O seu martírio é a prova de amor de um homem a Deus
Depois de celebrar a Solenidade de São João Batista no dia 24 de junho, a Igreja celebra a memória de seu martírio no dia 29 de agosto. Duas datas no calendário litúrgico da Igreja para celebrar uma única vida de santidade. Prenunciado como um arauto munido do espírito e da força de Elias e louvado por Cristo como o maior de todos os profetas, São João Batista preparou os caminhos e os corações para Cristo.
Considerando a grandeza e a missão de São João Batista, podemos dizer que o seu nascimento é a prova do amor de Deus à humanidade, enquanto o seu martírio é a prova de amor de um homem a Deus, isto é, na vida de São João Batista, manifestou-se o amor divino aos homens e o amor humano a Deus.
São João Batista, precursor de Cristo no nascimento e na missão, também é precursor no sofrimento e na morte. O martírio de São João Batista é o prelúdio mais importante da Paixão e Morte de Cristo. Unidos pelo sangue, visto que eram primos, São João Batista e Cristo eram unidos pelo amor, pelos sentimentos, e partilharam igual destino: a morte inocente. Mas, afinal, quais as sementes espirituais podemos tirar do martírio de São João Batista para frutificar na nossa vida?
As sementes espirituais para frutificar na nossa vida
A assemelhação de João Batista a Cristo põe diante de nós o desafio mais importante de nossa vida: tornar-se como Cristo. Assim, dos muitos frutos que o martírio de São João Batista pode produzir na nossa alma, o enamorar-se com Cristo por meio da meditação parece o mais urgente nestes tempos de mentes sobrecarregadas, afetos desordenados e esquecimento das coisas que realmente importam. Cabeça cheia e coração perdido…
Consideremos as seguintes palavras: Transforma-se o amador na cousa amada por virtude do muito imaginar. Esses versos com os quais Camões inicia um de seus mais famosos sonetos servem como chave de leitura para toda história de amor. Camões nos mostra que, de algum modo, transformamo-nos naquilo que amamos, porém, pela virtude do muito imaginar, isto é, pelo hábito de dirigir nossos pensamentos e afetos em direção às coisas e pessoas que amamos.
A primeira conquista de um novo amor é a conquista dos pensamentos
Podemos tranquilamente afirmar que a primeira conquista de um novo amor é a conquista dos pensamentos. Quem conquista nossos pensamentos se torna o centro de nossa atenção, o Deus a quem servimos, a inspiração da vida, o ser a quem daremos a maior parte do nosso tempo. Pela virtude do muito imaginar, mantemos um amor aceso, e nele, paulatinamente, somos transformados. São Paulo, cujo grande amor foi Cristo, pôde dizer, na Carta aos Gálatas 2,20: “Vivo, mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. Cristo conquistou a mente e o coração do Apóstolo Paulo, de modo que a vida do Apóstolo tornou-se a vida de Cristo. Transformou-se no Amado.
Deus nos tornou capazes de amar, porém o alvo do nosso amor determina nossas escolhas, nossos esforços e, principalmente, o modo como administramos o nosso tempo. A nossa história pode ser fielmente contada e entendida a partir dos nossos amores, pois vivemos segundo o que mais amamos. Parafraseando o ditado popular “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”, podemos dizer: “Diga-me com que te ocupas e eu te direi quem amas”.
O alvo do nosso amor é quem dá forma a nossa vida e se torna a razão de tudo o que fazemos. No final das contas, somos transformados por aquilo que amamos. O amor cultivado e vivido é a chave de leitura de uma biografia. Desse modo, a vida de um santo, seus atos, seus sacrifícios, seus sonhos, seus empreendimentos, suas obras, suas alegrias, suas escolhas, seu martírio só podem ser compreendidos a partir do amor a Deus. São João Batista não é exceção, ele viveu e morreu por amor a Deus. O martírio não foi o seu único momento de amor a Deus, mas o ápice de um amor cultivado a vida inteira. O martírio não é um ato improvisado, mas a coroação de um amor crescente, de uma morte diária para as seduções do mundo.
São João Batista amou Cristo com toda a sua alma
Podemos facilmente supor o quanto São João Batista absorvia dos encontros com Cristo para crescer no amor a Deus. São João Batista era um homem de coração abrasado, disposto a viver e a morrer por Cristo. Seu amor a Cristo o levou a reconhecer que era necessário diminuir para que Cristo crescesse. Cristo, de fato, cresceu no coração de São João Batista, pela virtude do enamoramento, do desejo, da contemplação, do muito imaginar. Cristo cresceu tanto no coração de São João Batista, que a morte já não seria uma derrota. Por isso, a cena da cabeça de São João Batista sobre um prato, uma das cenas mais impactantes do Novo Testamento, só pode ser vista sob a ótica do amor a Cristo.
São João Batista amou Cristo com toda a sua alma, com todo o seu entendimento, com toda a sua força. Embora tenham arrancado a sua cabeça, não puderam evitar que todos os seus pensamentos e afetos fossem consagrados a Deus. A cabeça, por abrigar o cérebro e os órgãos sensoriais, é símbolo da vontade, da consciência e da inteligência humana. A cabeça de São Batista foi capturada, mas a sua consciência e sua vontade jamais tiveram sob o domínio do mundo. Em muitas culturas e épocas, ostentar a cabeça simboliza a vitória sobre os inimigos. São João Batista, porém, não foi derrotado. Em sua aparente derrota, está a vitória de quem amou até o fim. Seu corpo já poderia descansar, pois Cristo já havia conquistado todo o seu ser.
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A quem estamos consagrando o nosso pensamento?
A quem estamos consagrando o nosso pensamento? O martírio de São João Batista é um exame de consciência sobre os amores que temos alimentado. É digno recordar que São João Batista era uma asceta, isto é, um homem de mortificação dos sentidos. Através da mortificação dos sentidos, ele se unia mais plenamente a Deus. Era um homem de combate interior e verdadeira amizade com Deus. Seu martírio pode nos inspirar a combater para que Cristo domine os nossos pensamentos. Nossa mente é um verdadeiro campo de batalha no qual Cristo deve triunfar. A frequente elevação do pensamento a Cristo será a nossa luta diária. Os frutos de amor a Cristo brotarão na nossa alma, o nosso coração arderá e, paulatinamente, nos transformaremos n’Ele, pois transforma-se o amador na cousa amada por virtude do muito imaginar.
Gerson Aristovio Fernandes Carvalho
Arquidiocesana de Diamantina, Mestrando em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma.