Santo Atanásio de Alexandria: o defensor da fé
Santo Atanásio de Alexandria, o autor da “Vida de Santo Antão”, é o insigne patriarca de Alexandria. Ele nasceu cerca do ano 295. Em 325, como diácono, acompanhou o patriarca Alexandre, seu predecessor, ao Concílio de Niceia, onde foi condenada a heresia ariana. Foi consagrado bispo de Alexandria a 8 de junho de 328.
Toda sua vida pastoral foi envolvida pela controvérsia e lutas desencadeadas pelo arianismo, constituindo-se ele um dos baluartes da verdadeira fé proclamada pelo Concílio de Niceia. Por vezes, foi desterrado de sua sede sob os imperadores Constantino, Constâncio, Juliano e Valente. Entre 335 e 337, esteve em Tróvoris; entre 339 e 346, em Roma, os três últimos desterros, ele os passou no deserto do Egito: 356-362, 362-363, 365-366. De volta a Alexandria, morre em 373.

Santo Atanásio de Alexandria.
Nada se sabe sobre sua formação, seus mestres e seus estudos. Segundo seu próprio testemunho, alguns de seus mestres morreram durante as perseguições; em consequência, eram cristãos. Em todo caso, seu âmbito era a Igreja. Sem qualquer vacilo, entrega-se a seu serviço e à sua defesa. Parece ser mais copta do que grego. Fala e escreve copta. Conhece seu povo, pois dele provém. Sua comunidade sempre o apoia, mesmo diante de todas as turbulências de sua vida agitada. Dos quarenta e cinco anos de sua atividade episcopal, passou quase vinte no desterro.
A produção literária e o combate ao arianismo
Seu propósito não era produzir literatura, mas apenas ensinar e persuadir. Fora de um escrito em duas partes (Contra os pagãos e Sobre a encarnação do Verbo), redigido em seus tempos de diácono do patriarca Alexandre, a maioria de suas obras teológicas se dedicam a rebater o arianismo e defender a fé nicena. Nelas predomina o tom polêmico, chegando à ironia (Três sermões contra os arianos, Apologia contra os arianos, Apologia ao imperador Constantino, Apologia sobre sua fuga, História dos arianos para os monges).
Entretanto, Santo Atanásio foi também pastor de almas. Muitas de suas obras foram perdidas, especialmente, seus comentários à Sagrada Escritura. Entre seus escritos sobressaem suas cartas pastorais pascais e um tratado sobre a virgindade. Santo Atanásio não foi monge, porém, ocupa lugar de destaque nas origens do movimento monástico. Sua vida, como a de todos os Padres da igreja do século IV, foi ascética. Ainda que seus estudos, segundo o testemunho de São Gregório Nazianzeno, não tenham sido muito amplos, possuía ele um grande domínio da Sagrada Escritura.
A aliança com o monaquismo e Santo Antão
Desde muito cedo parece ter mantido relação com os monges, particularmente com Santo Antão. Dois discípulos deste o acompanharam em seu desterro a Roma em 339, e entre os monges buscou e encontrou colaboradores durante seu embate contra o arianismo, confiando a alguns deles sedes episcopais. Todas suas relações de amizade e mútua compreensão por parte dos monges tornaram-se mais sólidas e profundas durante os três últimos desterros do bispo, na Tebaida e entre os monges pacomianos.
Diante da resistência de alguns bispos, Santo Atanásio soube compreender o valor do movimento monástico. Assim, ele o estimulou, influiu bastante nele através de seu contato pessoal e de seus escritos, propagou seus ideais e o estabeleceu definitivamente como movimento de Igreja. É fato que, fora a ajuda de Deus, sua própria convicção e a adesão inquebrantável de seu povo de Alexandria, Santo Atanásio encontrou no apoio entusiasta do monaquismo copta um grande consolo em sua luta e em seus desterros.
E aqui se destaca, de modo especial, a amizade de Santo Antão: chegou a escrever ao imperador Constantino em favor de seu amigo (Sozomeno, 2025). É certo também que, fora do influxo doutrinal, a presença de Santo Atanásio foi decisiva na orientação escriturística e evangélica do movimento monástico. E, entre todas as suas obras, é sua “Vida de Santo Antão” a que constitui sua mais significativa contribuição ao desenvolvimento do espírito monástico.
