O Primeiro Papa norte-americano, com uma alma latino-americana
Há um ano, em 8 de maio de 2025, o mundo conhecia o 267º Papa da história da Igreja: eleito no Conclave por seus irmãos cardeais, o norte-americano Robert Francis Prevost escolhia para si o nome de Leão XIV. Apresentando um “currículo” que se poderia considerar quase completo, desde sua primeira aparição na sacada da Basílica de São Pedro, sua figura chamou a atenção por uma característica singular: a capacidade de unir, em sua própria vida e experiência pastoral, realidades diversas. Nascido nos Estados Unidos, mas especialmente influenciado por sua missão no Peru, Leão XIV surgiu não somente como o primeiro Papa norte-americano, mas também como um pastor com uma alma latino-americana.

Edgar Beltrán, The Pillar, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Esse traço ficou evidente já em suas palavras iniciais. Ao dirigir-se, em espanhol, à sua “querida Diocese de Chiclayo”, durante a bênção Urbi et Orbi no dia da eleição, Leão XIV ofereceu um sinal claro de proximidade com a América Latina e com uma Igreja que acolhe as mais diversas culturas e línguas. Não se tratava apenas de uma escolha linguística – como mais tarde se tornaria manifesto –, mas da confirmação de um estilo: seu pontificado nascia sob o selo do encontro e da comunhão.
Alguns pontos próprios do governo de Leão XIV
Neste artigo, delineamos uma breve e despretensiosa reflexão – necessariamente parcial e jamais exaustiva – sobre o ano inaugural do atual pontificado. Convém, porém, fazer uma ressalva: sublinhar alguns pontos próprios do governo de Leão XIV não significa, de modo algum, desmerecer o antecessor, reduzir sua importância ou optar por um juízo negativo diante de sua herança. Pelo contrário, significa reconhecer que cada Sucessor de Pedro possui seus acentos, sua linguagem, sua tarefa histórica, enfim, sua própria grandeza. Destacar as semelhanças entre Francisco e Leão XIV, nesse sentido, acentua ainda mais o valor do caminho iniciado pelo Papa argentino. Afinal, todos os Pontífices recebem a mesma tarefa elementar – confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22, 32) –, mas a realiza a partir de seu contexto cultural, de sua formação, de sua sensibilidade espiritual e dos desafios concretos do tempo em que é convocado a servir.
A partir dessa abordagem, torna-se possível contemplar a figura de Leão XIV sem reduzi-la a contraposições simplistas e estéreis. O novo Papa não aparece como ruptura radical, mas como um tipo de extensão do pontificado bergogliano e, mais amplamente, do trabalho de evangelização desenvolvido pelos fiéis ao longo dos séculos. Não se apresenta como negação de um percurso precedente, mas como expressão de uma nova etapa no mesmo serviço eclesial. Nele, percebe-se desde o começo o desejo de integrar continuidade e originalidade.
Um Pontificado marcado pela comunhão, escuta, tradição, missão, espiritualidade
Assim sendo, os primeiros doze meses de Leão XIV como Pastor da Igreja universal encarnam de maneira expressiva o significado do termo “pontífice”, entendido, segundo uma etimologia clássica, como “aquele que constrói pontes”. Sua própria história estabelece uma ligação de âmbitos bastante heterogêneos. A origem estadunidense, em um país que continua a ser considerado nos dias de hoje como a maior potência econômica e militar do planeta, não o impediu de dedicar boa parte de sua vida à América do Sul, particularmente no Peru, com todas as suas feridas e desafios. Foi ali que exerceu uma parte decisiva de seu ministério missionário e episcopal.
Ademais, Leão XIV obteve o doutorado em Direito Canônico com uma tese sobre o papel do Prior local na Ordem de Santo Agostinho – tema diretamente ligado à estrutura de administração da ordem religiosa – e, posteriormente, foi ele próprio Prior Geral dos agostinianos, exercendo importantes cargos de governo. A isso se soma, naturalmente, sua vivência como bispo diocesano. Todos esses elementos evidenciam a dimensão institucional, jurídica e hierárquica de sua trajetória. Contudo, no ministério de Papa Prevost, essa dimensão se realiza sob a marca do carisma missionário, da abertura à criatividade do Espírito Santo e da proximidade com a realidade concreta do povo, com a evangelização quotidiana e com comunidades afetadas por sérios desafios sociais e pastorais, como a violência, a falta de trabalho e todas as consequências do subdesenvolvimento. É uma combinação que não é secundária. Ela ajuda a compreender como seu pontificado vem se apresentando: firme na comunhão entre os membros do Corpo de Cristo, atento aos sinais do Espírito; enraizado na tradição, aberto à missão; consciente da constituição visível da Igreja, sensível à sua vitalidade espiritual mais profunda.
