugar. Jesus então ordena: “Levanta-te, toma o teu leito e anda.” (Jo 5,8). Repare: Jesus não apenas o cura, Jesus o reintegra quando o manda carregar a sua maca, como sinal de que, daquele momento em diante, ele volta a caminhar com autonomia e dignidade. Aquele homem, antes parado à margem, agora está em movimento no centro da vida. Jesus o inclui novamente na sociedade, mas logo surgem críticas: “É sábado, não te é permitido carregar o teu leito” (Jo 5,10). Mais uma vez, vemos que o bem incomoda. Sempre haverá vozes que preferem a regra ao amor, a aparência à misericórdia, o costume à inclusão. Veja que Jesus não se detém diante dos comentários, e Ele faz o que é justo, faz o que é humano e faz o que é divino: acolher.

O Evangelho é um chamado para nós. Como incluímos as pessoas com deficiência na comunidade paroquial? Hoje, não precisamos esperar um tanque milagroso. Podemos ser, na Igreja, o espaço de acolhimento e participação. Podemos incluir uma pessoa com deficiência de forma concreta:

Dando voz;
Dando lugar;
Oferecendo acessibilidade;
Confiando serviços e ministérios;
Reconhecendo dons e talentos;
Permitindo participação ativa na comunidade.

A pessoa com deficiência não é apenas destinatária de cuidado, mas sujeito de missão

Ela também evangeliza, ela também serve, ela também tem um lugar no Corpo de Cristo. Que nossas paróquias sejam comunidades onde ninguém precise repetir a frase daquele paralítico: “Eu não tenho ninguém…”

Que sejamos Igreja de portas abertas, onde todos tenham espaço, dignidade e pertença. E que, como Jesus, não tenhamos medo dos comentários, porque incluir é fazer o bem. Levantar o irmão é Evangelho.

Cynthia Santos é mestre em Comunicação Acessível pelo Instituto Politécnico de Leiria e licenciada em História pela PUC-MG, católica comprometida com a evangelização, com trajetória dedicada à comunicação, cultura e inclusão. Com experiência internacional em países como Portugal, Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha, destacou-se como Produtora Criativa do programa “Mãos que Evangelizam” (TV Canção Nova) e integrou, em Portugal, o marketing do Essence Inn Marianos (Fátima), primeiro hotel acessível do país. Atualmente, vive em Portugal e atua com formação e consultoria em acessibilidade.

Contacto: Cynthiadecassiasantos@gmail.com
| Instagram: @cynthiacrsantos