ofanins

O coro dos anjos tronos: adoradores habitados por Deus

“Enquanto eu olhava, vi ali quatro rodas junto aos querubins, uma roda junto a cada um deles…, as quatro rodas tinham o mesmo aspecto como se estivesse uma dentro da outra, ao se moverem caminhavam nas quatro direções e não se voltavam” (Ez 10,9-11). Os tronos, ou ofanins em hebraico, são os seres espirituais que estão próximos do trono de Deus junto com os serafins e querubins. Na visão de Ezequiel, eles formam as “rodas” do carro de Deus. Caminham juntos ao lado dos querubins e possuem a forma de fogo, tendo o seu reflexo límpido como o crisólito (Ez 10,9). Eles formam o terceiro coro da primeira hierarquia celeste. Possuem uma característica singular no modo como adoram a Deus. Se os serafins queimam na presença do Deus Todo-poderoso, e os querubins possuem a graça do sustento da shekinah divina, a tal ponto de ter em meio a eles as brasas da presença do Senhor, os Tronos, por sua vez, são habitados por Deus.

De fato, os anjos do terceiro coro da primeira hierarquia celeste possuem a graça de serem chamados de SEDE DEI (trono de Deus), no sentido que são o “assento” onde Deus possui seu trono. Com esses maravilhosos seres celestiais, aprendemos a dimensão da adoração feita e vivida na comunhão e na unidade, buscando se assemelhar ao modo como Deus se relaciona consigo mesmo, isto é, em um movimento de amor que sai de si em direção ao outro e ao mesmo tempo volta para dentro de si1.

O coro dos anjos tronos: adoradores habitados por Deus

Foto ilustrativa:

Vamos entender melhor sobre os anjos tronos?

A tradição judaica-cristã, de um modo especial aquela patrística, viram os santos anjos tronos como aqueles que não estão somente diante do mistério de Deus ou possuem a Sua presença fulgurosa em meio a eles, mas carregam esta presença em si mesmos, ou melhor, dentro de si. Então, podemos dizer que a adoração dos tronos está baseada em uma profunda intimidade com o seu Criador.

1 – Movem-se como rodas de fogo: movimento de amor

Os tronos são normalmente representados como rodas aladas que estão entrelaçadas entre si. Na teologia bizantina, a luz da visão de Ezequiel, os tronos são as “rodas” do carro de Deus. Enquanto os querubins sustentam a glória do Altíssimo, os tronos, por sua vez, carregam em si a presença inefável do Todo-poderoso. Mas por que roda?

No mundo antigo, a roda tinha o significado de movimento que a divindade realiza em direção a alguém2. Neste sentido, podemos dizer que os Ofanins possuem em sua natureza angélica a capacidade de adorar a Deus em uma atitude de constante saída de si, fazendo com que a sua adoração não seja algo externo somente, mas profundamente íntimo e secreto.

Então, o que podemos aprender é que a relação desses com o Senhor se constitui tão profunda a ponto de esses se moverem como rodas levando sobre si a onipresença divina em sem íntimo. A vida desses anjos está profundamente ligada ao desejo constante de servir a Deus em intimidade e unidade, comunicando aos outros das hierarquias inferiores a maravilhosa realidade da habitação de Deus dentro do coração de cada adorador3.

Sendo habitados por Deus, esses nossos irmãos se tornam o modelo de como é a vida de um adorador. Eu gostaria de fazer uma analogia de como os santos tronos poderiam nos ensinar sobre essa inabitação de Deus dentro deles.

Imaginemos uma lâmpada. Jesus nos ensinou que nós somos a luz do mundo (Mt 5, 13-16). Ora, a luz da lâmpada não lhe pertence, porque a lâmpada (lampião por exemplo) carrega dentro de si a luz do fogo que ilumina do seu interior para fora. Nesse sentido, podemos dizer que ser luz do mundo para o cristão é levar em seu seio a presença d’Aquele que habita a nossa alma, isto é, o próprio Deus Uno e Trino. Não somos nós a luz, mas Aquele que habita em nós e veio a este mundo (Jo 1, 9) é a única fonte de iluminação em meio às trevas. Portanto, o que aprendemos com esses irmãos é que eles são portadores da presença de Deus para os anjos e homens, como uma lâmpada que ilumina de dentro para fora.

2 – Carregam em si a presença de Deus

Uma outra característica dos santos tronos é aquela de “carregarem” a gloria de Deus. Ao mesmo tempo que são comparados a rodas incandescentes que levam de um lado para outro a inabitação divina dentro de si, eles também são considerados os assentos de Deus. Ora, tal analogia a um assento nos dá a ideia de que eles estão abertos a acolher em si a presença do Rei e toda a Sua majestade. Portanto, podemos também dizer que esses nossos irmãos estão profundamente ligados à realidade de governo e autoridade que emana diretamente de Deus4.

São Tomás de Aquino afirma que os tronos, por terem esta característica de acolherem em si mesmos a presença do Senhor, podem ser considerados os anjos que estão em maior intimidade e proximidade com Deus, uma vez que o próprio Deus a toca com a Sua presença fulgurosa ao “assentar-se “ neles. Este assentar deve ser entendido como uma espécie de posse, e de habitação5. Sendo assim, a união destes com o Senhor faz sim que estes não se corrompam, nem mesmo se deixem levar por outras distrações, uma vez que possuem em si mesmos toda a fonte de toda bem-aventurança. Já aqui aprendemos uma grande lição com os ofanins, a plenitude da nossa existência não está na beleza exterior e nas simples aparências, mas na riqueza interior da presença do Todo-poderoso dentro de nós.

Leia mais:
.:Nós somos irmãos de anjos?
.:A hierarquia dos anjos e o modo da adoração no Céu
.:Os anjos serafins: adoradores de fogo
.:Anjos querubins: guardiões da adoração

Para entendermos melhor, faço uma outra pergunta: o que é mais precioso, a caixa do tesouro ou o tesouro em si mesmo dentro da caixa? Claro que é o tesouro! Por mais que a caixa seja esplendorosa, o que a valoriza em sua plenitude são as pedras que dentro dela se encerram. Do mesmo modo são os tronos: podemos nos maravilhar com a beleza luminosa de seus rostos, mas a maior beleza deles está no fato de terem dentro de si a fonte de todas as belezas. O que torna um poço precioso? Não é a decoração da sua borda, mas a água que este pode dar. Do mesmo modo, temos que entender que aquilo que está dentro torna precioso o que está fora.

O que podemos aprender com esses nossos irmãos?

Eles nos ensinam que a vida verdadeira, aquela que um dia experimentaremos eternamente, consiste em cada vez mais nos deixarmos ser habitados por Deus. O cume de toda intimidade é quando deixamos que alguém habite dentro de nós. Assim o amor é perfeito, porque nos une ao amado. Sobre os tronos, São João Paulo II nos diz que Deus, a perfeição por excelência, deixa-se refletir nos tronos. Então, podemos dizer que os anjos tronos são reflexos da perfeição divina6.

Ao término desta nossa breve reflexão, o que podemos aprender com esses nossos irmãos? Que mesmo sendo pequenos, podemos deixar o espaço do nosso coração para que Deus se assente e tome posse como único Senhor de nossa vidas. Peçamos a intercessão dos nossos irmãos Tronos. Eles nos auxiliam na busca constate por Deus e no desejo de nos unirmos a Ele. Quando alguém está longe do Senhor, procuro invocar a presença deles, para auxiliarem o perdido, fazendo-o redescobrir a grandeza de ser reflexo do Todo-poderoso que se faz pequeno para nos encontrar.

Referências:

1 Cfr. SÃO TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica II, Edições Loyola, São Paulo 2005, Q. 108, Art. 5, p.776.
2 Cfr. DICIONARIO DE FIGURAS E SÍMBOLOS BÍBLICOS, Paulus, São Paulo 2006, p. 211-212.
3 Cfr. PSEUDO-DIONISIO, Hierarcha celeste, BIBLIOTHECA PATRISTICA, VII, p. 14.
4 Cfr. GREGORIO MAGNO, Ommelie XXXIV, 1.
5 Cfr. SÃO TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica II, Edições Loyola, São Paulo 2005, Q. 108, Art. 6, p.777.
6 Cfr. GIOVANNI PAULO II, Udienza Generale, Quarta Feira, 9 de Julho 1986, 4.

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Rafael Brito

Rafael F. de Brito é missionário do Movimento Aliança de Misericórdia. Professor e pregador, ele é mestre e doutorando em Teologia Dogmática pela Universidade Gregoriana de Roma, e mestre e doutorando em filosofia pela Universidad Pontificia de SALAMANCA. Casado, Brito é, atualmente, residente em Roma, Itália.

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