Pedagogia e prevenção contra a exploração e o abuso infantil
Combater e prevenir a exploração e o abuso infantil são responsabilidades de todos nós enquanto cidadãos, de certo que essa é uma necessidade que não se restringe a um período específico, todavia, no mês de maio, a sociedade brasileira é chamada a essa atenção voltada à criança e ao adolescente.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no artigo 5º, afirma que “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão […]”. A proteção da criança e do adolescente é um dever comum da família, da sociedade e do Estado.

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A responsabilidade compartilhada
A família exerce um papel primordial na proteção do menor, pois é no seio familiar que a criança cresce e recebe o sustento, a proteção, a garantia de saúde e educação, o afeto e o cuidado. A sociedade vela em proteger a dignidade da criança quanto a qualquer tipo de exploração ou exposição inadequada. O Estado cuida de prover e manter leis, políticas públicas e órgãos competentes que garantam a proteção do menor.
Transformando o ensino em um porto seguro
E a escola, onde e como ela atua em favor da prevenção e do combate à exploração infantil? A escola, além do ensino que presta, é também lugar de proteção e cuidado, uma extensão do lar, um trabalho de parceria com a família em favor do crescimento e desenvolvimento sadio de seus estudantes.
Contudo, às vezes, o educador se encontra sobrecarregado devido à demanda de trabalho. Engana-se quem pensa que o professor de Educação Infantil e Anos Iniciais só brinca ou faz trabalhos manuais. Sim, o brincar é essencial dentro do espaço educativo, pois é no brincar que a criança se revela e traz à tona o que não sabe expressar muito bem com suas palavras.
A intencionalidade no ensinar
Os trabalhos manuais são tão importantes quanto o brincar, porque, além de enriquecerem o repertório da criança, desenvolvem habilidades cruciais em seu crescimento. Não é só “rasgar” um papel ou passar o dedo na cola; tudo isso corresponde à intencionalidade que prepara para a escrita, para o raciocínio, para a concentração. As demandas do educador vão além das atividades planejadas: elas envolvem relatórios, atendimentos, formação continuada, pesquisa constante, metas educacionais, calendário a se cumprir etc.
O olhar atento do educador sob a luz da caridade
Em meio a tudo isso, há o grande risco de a sobrecarga tirar do educador o olhar atento que percebe as nuances de um comportamento que muda. Aquela criança que vai ficando cada vez mais calada, que aparenta tristeza ou se amedronta com qualquer coisa, que se ausenta com mais frequência, que demonstra agressividade nas interações, no falar com os colegas ou na atitude reativa quando uma ordem lhe é dada.
A importância de um espaço seguro e de acolhimento
É no espaço seguro de acolhimento, respeito e apreço ao vínculo que a criança poderá reconhecer-se e que o educador poderá perceber que algo está fora do comum. É o olhar atento que busca conhecer e desvendar a beleza de cada estudante, que será capaz de notar quando algo mudou ou não vai bem.
É o desejo sincero (e a criança percebe e sente) do cuidador de dialogar, querer ouvi-la, apreciá-la; e quanto mais a criança se sente segura e aceita nesse ambiente, mais livre ela é em mostrar-se. E aqui, meu caro, o brincar, a musicalidade, o manejo de materiais intencionais faz total diferença!
A prevenção e o papel da escola
É dever da escola observar os seus estudantes, buscar aproximação com a família, manter diálogo com os responsáveis. É também seu dever comunicar junto aos órgãos competentes quando há suspeita de omissão, violência ou negligência familiar, e isso não é perseguição – é compromisso, é responsabilidade social. O espaço escolar é um local privilegiado, pode e deve ser usado para combater a exploração e o abuso infantil; é claro que se tratando de crianças, proteger a infância e sua pureza é importantíssimo!
Educar na missão de guardar a infância
Quando, na escola, trabalhamos com a criança a corporeidade e a consciência de ser criada à imagem e semelhança de Deus, de sua identidade enquanto pessoa digna, bela e irrepetível, de seu espaço pessoal composto de limites, é urgente não contaminar o momento de educar para prevenção com vulgaridades, com palavras, termos, gestos que não guardam a infância e podem acarretar em precocidade. É preciso conservar a beleza e o mistério que é a própria sexualidade.
No trabalho da prevenção ao abuso infantil, é preciso recordar que a criança está num tempo e momento diferente do nosso, mesmo que seja exposta a conteúdos ou situações adultas, ela ainda é criança e não possui maturidade humana para ordenar seus sentimentos, imaginação, medos, e tirar conclusões razoáveis disso.
A coragem em educar para o bem, o bom e o belo
Na Pedagogia, acreditamos que cada criança é única e tem seu ritmo, seu processo, seu jeito de aprender e corresponder ao que lhe é pedido, por isso o cuidado com “fórmulas” prontas, sequência de imagens ou de frases de efeito para ensinar a prevenção é essencial. Há estratégias próprias para momentos coletivos e momentos individuais, e é o olhar atento de quem educa de perto, amparado pela gestão e equipe colaborativa escolar, que saberá qual o melhor caminho a ser trilhado com cada turma.
Nossas crianças merecem e precisam de espaços educativos que as guardem, que as protejam, ensinem e ajudem a compreender noções de respeito a si e ao outro, noções de segurança, de privacidade, de limites.
Que, como educadores, tenhamos essa coragem de educar para o bem, o bom e o belo.
Mirella Abib Ferraz
Missionária da Comunidade Canção Nova desde 2.007. É natural de São Paulo (SP), casada e mãe. Formada em Pedagogia pelo Centro Universitário Salesiano, com pós-graduação em Neurociência aplicada à Educação. Exerce sua missão desde 2.012 no Instituto Canção Nova. Dentre as atividades realizadas, integrou a equipe de projetos pedagógicos, foi monitora Teen Star (programa de Afetividade e Sexualidade Humana Personalista). Atualmente, compõe a gestão escolar junto aos anos finais e Ensino Médio.






