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São Bernardino de Siena: um devoto pregador do Santo Nome de Jesus

A vida e a trajetória de São Bernardino de Siena

São Bernardino de Siena nasceu em Massa Marítima, em 8 de setembro de 1380, e faleceu em Áquila, em 20 de maio de 1444. Era filho da nobre família Albizeschi, mas, quando tinha apenas três anos, ficou órfão de mãe. Pouco tempo depois, quando estava com seis anos, perdeu seu genitor. Foi criado, então, por piedosas tias. Destacou-se como um notável pregador e missionário franciscano, conhecido como “Apóstolo da Itália”. Seu destaque ocorreu em seu próprio tempo, diante de suas fortes pregações em praças e igrejas, por exemplo, contra o infanticídio, a feitiçaria, as apostas e a usura, dentre outras (Thureau-Dangin, 2022). Além disso, ele é conhecido por ser um dos maiores propagadores da devoção ao Santíssimo Nome de Jesus.

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Foi também um sistematizador da economia escolástica. Cursou direito civil e canônico, e, em 1397, logo após o término dos estudos, vinculou-se à Confraria de Nossa Senhora, ligada ao grande hospital de Santa Maria della Scala em Siena. Junto de outros companheiros, assumiu toda a administração do hospital por quatro meses. Apesar de muito jovem, Bernardino se provou muito apto para tal cargo, porém, o trabalho incessante por ele empregado abalou sua saúde, de tal forma que não se recuperou completamente. Três anos depois, a peste negra voltou a tomar as ruas de Siena. Então, ele abandonou sua vida de oração e reclusão para cuidar dos enfermos.

A vocação franciscana e a profecia de São Vicente Ferrer

Depois de distribuir seu patrimônio para a caridade, São Bernardino recebeu, em Siena, o hábito dos Frades Menores, no dia 8 de setembro de 1402, e logo se retirou para o convento observantino de Columbaio, localizado fora da cidade. Foi professado em 8 de setembro de 1403 e ordenado sacerdote em 8 de setembro de 1404. Por volta de 1406, São Vicente Ferrer, enquanto pregava em Alexandria, predisse que seu manto deveria descer sobre aquele que o estava ouvindo. Além disso, disse que ele voltaria à França e à Espanha, deixando a São Bernardino a missão de evangelizar os restantes povos da Itália.

O pioneirismo no pensamento econômico e a ética comercial

São Bernardino também desenvolveu um significativo pensamento econômico. Foi o autor da obra “De contractibus et usuris” (“Sobre o contrato e a usura”), na qual condena a usura e, ainda, aborda temas de justificação da propriedade privada, da ética comercial e da determinação de valor e preço das mercadorias. Ele analisou a figura do empresário com grande profundidade e defendeu seu trabalho honesto, afirmando que a atividade comercial, como todas as outras, pode ser praticada tanto de maneira lícita quanto ilícita, não sendo, pois, necessariamente uma fonte de condenação. Para o santo, os empresários honestos prestam serviços muito úteis a toda a sociedade, na medida em que corrigem a escassez de mercadorias, transportando-as de áreas onde são abundantes, estocam mercadorias, o que limita os danos de possíveis fomes e transformam materiais brutos e inúteis em produtos processados úteis.

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As virtudes do empreendedor e a luta contra a usura

Para São Bernardino, os empreendedores deveriam ser dotados de quatro grandes qualidades: eficiência, responsabilidade, diligência e capacidade para assumir riscos. Por um lado, dizia que os ganhos auferidos por aqueles que foram capazes de cumprir essas qualidades seriam a recompensa certa pelo trabalho árduo e pelos riscos assumidos nos negócios. Por outro, ele condenava os empresários que não investiam em novos negócios e preferiam emprestar dinheiro a juros altos, endividando a sociedade em vez de ajudá-la a se desenvolver. Os agiotas o trataram com hostilidade, chegando a denunciá-lo por heresia.

