“Santos homossexuais” existem? Essa é uma pauta que surge da presunção moderna de acreditar na capacidade de distorcer a realidade
Em um mundo em que o secularismo encontra cada vez mais espaço, é fácil perceber um fenômeno insustentável, mas que encontra força nas más inclinações do homem. Em uma sociedade promotora de uma liberdade que não reconhece limites, o homem é condicionado a uma visão de mundo restrita à vontade particular. Isso é insustentável, pois o mundo não se faz a partir de um indivíduo e de suas vontades; a verdade está além dessas vontades particulares e inclinações naturais. Portanto, há uma lente capaz de recuperar o equilíbrio que a modernidade deixou de lado: as virtudes morais.

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As virtudes morais permitem que o homem não deturpe a realidade e a perceba como ela realmente é. O abandono dessa lente moral causa diversas consequências, como o crescimento da desconfiança e da falta de coesão entre as pessoas, o enfraquecimento do bem comum, a normalização de comportamentos nocivos, o aumento da violência e a maior suscetibilidade à manipulação ideológica. Na ausência de uma bússola ética, as pessoas passam a ser guiadas por ideologias frágeis, que conduzem ao abandono da pureza. Isso não diz respeito apenas à castidade, mas o abandono da pureza enfraquece a capacidade de ver, desejar e amar o bem com retidão. A impureza enfraquece a inteligência, a vontade e o caráter, além de aumentar a servidão aos maus hábitos.
Ao abandonar a pureza, a sociedade assume o risco de perder a sensibilidade para o real. E esse efeito pode ser percebido na elaboração maliciosa de narrativas que denigrem a história de grandes figuras. De tempos em tempos, grupos se reúnem em torno de um equívoco para celebrarem a si mesmos e suas ideias heroicas, mas “falácias não deixam de ser falácias só porque estão na moda”. Há um fenômeno que ilustra bem o que foi dito acima: pessoas ligadas à comunidade LGBT frequentemente alegam a prática homossexual na vida de alguns santos. No entanto, basta ampliar a análise e examinar honestamente as hagiografias para perceber que aqueles que afirmam tal coisa se apoiam em uma falácia “heroica”.
São Baco e São Sérgio são santos homossexuais?
Um São Baco e São Sérgio são dois santos que, constantemente, são alvos dessas mentiras. Eles foram dois soldados do Império Romano que viveram por volta do século IV, durante o reinado de Diocleciano. Os relatos hagiográficos mostram que os dois tinham profunda amizade, tornaram-se cristãos juntos e, posteriormente, foram martirizados, morrendo pela fé em Jesus Cristo.
A acusação de uma relação homoafetiva entre os dois surge apenas no século XX, com o escritor americano John Boswell. Mas não há fundamento histórico suficiente para aceitar o que Boswell tentou provar. A grande maioria dos historiadores aponta que essa interpretação é anacrônica e consideravelmente enviesada. O autor sustentava que certos ritos bizantinos chamados adelphopoiesis não seriam mera fraternidade espiritual, mas algo próximo de uma união conjugal. A partir daí, Sérgio e Baco passaram a ser apresentados como um possível casal cristão da Antiguidade.
Boswell lê erastai como “amantes” porque, em certos contextos do grego antigo, o termo pode, de fato, sugerir uma relação afetiva mais intensa do que a mera amizade. Ainda assim, trata-se de uma correspondência apenas possível, não direta nem automática. O sentido da palavra varia conforme o gênero literário, o contexto cultural e a intenção do texto. Por isso, a passagem não obriga a conclusão que Sérgio e Baco fossem um casal no sentido moderno. A hagiografia antiga trabalha com uma linguagem simbólica e muitas vezes ambígua, que exige cautela aos extrair fatos conclusivos e evitar equívocos anacrônicos.
Essa interpretação tendenciosa não surge naturalmente, mas é fruto de uma sociedade que esqueceu o que é a pureza; fruto de uma sociedade que enxerga malícia onde há fraternidade, luxúria onde há caridade, vício onde há virtude.
Peçamos a Deus que inflame a pureza em nossos corações, para que sigamos o exemplo de São Baco e São Sérgio, que deram a vida não por uma verdade subjetiva, mas pela Verdade de Cristo.
Matheus Eleutério – Jornalista




