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Zacarias e Isabel: um novo olhar, uma nova história

Conheça Zacarias e Isabel, os pais de João Batista

Jesus transformou a história e inaugurou um tempo de salvação para a humanidade. Nessa formação, vamos conhecer dois personagens que estavam na dobradiça do tempo, testemunhas do passado e agentes do projeto de salvação de Deus: Zacarias e Isabel, pais de João Batista. A história deles, narrada com beleza por Lucas, será nossa inspiração, para que descubramos como inaugurar também em nós o momento da graça do Senhor.

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Hoje é o tempo da salvação!

No Evangelho de Lucas, muitas vezes, encontramos a palavra “hoje”. Em primeiro olhar, parece que ele fala do dia de hoje, do tempo presente: “Hoje, a salvação entrou nesta casa” (Lc 19,9), “Hoje, cumpriu-se aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura” (Lc 4,21); “Hoje, estarás comigo no paraíso” (Lc 22,43). Mas quando mergulhamos no texto de Lucas, percebemos que a insistência no tempo não acontece olhando para um relógio. Para o terceiro evangelista, estamos em um tempo novo: hoje é o tempo da salvação!

Espelho perfeito do Antigo Testamento

É com essa compreensão que encontramos, no primeiro capítulo do Evangelho de Lucas, dois anciãos ali no Templo de Jerusalém, Zacarias e Isabel. A narrativa da vida de Jesus começa no Templo, lugar das promessas. Segundo a tradição, Deus havia escolhido o Santuário (a parte mais central do Templo) para habitar, santificando todo o espaço. Nas peregrinações, não devia ser raro ver um judeu olhando de longe o Templo e chorando, cantando os salmos de subida!

Quando o texto começa a apresentar os pais de Zacarias (Lc 1,5-6), vemos dois currículos invejáveis. Zacarias é descrito como sacerdote, ou seja, aquele responsável por unir o povo a Deus. Isabel era descendente de Aarão, o maior sacerdote que já existiu! O texto emociona o leitor ao descrevê-los como justos, irrepreensíveis e fiéis aos mandamentos do Senhor.

Zacarias e Isabel são a perfeita descrição do judaísmo clássico: berço das promessas, dotados de um sacerdócio instituído por Deus, com tradição no sangue e fidelidade nas atitudes. São o espelho límpido que mostra todo o caminho do Antigo Testamento.

Na dobradiça do tempo, a esterilidade e a esperança

A descrição não para por aí, mas o que segue choca o leitor. Ambos são estéreis, uma das piores desgraças para o povo da época. Mais: já eram idosos, o que roubava qualquer luz de esperança em receber as bênçãos de Deus. Nisso, também são imagem de seu povo. Na falta de filhos do casal, vemos estampada a marca de um judaísmo verdadeiramente estéril: o Templo estava manchado pela corrupção dos sacerdotes, um ritualismo cego marcava muitas de suas práticas litúrgicas, e para o povo parecia que o tempo de glória já havia passado e que, no fundo, nada iria mudar.

Contudo, estamos na dobradiça do tempo. Isabel e Zacarias são espelho perfeito de um povo que sofre, mas que espera a intervenção de Deus, o único capaz de mudar todas as coisas, senhor do tempo, que dá a salvação. De fato, Zacarias foi visitado pelo anjo de Deus enquanto orava dentro do Santo dos Santos, a habitação de Deus, e ali, diante dele, percebeu que estava na dobra da história. Zacarias foi convidado a colocar-se dentro do projeto de salvação e ser pai do precursor, preparando a chegada do Messias e abrindo o tempo de graça, tempo de Deus, tempo de salvação!

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É preciso escolher!

Muitas vezes, nós também nos deparamos com Deus intervindo em nossa história. Muitos esperam grandes milagres, a cavalaria celeste tocando trombeta e descendo do céu para nos ajudar em nossas necessidades. Porém, no caminho, descobrimos que a ajuda de Deus, muitas vezes, vem em forma de um convite a olhar para o futuro, vendo a vida com os olhos de Cristo.

Na dobradiça do tempo, deve-se escolher. Uma opção é alimentar-se das teias de aranha do passado, vivendo dos nossos currículos cheios, para tentar esconder nossas esterilidades e um templo interior esvaziado de sentido. A outra é ser como Zacarias e Isabel: olhar o sofrimento com os dois pés dentro do tempo de graça, compreendendo que o Senhor da história também é Senhor de nossa vida. Para quem crê, todo tempo é tempo de salvação.

Fabrizio Zandonadi Catenassi
Mestre e doutorando em Teologia (PUCPR); professor de Sagrada Escritura (Católica SC); membro da diretoria da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica; assessora cursos bíblicos e retiros no Brasil e na América Latina.

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