A solução de desavenças internacionais e a predileção pela força do Direito
Voltando-nos mais diretamente para o pontificado, essa síntese de novidade e continuidade mostra-se também, até agora, em seus discursos e homilias, sobretudo quando Leão XIV aborda o tema da paz. No já referido primeiro pronunciamento como Papa, o Pontífice norte-americano tocou o coração do mundo ao pedir uma paz “desarmada e desarmante”. Essa lição continuou a reverberar ao longo de suas intervenções posteriores. A guerra na Ucrânia e os embates envolvendo o Irã constituíram ocasiões para testemunhar a insistência de Leão XIV nos apelos pelo fim das hostilidades feitos pelo Papa Francisco, frequentemente citado pelo atual Pontífice. Foi possível acompanhar, além disso, a firmeza com que ele se posicionou contra o uso indiscriminado da força e contra ações que ultrapassam os limites estabelecidos pelo direito internacional, considerando como “inaceitáveis” as ameaças de eliminação dirigidas contra populações inteiras. Reafirmava, assim, a função do multilateralismo e das relações diplomáticas para a solução de desavenças internacionais e a predileção pela força do Direito em vez do direito da força.
Nesse ponto, Leão XIV se insere claramente no desenrolar daquela responsabilidade da Igreja, que não pode deixar de proclamar Cristo como nossa paz, mas o faz com linguagem e ênfase próprias, plasmadas pela consciência dos verdadeiros dramas da sociedade atual. Os seus ensinamentos sobre este aspecto revelam, outrossim, não só uma preocupação social, mas uma decidida convicção sobrenatural: a paz genuína procede de Deus e se torna componente indispensável do apostolado confiado à comunidade eclesial e a cada cristão individualmente.
Leão XIV : o seu cristocentrismo
Aqui, emerge uma nítida ressonância agostiniana. Em A Cidade de Deus, o santo Bispo de Hipona distingue a cidade terrena, marcada pelo amor de si levado até o desprezo de Deus, e a cidade de Deus, fundada no amor divino levado até o esquecimento de si. A paz autêntica, portanto, não se reduz à ausência de conflitos ou à estabilidade das instituições humanas – embora estas sejam imprescindíveis –, mas advém da reta ordenação dos amores. Quando o coração humano, reconciliado com Deus na Páscoa do seu Filho, é curado em sua raiz, torna-se também capaz de construir relações reconciliadas com os outros.
Essa perspectiva dá margem para uma chave de leitura primordial do pontificado de Leão XIV até o momento: o seu cristocentrismo. Desde suas primeiras palavras, o Papa tem proposto Cristo ressuscitado como fonte da concórdia entre as nações e fundamento da comunhão do Povo de Deus. “A paz esteja com todos vós!”, foi a expressão pascal que abriu o pontificado. A paz preconizada por ele não é resultado apenas de uma estratégia diplomática, mas do encontro com Aquele que, vencendo o pecado e a morte na cruz, reconcilia o gênero humano com o Pai e torna possível uma forma renovada de relação entre os homens.
O núcleo teológico de seu papado: “N’Aquele que é um só, somos um”
Mais ainda, o caráter de unidade e comunhão que distingue o pontificado de Leão XIV pode ser traduzido por seu lema episcopal: In Illo uno unum. A expressão, tomada de Santo Agostinho, significa: “N’Aquele que é um só, somos um”. Aqui se encontra, em chave agostiniana, o núcleo teológico de seu papado, ou seja, a unidade da Igreja e da humanidade não como uniformidade imposta, mas como fruto da comunhão radicada em Jesus ressuscitado.
Por fim, uma última anotação é a constatação de que Leão XIV retomou práticas e sinais presentes em pontificados anteriores, dos quais Francisco havia prescindido em grande medida. Entre eles, podem ser mencionados o uso de alguns itens tradicionais das vestes pontifícias, a mudança para o Palácio Apostólico como moradia oficial e a retomada de Castel Gandolfo como residência de verão e de descanso semanal. Esses e outros elementos, todavia, não devem ser interpretados de modo superficial ou ideológico. Mais do que simples retorno exterior a formas do passado, parecem indicar uma tentativa de harmonizar sobriedade evangélica, consciência institucional e continuidade simbólica com a tradição da Sé de Pedro.
A Exortação Apostólica Dilexi te, dedicada ao amor pelos pobres
Ao mesmo tempo, o Papa não teve receio de reafirmar a opção preferencial pelos pobres, conceito intimamente associado à Igreja latino-americana, em uma escolha que o faz seguir os passos de Francisco. O seu primeiro grande documento magisterial, a Exortação Apostólica Dilexi te, dedicada ao amor pelos pobres, confirmou que a caridade, a justiça social e a atenção aos mais vulneráveis permanecem como uma das prioridades do horizonte pastoral e teológico de seu pastoreio. Trata-se de um projeto preparado por Francisco nos últimos tempos de sua vida, mas que Leão XIV assumiu com alegria como próprio, acrescentando-lhe a peculiaridade de sua sensibilidade e o seu conhecimento de fé.
Sendo assim, penso que estes poucos e limitados elementos aqui demarcados sejam suficientes para justificar a compreensão de que, neste primeiro aniversário, o pontificado de Leão XIV pode ser concebido sobretudo a partir da unidade e da comunhão. Por isso, ao recordar aquele 8 de maio, celebramos não só a eleição de um Papa, mas o início de um ministério chamado a unir realidades que muitas vezes aparentam estar distantes. Leão XIV surge como um pontífice capaz de falar a mundos diversos, sem deixar de apontar para aquilo que permanece no centro da missão de todo batizado: anunciar Cristo, servir à comunhão e oferecer a todos uma mensagem de paz.
Pe. Crisônio Vieira de Souza – Arquidiocese do Rio de Janeiro, Doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz de Roma