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A “Vida de Santo Antão” como modelo de perfeição
Santo Atanásio escreveu a “Vida”, mais conhecida como “Vida de Santo Antão”, para alguns, por ocasião de seu primeiro desterro no deserto, na Tebaida, encontrando-se entre os monges, 356-362; segundo outros, tê-la-ia escrito em sua volta definitiva a Alexandria, depois de 366.
Atualmente, já não se discute que tenha sido efetivamente Santo Atanásio o autor da obra “Vida”. O que se discute entre os estudiosos é o seu gênero literário, a veracidade histórica de seu conteúdo e o próprio pensamento de Santo Antão. Parece haver acordo em aceitar que o substancial dos dados contidos na “Vida” corresponde à verdade histórica: Santo Antão, não é, pois, uma figura mítica, pura criação de Santo Atanásio, como tampouco o são as diversas circunstâncias e etapas de sua vida. No essencial, Santo Atanásio é fiel à figura de seu biografado.
Não se pode ir tão longe para afirmar que a “Vida” é um tratado de espiritualidade; trata-se, efetivamente, de uma biografia, que pretende credibilidade histórica, mas que tem, além dessa finalidade expressa, também outra, abertamente declarada: dar aos monges um modelo digno de imitação.
É possível que Santo Atanásio tenha tomado em conta o gênero biográfico da antiguidade e que tenha inclusive conhecido determinadas biografias de autores pagãos que puderam ter-lhe servido de modelo. De qualquer maneira, deseja demonstrar que o copta iletrado que foi Santo Antão superou amplamente todos aqueles heróis ou homens divinizados, não por suas próprias forças, mas pela graça de Deus.
Dadas as estreitas relações entre Santo Atanásio e o mundo monástico do deserto, os discursos espirituais contidos na referida obra refletem a sabedoria experimental dos monges, além da própria sabedoria pastoral do patriarca alexandrino. A conferência espiritual, que constitui uma quarta parte de toda a “Vida”, é a que justamente apresenta o traço que costuma chocar o leitor com o mundo horripilante dos demônios. Esse discurso foi caracterizado às vezes como verdadeira súmula de demonologia.
Talvez, não seja possível dar uma explicação absolutamente satisfatória desse fenômeno. Como todo documento antigo, também a “Vida” dá lugar ao mundo do maravilhoso e, portanto, do demoníaco. Muitos serão os fatores que influíram: incapacidade para discernir causas naturais; a convicção de que deuses e ídolos pagãos eram em realidade demônios, que se enfureciam contra os cristãos por sentir ameaçado seu domínio sobre o mundo, crenças populares e influxos de movimentos ocultistas. No essencial, tem-se aí uma grande sabedoria feita de profunda observação e experiência vivida, unida ao carisma do discernimento e da direção espiritual.
Finalmente, Santo Atanásio apresenta na “Vida”, como tese fundamental, que a santidade ou perfeição cristã, animada pelo Espírito e refletida nas figuras bíblicas (especialmente São João Batista, Nosso Senhor Jesus Cristo, os Apóstolos) e nos mártires da Igreja, continuava ao alcance de todos. Nesse sentido, a “Vida”, continua viva como um documento não só monástico, mas simplesmente cristão, de perene atualidade.
Marcius Tadeu Maciel Nahur Natural de Lorena (SP), Coordenador do Curso de Filosofia da Faculdade Canção Nova. Formado em Direito, História e Filosofia. Mestrado em Direito com ênfase na Filosofia de Henrique Cláudio de Lima Vaz. Delegado de Polícia Aposentado.
Referências
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SANTO ATANÁSIO. Vida de Santo Antão. São Caetano do Sul: Editora Santa Cruz, 2025, 80 p.
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SANTO ATANÁSIO. PATRÍSTICA – Contra os Pagãos; A Encarnação do Verbo; Apologia ao Imperador Constâncio; Apologia de sua fuga; Vida e conduta de S. Antão. São Paulo: Paulus Editora, 2002. 376.
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SOZOMENO, Salamanes Hérmias. The Ecclesiastical History of Sozomen: from AD 324 to AD 425. Tradução de Edward Walford. New Jersey: Evolution Pub & Manufactoring, 2018. 377 p.