Não obstante sua popularidade, ou, talvez, por causa dela, São Bernardino sofreu oposição e perseguição. Ele foi acusado de heresia, pois as tábuas que usara para promover a devoção ao Santo Nome de Jesus serviram de base para um astuto ataque dos adeptos do dominicano Manfredo de Vercelli, cuja pregação sobre o anticristo São Bernardino havia combatido. O santo foi acusado de ter introduzido uma nova devoção, supostamente profana, expondo o povo ao perigo da idolatria. São Bernardino foi convocado para comparecer perante o papa em 1427.

O Papa Martinho V recebeu Bernardino com frieza e o proibiu de pregar ou mesmo exibir suas tábuas, até que sua conduta fosse avaliada. O santo se submeteu, de maneira humilde, à deliberação papal, tendo seus sermões e escritos sido entregues a uma comissão. Seu julgamento foi marcado e aconteceu na Basílica de São Pedro, na presença do Papa, no dia 8 de junho, com São João Capistrano ficando encarregado da defesa do santo. A inconsistência das acusações contra Bernardino foi tão completamente demonstrada que o Papa não apenas elogiou o ensinamento do santo, mas também o exortou a pregar em Roma.

O mesmo Papa Martinho V, depois, aprovou a escolha de Bernardino como Bispo de Siena. O santo, contudo, declinou de tal homenagem, assim como das sedes de Viterbo, Ferrara e Urbino, as quais lhe foram oferecidas em 1431 e 1435, respectivamente, dizendo que toda a Itália já era sua diocese. Após a ascensão do Papa Eugênio IV, os inimigos de São Bernardino renovaram suas acusações contra ele, mas o Sumo Pontífice, através de uma bula, de 7 de janeiro de 1432, anulou os procedimentos caluniosos contra o santo.

Em 1437, tornou-se o supervisor das comunidades de franciscanos de observância rigorosa. Em 1438, foi nomeado como Superior Geral de todos os franciscanos na Itália. São Bernardino é tido como um dos maiores pregadores e propagadores da devoção ao Santo Nome de Jesus.

Por onde passava, São Bernardino persuadia as cidades a retirarem as armas de suas facções beligerantes das paredes das igrejas e dos palácios e a inscreverem nesses lugares, em vez disso, as iniciais JHS. Assim, ele deu um novo impulso e uma forma tangível à devoção ao Santo Nome de Jesus, que sempre foi um assunto de sua predileção e que ele considerava um meio potente de reacender a fé popular.

Ele costumava segurar uma tábua à sua frente durante a pregação, com o monograma sagrado pintado nela. Em seguida, ela era exposta à veneração. Em Bolonha, São Bernardino induziu um pintor de cartas, que havia sido arruinado por seus sermões contra os jogos e apostas, a ganhar a vida projetando as tábuas com o monograma. Tal era o desejo da população de possuí-las que o pintor conseguiu sua recuperação econômica. A reivindicação do ensinamento de São Bernardino foi perpetuada na Festa do Santo Nome de Jesus, concedida aos Frades Menores em 1530 e estendida à Igreja Universal em 1722.

Após seu óbito, começaram os relatos de incontáveis milagres, advindo sua canonização em 1450 pelo Papa Nicolau V, após apenas seis anos. Sua festa litúrgica é celebrada no dia de sua morte, 20 de maio. Ele é o padroeiro da comunicação, dos vícios em jogos e dos problemas respiratórios. O Papa João Paulo II destacou sua missão como apóstolo do nome de Jesus e defensor da doutrina cristã. Em 2021, o Papa Francisco recebeu um raro manuscrito do século XV de São Bernardino, destinado à Biblioteca Apostólica do Vaticano.

Marcius Tadeu Maciel Nahur
Natural de Lorena (SP), Coordenador do Curso de Filosofia da Faculdade Canção Nova. Formado em Direito, História e Filosofia. Mestrado em Direito com ênfase na Filosofia de Henrique Cláudio de Lima Vaz. Delegado de Polícia Aposentado.

Referências
SIENA, Bernardino da. De contractibus et usuris. Delhi: Facsimile Publisher, 2006. 336 p.
THUREAU-DANGIN, Paul. Saint Bernardine of Siena. New York: Legare Street Press, 2022. 308 p.