Finados

Terceira parte: o sentido da morte para os cristãos

Uma reflexão acerca da morte

Caro internauta, embora estejamos tratando sobre a morte nesta série de artigos, não posso deixar de fazer um breve aceno para a importância do dia de hoje, Dia de Todos os Santos. No Brasil, por determinação da CNBB e autorização da Santa Sé, esta solenidade será celebrada no próximo domingo.

Portanto, no dia de hoje (no Brasil, domingo), a Igreja de Cristo está em festa. Porém, ela não celebra sozinha este momento; pelo contrário, se une a todos os santos canonizados e a todos os justos de toda raça e nação, cujos nomes estão inscritos no livro da vida.

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Foto Ilustrativa: Marjan_Apostolovic by Getty Images

Essa solenidade foi instituída pela Igreja para que todos os fiéis possam meditar a respeito da missão que cada ser humano possui: a busca da santidade. Ao mesmo tempo, essa solenidade nos ajuda a recordar dos milhares de santos que nos precederam no céu e já contemplam a face de Deus.

Se, no artigo anterior, tivemos contato com a visão da Igreja Católica acerca da morte, neste artigo, quero propor uma reflexão muito interessante que faz uma relação entre o tipo de vida que escolhemos viver e algumas qualidades de mortes, frutos dessas escolhas.

Duas qualidades de morte

No judaísmo rabínico, existe o registro de uma coletânea reflexões intituladas Talmud. Certa vez, tive contato com uma dessas interessantes reflexões que apresentava o seguinte pensamento: existem mais de novecentas qualidades de mortes. A pior delas pode ser comparada ao estrangulamento, e a mais agradável comparada a um beijo.

Por trás dessa analogia, existe um profundo ensinamento. Tentemos refletir essas duas imagens de “morte”. Se, por um lado temos uma morte traumática a ponto de ser comparada ao estrangulamento, por outro, ela se mostra leve e agradável como um beijo. Essas duas qualidades da morte se referem a tipos diferentes de pessoas.

Sem julgamentos, tente imaginar uma pessoa que tenha passado toda a sua vida investindo nos prazeres carnais, com excessos no comprar, no comer, vaidoso, preocupado com sua imagem, fugindo dos sofrimentos. Alguém que possui um desejo insaciável ter sempre mais e mais, não se contentando com o que já tem, apegado excessiva e descontroladamente pelos bens materiais e no dinheiro, possuidor de um desejo passional e egoísta por todo o prazer sensual.

Imaginou? Certamente, essa pessoa se identificará tanto com o seu corpo, com a matéria e com as emoções, com este mundo, de modo que, estando diante da possibilidade de lhe ter retiradas todas essas realidades, haverá uma perda de equilíbrio. Assim, a morte poderá ser vista por ela como um peso, como um estrangulamento.

Leia mais:
.: Finados: somente a fé é capaz de dar significado a esta data
.: Primeira parte: o sentido da morte para os cristãos
.: Segunda parte: o sentido da morte para os cristãos
.: Como podemos falar sobre a morte com as crianças?

Você pode escolher entre o estrangulamento e o beijo

Em contrapartida, existem indivíduos que, diferentemente da primeira, passaram a vida inteira investindo em questões mais relacionadas ao espírito. Refiro-me àquelas pessoas que procuraram um sentido transcendente para a vida, buscando a vivência do amor ao próximo, o equilíbrio, o perdão, a fraternidade, a ascese, a gratidão, a alteridade, o entendimento.

Imaginou também? Nesse caso, seria muito aceitável afirmar que a morte não terá o mesmo peso se comparada à primeira situação. A morte, no segundo caso, seguramente será vista com mais leveza. Quem conseguiria imaginar, por exemplo, uma madre Tereza de Calcutá preocupada com a morte? A morte, portanto, pode adquirir a qualidade de um beijo.

Diante dessa reflexão, é possível constatar que o nó da questão não se encontra na morte propriamente dita, mas no tipo de vida que se decide levar. Quem opta por investir sua vida nas questões materiais, a morte representará agressão e perda. Por outro lado, aquele que optar por uma vida voltada para as questões do espírito, encarará a morte com desassombro e leveza.

Gostaria de fazer um pequeno ajuste. Usei acima dois exemplos, um voltado exclusivamente para a carne e o outro fortemente voltado para o espírito. Contudo, a nossa vida real é uma mistura dessas duas realidades. Assim, sabendo que a nossa vida contingente nos obriga a lidar a todo instante com a matéria, não podemos perder de vista que também somos seres espirituais. É a constante busca pelo equilíbrio.

Você sabia que a Santa Igreja reza pelos mortos em cada Eucaristia?

O Papa Francisco, na Audiência Geral do dia 30 de novembro, disse que “rezar pelos defuntos, antes de tudo, é um sinal de gratidão pelo testemunho que nos deixaram e pelo bem que praticaram.” A oração que fazemos é, também, ação de graças ao Senhor pela oportunidade que tivemos de conviver com essas pessoas que já não se encontram mais entre nós. É por isso que a Igreja reza pelos defuntos de modo muito particular durante a Santa Missa.

Em cada Eucaristia, a Santa Igreja reza por todos os nossos irmãos que partiram desta vida rumo ao céu. Existe um momento específico em cada Oração Eucarística dedicado aos fiéis falecidos. A Oração Eucarística primeira, por exemplo, apresenta essa súplica: “Lembrai-vos, ó Pai, dos vossos filhos e filhas que partiram desta vida, marcados com o sinal da fé […]”. Na Oração segunda temos: “Lembrai-vos dos nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta vida: acolhei-os junto a vós na luz da vossa face”. Citei um pequeno trecho do “memento dos defuntos” das duas primeiras Orações Eucarísticas do Missal Romano, mas todas as outras possuem uma oração dedicada aos que morreram.

Existe também uma linda oração pós-comunhão que eu gostaria muito de partilhar com você: “Ó Deus, pela Eucaristia que celebramos, derramai vossa misericórdia sobre os vossos filhos e filhas falecidos; e aos que destes a graça do batismo, concedei-lhes a plenitude da alegria eterna”.

Tudo isso nos leva a constatar que Deus, por meio de Sua Igreja, faz todo o possível para conduzir cada alma para o céu.

No artigo de amanhã, nosso assunto está mais voltado para a celebração do Dia dos Fiéis Defuntos. Vamos descobrir quando esse dia surgiu e o sentido que existe por trás dele. Falaremos também sobre as indulgências que poderemos lucrar para os nossos irmãos falecidos.

Deus abençoe você
Até amanhã!


Gleidson Carvalho

Gleidson de Souza Carvalho é natural de Valença (RJ), mas viveu parte de sua vida em Piraúba (MG). Hoje, ele é missionário da Comunidade Canção Nova, candidato às ordens sacras, licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia, ambos pela Faculdade Canção Nova, Cachoeira Paulista (SP). Atua no Departamento de Internet da Canção Nova, na Liturgia do Santuário do Pai das Misericórdias e nos Confessionários. Apresenta, com os demais seminaristas, o “Terço em Família” pela Rádio Canção Nova AM. (Instagram: @cngleidson)

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